ORNITORRINCO

LASANHA DESMONTADA

Sexta-feira, 15:26, gostosinha essa lasanha de sei lá o quê com já esqueci, realmente uma graça esse Restaurante Incrivelmente Politicamente Corretíssimo em Copacabana, perigava até me bater uma saudade relâmpago da lasanha lá de casa, na época em que lá em casa ainda significava ser criança e chegar da escola e encontrar comidas prontas ao se chegar em lá em casa, e o cochilo sagrado que eu tirava depois do almoço antes do curso de inglês, até hoje acho engraçado existir lasanha de sabor diferente tipo essa agora aqui do Corretíssimo, pra mim lasanha era só ou de presuntiqueijo ou de carne moída, que eram as que a Cleuza fazia, que eram as que tinha lá em lá em casa, e o cochilinho sagrado depois da bóia, e o ódio à língua inglesa cuja existência me retirava o direito a um cochilo prolongado, cuja existência me retirava o direito de ir brincar na quadra à tarde, qualquer dia desse eu crio coragem e peço pra mãe me tirar do curso, ainda não criei mas qualquer hora dessas eu vou e crio e peço, peço pra me tirar, se ao menos a mãe não tivesse tanto orgulho de pensar que um dia as filhas dela vão saber falar inglês, eu sei que ela vai gritar mas mesmo assim eu vou pedir, ah peço, pense na quantidade de crianças que estão se divertindo no mundo enquanto eu estou no curso de inglês, mãe, além do quê uma garota lá deu de dizer que tem uma cachorra chamada Kelly e todo mundo agora tá me chamando de AuAu, eu digo que o meu Keli é com “i” e que portanto não é o mesmo da cachorra, mas eles não ligam para grafias, não entendem o valor  da grafia para a palavra, estão me chamando de AuAu, está difícil pra mim, a cachorra da dona da cachorra se chama Raquel e ela é gorda e feia e burra, e o irmão dela, que também é da nossa sala, é também gordo burro e feio, eu ando cheia de vontade de dizer isso pra ela mas tô me segurando, por enquanto tô me segurando, mãe, só não sei dizer até quando, essa Raquel que me aguarde, minha mãe dizendo “o que vai contar no futuro é inglês e computador, tem que saber”, minha mãe – uma verdadeira visionária, e por conta disso lá se vai outro motivo pra eu nunca poder dormir mais um pouco mais depois do almoço e nem poder ir brincar na quadra, o bendito curso de MSDOS que abriu lá no quartel do pai, em quartel só pode entrar de calça, mesmo você sendo apenas uma criança aprendendo a mexer no MSDOS devido ao que sua mãe tem de visionária, um dia eu esqueci o mandamento, não sei como, logo eu, fui de bermuda para o MSDOS, meu coração gelou quando eu reparei, já na porta do quartel, de bermuda, que distração, que calamidade, era como xingar deus em sua própria casa, não me lembro agora se me mandaram voltar pra casa por conta da bermuda ou se me deixaram assistir aula à margem da lei, mas talvez fique melhor dizer: nos mandaram voltar pra casa, eu e a bermuda, a maravilha suprema, a chance rara de voltar pra cama e depois ir brincar na quadra, a quadra deve tá cheia de gente hoje, sexta-feira a quadra bomba, sexta-feira todos os meninos do colégio militar descem pra jogar bola, eu já estou na idade de paquerar os meninos do colégio militar mas os meninos do colégio militar não estão lembrando de me paquerar, eu, que lutei tanto para que em quadra fôssemos todos iguais, já sou uma das primeiras a ser escolhida quando batem time, diferentemente da Raquel, balofa, que na vila dela ela deve de ser a última a ser escolhida, se é que consegue correr atrás de bola com tanta banha que ela é, gorda pesada, Kelly com dois LL e Y não sou eu, digo e repito, mas em quadra tudo vai de vento em popa, o problema é quando o jogo acaba e eu volto a ser menina e ninguém repara, hoje foi lasanha, minha barriga tá pesada porque eu comi muito porque é muito boa a lasanha que a Cleuza faz, naquele tempo não se contava caloria, se vivia, mas olha aí, o rádio-relógio pra me lembrar que o future existe, se ao menos todos falássemos a mesma língua e eu pudesse dormir mais um pouco à tarde, se ao menos todos falássemos a mesma língua e eu pudesse digerir melhor a lasanha da Cleuza, quem sabe até assistia uns desenhos antes de ir pra quadra, a mãe diz que amanhã não vai ser ninguém quem não souber inglês, mas o amanhã da minha mãe ainda tá muito longe pra mim, ainda mais hoje que eu comi lasanha como se não houvesse amanhã e tá todo mundo na quadra menos eu, porque eu estou em Bento Ribeiro aprendendo inglês, planes are the safest means of transportation, quando aprendi a falar essa frase fiquei me achando a Tina Turner, falei muito rápido pra impressionar minha mãe, ela perguntou o que queria dizer, eu expliquei, não tinha graça nenhuma a explicação, mas eu expliquei, só queria me exibir pra ela, mostrar que o meu futuro estava cada vez melhor, andar de avião é coisa de rico e eu até hoje nunca andei, nunca andei embora seja obrigada a levantar do meu cochilo para que me ensinem a repetir que planes are the safest means of transportation enquanto me pergunto se o inglês falado em Bento Ribeiro é realmente o mesmo que se fala em Nova York, as frases que aprendemos no curso são sempre tão não-de-verdade, será que um dia eu ainda vou usar na vida essa frase?, planes are the safest means of transportation, só se alguém me perguntar a minha opinião about planes e eu fingir que é essa a minha opinião about them, e será que juntando all of esses books eu vou conseguir um dia on the table, por exemplo, talk about my feelings and stuff?, ou poder ver um filme sem legenda, mas fica sempre nessa mesma história de oops, an apple!, e Watch out, Daniel Robinson!, Mister and Misses Strikeland are on their yard, ou será que seria in their yard?, mas corta para INTERIOR DIA – RESTAURANTE INCRIVELMENTE POLITICAMENTE CORRETÍSSIMO EM COPACABANA, 20 ANOS DEPOIS, when the future é uma coisa tão antiga que já até passou, e o agora is just me paying for the funny lasagna, Cleuzaless and motherless and tantas-outras-coisasless, and nobody plays mais na quadra anymore, e onde será que estão all of those boys right now, e será que a quadra is ainda still there?, and how many children será que Rachel gorda have?, ou pra gorda será que é has que fala?, e foi só a lasanha e o suco, senhora? yes, it foi, e would you want mais alguma coisa, madame? e eu No, that would be all, thanks, é R$19,50, débito?, sim, please, obrigada, senhora, volte sempre, imagina, thank you você, it’s been such a pleasure, yours truly, Keli com i.


Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 13/09/2013 por em Keli Freitas.
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