ORNITORRINCO

SOBRE O VIRTUOSISMO INFLACIONADO DE UMA BUNDA IMPRESSIONANTE (Das Ambivalências I)

A marcha das vadias traz, em seus limites, uma problemática que não pode deixar de ser encarada.

Quero deixar claro desde já que nem de longe faço qualquer concessão em favor daquilo que se chama de culpabilização da vítima nos casos de estupros, tentando imputar neste ou naquele modo de se comportar das mulheres vítimas às causas de abuso.

Sobre todos os aspectos julgo o estupro um crime hediondo por excelência e, pessoalmente, considero ainda mais repulsivo do que o homicídio, só o comparo à tortura física. Ponho o ‘física’ não porque desconheça a existência das técnicas de tortura psicológica e lavagem cerebral, sem contar temas como assédio moral, mas na escala do dano, creio que a tortura psicológica é muito mais controversa para poder ser comparada com qualquer violação direta infligida ao corpo.

Uma analogia contra esse lugar fácil que muitos caem ao tomar certas falas como ofensas cruéis – a recentemente descoberta Síndrome de Lussandro -, é que apesar de serem formas de dominação e manutenção de convívios sociais hierárquicos e nefastos, é difícil considerar que é a mesma coisa ser um escravo – cujo o corpo está a disposição do dono para o açoite – e um trabalhador assalariado. Devo dizer que, por outras razões, não se pode dizer o mesmo com absoluta convicção na comparação entre o “sujeito monetário sem dinheiro” e este mesmo escravo, uma vez que ao segundo ainda resta o consolo de saber que vai ser preservado contra a inanição e as intempéries se o seu proprietário não for um sádico.

Charge de Jurij Kosobukin

Passo a fazer uso de uma memória ingênua, mas esclarecedora do aspecto específico que quero suscitar. Estava reunido com alguns amigos no Porto da Barra, aproveitando o sol brilhante e quente do verão soteropolitano, bebendo uma cerveja gelada e jogando conversa fora quando surge essa mulher, cujo o nome não me recordo, mas cuja a impressão da bunda será sempre inesquecível, digo impressão porque relembro a impressão, não claramente da bunda em si mesma.

“Ela tem uma bunda incrível”, considerei. “Uma das maiores bundas que já vi em consonância com o corpo, ultrapassa um tanto a escala áurea, o que confirma que não há regras que prevejam a beleza insuspeitada”. Não fui o único a ficar impressionado. Como se não bastasse, a moça usava um biquíni que realçava ainda mais sua distinção natural – não era silicone, nem malhação, foi mais tarde confirmado.

Um dos meus amigos, o mais ‘embriagado’, tomou a iniciativa e começou uma conversa. Em poucos minutos estávamos todos conversando, ela, sua amiga, meus amigos, eu. Não me recordo muito da conversa, já faz algum tempo, mas a aproximação arrefeceu em grande medida meu encanto com a paisagem vislumbrada só a distância.

Mencionamos que iríamos a um show naquela noite, por coincidência elas também iriam, daí que combinamos todos de nos encontrarmos por lá. Nos encontramos e lá estava ela, não mais de biquíni, porque para o bem ou para mal em Salvador não há Sapucaí, mas num short bem colado e curto. Uma vez mais sua bunda se via ressaltada naquela peça de vestuário.

Ao fim saímos todos juntos para comer algo. Já na mesa do bar, em algum momento, ela se queixou de maneira um tanto aberta, um tanto velada, de que os homens reparavam muito na sua bunda, mas muito pouco em seus outros atributos. Não estavam interessados nela como mulher inteira, senão no fetiche elevado a condição de totem dos indiferenciados machos tupiniquins, bárbaros primitivos.

Aquilo me retirou dos meus pensamentos já distantes da região glútea, apreciando um aromático baião de dois, outra vez acompanhado por uma cerveja apropriadamente gelada, como é quase lei se servir em Salvador, para lhe dizer que a história não era toda essa. Perguntei na lata o que afinal ela fazia para ser vista de outra maneira, digo, não que não pudesse também ostentar o que era seu de direito e de talento, mas se se sentia dividida na sua personalidade por conta desta limitação genérica da vista alheia, devia também dar passos que a revelassem num ângulo diferente ao invés de lamentar como vítima suas mágoas, pois há sempre quem se queixe, por outro lado, de não ter nádegas.

Já foi dito e é sabido que as mulheres de grande beleza costumam sofrer, o que não significa que todas as mulheres que sofrem são de grande beleza. Por conta mesmo desta aparência, de modo geral, são desejadas sem o ‘ser’. Em outras palavras, uma virtude excessiva pode revelar-se tão tributária da ‘tragédia’ da obliteração das demais virtudes como as marcas naturais viciosas denunciadas por Hamlet. Parodiando o herói dinamarquês, portanto, “uma bela bunda muito exibida apaga muitas vezes outras facetas da nobreza da substância feminina, e lhe acarreta certo prejuízo”. ¹

Se querem ser vistas para além de fatias de pizza, as mulheres também não podem descarrilhar apenas num discurso e prática do desbunde que, mesmo à revelia, pode naufragar na já vistosa cultura de culto ao corpo como grande valor do gênero (o campo também vem sendo sedimentado entre os homens), já que os olhos que enxergam a beleza estão bastante contaminados pela conjuntivite da indústria cultural, que faz o serviço de propaganda dos corporações de cosméticos, vestuário, entre outras.

Desnecessário dizer que entendo que há muitas lutas presentes no guarda-chuva da marcha das vadias, especialmente a fundamental emancipação do corpo feminino contra o legado da lógica ainda em vigor de interdição do prazer e tutela do corpo, lógica cuja a sociedade vitoriana foi um exemplo bem acabado, mas um imperativo categórico do “gozo” (sobretudo o industrial) também não emancipa as relações humanas.

¹ A citação original é: “Um dracma de mal apaga muitas vezes toda nobreza da substância, e lhe acarreta o desconceito”.

Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 06/09/2013 por em Júlio Reis.
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