ORNITORRINCO

PRECISAMOS FALAR SOBRE O FEMINISMO

É comum pessoas ficarem horrorizadas quando ouvem falar de abusos sexuais cometidos contra adolescentes ou mulheres que nunca fizeram mal a ninguém, que são bem comportadas, vivem dentro de casa, estudam, se vestem de forma discreta, vão à igreja, não provocam. Quando se fala em estupro a primeira imagem que vem à cabeça é de um homem que espreita no beco escuro esperando para atacar qualquer moça desprotegida que passar. Nós, mulheres, fomos educadas para evitar fundo de ônibus, rua deserta, bebida em excesso, roupa curta, chamar muita atenção, dar motivos.

O que muita gente não sabe é que essa situação de abuso sexual é pouco comum e essa vítima não existe. A maior parte dos casos acontece entre pessoas conhecidas, muitas vezes de dentro de casa. Uma menina dificilmente vai ficar parada em um beco escuro à noite porque já aprendeu que isso é “pedir para acontecer alguma coisa”, mas a mesma menina vai à festas, conhece pessoas, usa vestidos, ouve músicas, vai à escola, tem família, vive. Em qual das situações você acredita que ela está mais vulnerável? Em ambas. Mas é na segunda situação, no dia a dia, que a angústia da desinformação pode vir à tona de forma dolorosa.

“Segundo o Dossiê Mulher, do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, somente 27% dos estupros registrados no estado em 2012 foram cometidos por desconhecidos. Enquanto isso, pais e padrastos são responsáveis por 18,4% dos crimes. Ex-companheiros respondem por 10% dos casos, e parentes foram apontados como estupradores em 11,3% dos registros”. 

(Extraído do artigo “Um recado da cultura do estupro” de Nadia Lapa).

Há pouco tempo um grupo violentou sexualmente e espancou uma garota que saía de um baile funk no Rio de Janeiro. Nas redes sociais o quadro era assustador: muitas pessoas, milhares, dispondo do recurso de ter uma caixinha com o tentador  “escreva um comentário”, apoiaram a prática do estupro coletivo sofrido pela jovem com frases do tipo “não aconteceria se estivesse dentro de casa”, “quem ouve funk está pedindo por isso”, dentre outros absurdos inconcebíveis que não vou reproduzir literalmente, e ficam perdidos no fundo do túnel de vento da internet e culpam a vítima e não o estuprador. Claro que isso não é novidade, a única diferença é que hoje em dia existe o recurso de opinar como se não houvesse amanhã, em tempo real, sob proteção do anonimato. Essa é apenas uma repetição do velho discurso bíblico no qual a fêmea ardilosa assume uma figura de provocação e culpa pela queda moral da humanidade enquanto o pobre homem é um mero instrumento dessa trama para seduzi-lo. Se você, por acaso, é um comentarista compulsivo e também pensa que uma mulher que dança uma música sensual “está pedindo” para ser abusada sexualmente, vamos inserir essa reflexão no cálculo das causas e efeitos.

A melhor maneira de matar uma culpabilidade criminosa é convencer a vítima de que ela causou a situação. E disso a história de opressão das mulheres se encarregou bem, pois muitas vezes a vítima, também moldada pelo pensamento social mais comum, acredita que a relação sexual foi implicitamente consensual devido ao tamanho da roupa, ao tipo de música, à quantidade de bebida, à solidão, ao teor de uma conversa, ao fato de ter dado atenção ou sido provocante. Quando o estupro acontece dentro de casa, muitas mulheres abusadas simplesmente não se acham vítimas porque se trata do marido e, como tal, ele tem direitos sobre seu corpo.

Essa questão da garota no RJ foi levantada porque está intimamente ligada a outra que muitos evitam discutir, seja por falta de informação ou excesso de dogmas: o feminismo. O que tem a ver uma coisa com outra? Você já vai entender.

Ao contrário do que muitos pensam, feminismo não é o machismo ao contrário, muito menos um ódio velado pelos homens. Feministas, de qualquer sexo, não são mais nem menos femininas. Não se trata de uma luta de mulheres para derrotar os homens ou uma vingança por milênios de submissão forçada. Trocando em miúdos, feminismo significa uma luta por igualdade. Não precisa fugir dessa palavra, ela não morde. Eu a aceitei no início por teimosia e inconformismo, hoje acredito que ela carregue questões fundamentais.

Na página Feminismo pra que? da revista Carta Capital a escritora Clara Averbuck escreve semanalmente sobre o feminismo, e em um post divulgou um teste criado pela advogada Cynthia Semíramis para saber se você é feminista.

É preciso esclarecer que o feminismo é muito subjetivo, há diversas linhas de pensamento. Tomando como exemplo a clássica tarefa de lavar a louça, que costuma ser da mulher, há feministas que acham uma humilhação lavar a louça em qualquer circunstância, outros acham que a tarefa deve ser dividida entre os moradores da casa, outros vêem na tarefa a questão do peso histórico da exploração da mulher no trabalho doméstico e acaba que a louça vira um símbolo da opressão. O que eu acho: tarefas domésticas devem ser feitas por quem usa a casa, homens e mulheres e ponto.

Tanto para lavar a louça quanto para executar qualquer outra atividade (ou inatividade), em qualquer circunstância, a mulher é soberana do próprio corpo e as pessoas precisam deixar de achar que o que uma mulher faz tem a ver com elas. O fato de uma garota estar dançando qualquer música, em qualquer posição, não significa que você, sendo homem ou não, seja o objeto de algum convite para contato físico ou verbal, a menos que ela permita ou solicite. Fui clara?

Uma garota que ouve funk não é mais “estuprável” do que uma que ouve rock apenas porque um homem se sente seduzido ou desafiado ou porque ele acha que a letra da música é provocativa ou está convidando ao sexo. Isso é basear julgamentos em gostos pessoais (assim: se eu não gosto de funk, então ninguém no baile presta). O que provoca esses terríveis rótulos de “fácil”, “difícil” ou “para casar”? O que faz com que uma mulher, que vive uma vida que só diz respeito a ela mesma, tenha mais ou menos valor na sociedade? Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida por mim ou por você. Essas definições de valor, de categoria e de utilidade não existem. Elas são falsas. Elas são criadas por quem nada tem a ver com a pessoa rotulada, ou seja, qualquer um que não seja ela mesma.

Estamos cercados desses rótulos o tempo todo, os usamos até sem querer, mesmo quando tentamos apoiar ou argumentar sem preconceito. Mas o que faz com que eu tenha direito de ter preconceito sobre alguém? Se eu me intitulo uma pessoa sem preconceitos eu já estou sendo segregacionista, porque implicitamente estou me achando superior a ponto de aprovar ou reprovar o comportamento alheio. Não estarei sendo generosa se disser que aceito as diferenças, quais sejam, porque não cabe a mim aceitar ou não. Se eu não tenho direito de rotular a mim mesma como não preconceituosa, sob pena de estar colocando uma superioridade que eu não tenho, quando eu poderia cogitar afirmar que uma pessoa “pediu para ser abusada porque estava dançando funk”? Acertou. Nunca. Em hipótese alguma.

Ser feminista é ter agarrado no íntimo (entenda com o quiser) a ideia de que mulher é gente e pertence a si mesma, seu corpo, seus pensamentos, suas preferências. Bons ventos trazem a comunicação livre que permite que cada vez mais gente saiba dessa estranha realidade.


Juliana M. Dias é ilustradora, arquiteta e urbanista.

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Informação

Publicado em 03/09/2013 por em Juliana M. Dias.
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