ORNITORRINCO

A FIDELIDADE BOÊMIA

Todo boêmio tem um bar onde o sabor da cerveja é melhor. Contexto é tudo, e a fidelidade boêmia é tão difícil de ser conquistada e mantida quanto em um casamento. Porém, há muito mais entre o bar e o bêbado do que podem explicar nossas tristes lógicas. O lugar pode ser imundo, e o serviço, o pior, e ainda assim se tornar endereço certo nas madrugadas febris.

A analogia com o casamento procede. Um relacionamento bem sucedido se apoia em três pilares: tesão, admiração e bom papo. O que acenderá cada um desses elementos não interessa – você pode sentir tesão e admiração pelo que quiser, e o bom papo deve ser também silencioso. Momentos diferentes farão com que a importância de cada um desses pilares mude, mas se perdermos um deles a casa cai.

As bases de um bom bar são cerveja gelada (tesão), preços razoáveis (admiração) e uma frequência interessante (tesão/bom papo). Simpatia ou eficiência por parte dos garçons não são exigências – luxo equivalente ao cônjuge também amar sua banda preferida ou torcer pelo seu time. No entanto, os tais três pilares não podem faltar. Boêmios são animais promíscuos e coletivos que, sem que se perceba, migram atrás de desbravadores, rumo a um novo mundo com o mesmo ímpeto com que antes infestavam o boteco da esquina.

Após anos de peregrinação adolescente em busca da terra prometida – entre batidas de limão e doses de xiboquinha – a primeira meca boêmia do meu grupo de amigos foi o Baixo Gávea  – mais precisamente, o Hipódromo. Ainda que a comida do Braseiro já fosse superior, o Hipódromo, mais tosco, sustentava a aura de bons tempos abstratos que jamais vivemos, enquanto o Braseiro, repleto de globais e picanhas milionárias, nos parecia excessivamente mainstream. Verdade que o Braseiro tem como trunfo o Chico, titular absoluto da seleção carioca de garçons. O Hipódromo, no entanto, responde com Lacerda, outro gênio das quatro linhas da mesa de bar, infalível em qualquer convocação.

Nos bons tempos da Era Gávea, era possível sair de casa com dez reais, pegar um ônibus, tomar três chopes, outro ônibus na volta, e ainda guardar uma moeda de troco no cofrinho. O Baixo Gávea era a extensão natural do CEP 20.000, e a festa nunca terminava. Um dia, no entanto, veio a fatídica notícia: o Hipódromo passaria a fechar cedo. Ordens da prefeitura. Aos poucos, naturalmente migramos para o Baixo Leblon.

Começamos pelo óbvio: Pizzaria Guanabara, patrimônio histórico de outras gerações, que só fechava sob o sol a pino do último cliente. No entanto, desde o início a Guanabara deixou claro que não precisava de nós. Por mais livres que sejamos, é preciso ao menos se sentir especial em um relacionamento. Do outro lado da rua, após um pequeno incêndio que ardeu sua frequência, o Diagonal flertava conosco, com a promessa de algo pleno e duradouro. Um relacionamento adulto. Ocupamos o salão e lá construímos nosso novo lar.

Russo, garçom que nos recebeu no Diagonal com gentileza e destreza – e até hoje é amigo de todos – rapidamente foi convocado para vestir a camisa dez da seleção carioca. Pra mim, é o maior. Em 2006, me hospedei por uma semana em um hospital, a fim de me despedir de meu apêndice inflamado. No dia de minha alta, Russo foi me visitar, garantindo que nem mesmo Vinicius de Moraes recebeu tratamento igual de um garçom.

Como em todo relacionamento sério, cada detalhe pode ser monumental. Fofocas, erros de avaliação e falhas na comunicação fizeram com que deixássemos de frequentar o Diagonal. Foi uma espécie bizarra de divórcio, em que nenhuma das partes gostaria de se separar. Aconteceu. Vida que segue. Era novamente hora de migrar.

E aqui chegamos à era de ouro de nossa boemia. O bar era o Itahy do Leblon. O chope era dois por um. E dois novos titulares passaram a compor o escrete carioca de nossos corações: Genilson, carinho puro e amigo para todas as horas, e Agenor. O Itahy vivia às moscas, e a sensação de fundação, de descoberta do ouro, unia os poucos frequentadores de então. Só quem esteve sabe. Não haverá outro ano como 2008.

A dinastia Itahy, no entanto, não durou muito – invadida por hordas de adolescentes em fúria, derrubando assim um dos pilares do relacionamento. O fim foi suave e amigável, e vez em quando voltamos lá, com o prazer seguro de ex-namorados que se frequentam. É orgasmo certo, ainda que melancólico.

Reunião do ORNITORRINCO no Alfa Bar.
Gabriel Pardal, Domingos Guimaraens, Vitor Paiva e Camilo Lobo.

Hoje o ponto de encontro é o Alfa Bar. Talvez seja um sinal dos tempos, mas os melhores dias no Alfa não são quando a lotação da Comuna, do outro lado da rua, transborda para suas dependências. O ouro está nas noites mais vazias, rodeadas somente por coringas da boemia de Botafogo. Há algo de essencial no Alfa, sem glamour, mal iluminado, com mesas de plástico e serviço rudimentar – como quando se cresce, e a mulher dos sonhos deixa de ser simplesmente a mais bonita ou gostosa – que traz de volta a razão primordial de se amar a boemia: o encontro. No entanto, o dilema da monogamia e do amor romântico prossegue. Sempre haverá o próximo bar.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 11/09/2013 por em Vitor Paiva.
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