ORNITORRINCO

ORNITORRINCO ENTREVISTA: MICHEL MELAMED

A primeira vez que ouvi falar do Michel foi em meados de 2006. Eu ainda morava em Salvador, e não me lembro como, nem porquê, um dos vídeos da peça Regurgitofagia chegou no meu e-mail. Na época eu tinha uns 22 anos e escrever e atuar no teatro eram algumas das minhas prioridades. Portanto, assistir aos vídeos do Regurgitofagia (que estreiou em 2004) foi uma descoberta eletrizante. Na peça, cada reação sonora da platéia (risos, aplausos, comentários…) era captada por microfones que as transformavam em descargas elétricas sobre o corpo do autor/ator, o próprio Michel. Foi daí que fiquei sabendo do CEP 20.000, evento carioca histórico do qual Michel foi um dos fundadores. De lá pra cá foi muita viagem. A impressão é que Michel não parou de trabalhar um segundo. Depois de Regurgitofagia veio em seguida o espetáculo Dinheiro Grátis (2006), e depois Homemúsica (2007, fechando a Trilogia Brasileira). Na televisão, apresentou, roteirizou e dirigiu programas na TV Brasil e no Canal Brasil. Ainda trabalhou como ator em Capitu (2008) e Afinal, o que querem as mulheres? (2010), ambas da TV Globo. Em 2011 foi pra Nova York montar um espetáculo nas ruas, chamado Seewatchlook (Canal Brasil), e voltou pro Brasil com outra peça na manga, Adeus à Carne (2012). Ano que vem vai estreiar em mais uma série na Globo e em um longa-metragem no cinema.

Se você der uma rápida pesquisada sobre ele, vai encontrar títulos como poeta, ator, apresentador, roteirista, diretor, até, quem sabe, mágico. A real é que Michel é um artista inquieto, pulsante, instigado em experimentar tanto a criação em si quanto o contato do espectador com ela. Por isso mesmo que quando decidimos começar as entrevistas do ORNITORRINCO, o nome Michel Melamed era uma das escolhas óbvias da nossa lista.

Há algum tempo que já venho trocando listas de livros com ele, tanto dos clássicos como dos contemporâneos, e dialogando sobre os acontecimentos recentes dessa cidade e do país. Pois então mandei mais um e-mail pra ele sugerindo essa entrevista e ele topou de primeira. Eu, Vitor Paiva e Domingos Guimaraens formávamos a equipe de entrevistadores. E conosco, Camilo Lobo, fotógrafo alucinado oficial do ORNITORRINCO. Numa sexta-feira de calor no Rio, cruzamos a Zona Sul rumo à Barra da Tijuca (onde Michel está temporariamente morando, mas se muda em breve). Eram umas 14h, em seu apartamento de frente para o horizonte do mar e as curvas das montanhas, com a cerveja gelada em punho (que só eu e Vitor bebemos), Michel sorvia os goles de café e respondia tudo em alta velocidade e com uma capacidade de raciocínio capaz de causar overdose num cavalo. O bate-papo seguiu tarde adiante até a fita acabar.

– Gabriel Pardal

DOMINGOS GUIMARAENS
–  Pra começar, a gente lembrou dessa efeméride.
MICHEL MELAMED –  Ih, caralho!
DOMINGOS –  Caraca, que palavra, hein?
MICHEL –  Foi bonito.
DOMINGOS –  Que são os dez anos do Regurgitofagia, esse ano…
MICHEL –  Cara, não são os dez anos.
DOMINGOS –  Você errou?
MICHEL –  Eu errei.
VITOR PAIVA –  Melhor ainda. São o quê? São nove?
MICHEL –  São nove.
DOMINGOS –  Mas não foi em 2003?
MICHEL –  Não, foi 2004.
DOMINGOS –  Lamentável…
GABRIEL PARDAL –  Então vamos embora. Valeu, obrigado! (risos)
MICHEL –  Valeu, gente.
VITOR –  A gente não tem mais assunto!
MICHEL –  E agora, pra encerrar, um bate-bola, jogo rápido. (risos)
VITOR –  Uma cor?
PARDAL –  Uma flor?
DOMINGOS –  Flor?!?!
VITOR –  Mas e o Nelson Rodrigues?
MICHEL –  Não conheço pessoalmente. (risos)
VITOR –  A apresentação no Teatro Nelson Rodrigues não foi em 2003? [Michel  ganhou a bolsa Rioarte para realização do espetáculo Regurgitofagia, e apresentou uma primeira versão no Centro Cultural Nelson Rodrigues]
MICHEL –  Ah! Não sei…
VITOR –  Eis a questão.
MICHEL –  Eis a questão. Não sei.
VITOR –  Porquê foi bem antes, né? Consideravelmente antes.
MICHEL –  Foi… No final do ano anterior. É, mas não era ainda… Não consideraria…
DOMINGOS –  Mas era já a pré-história do Regurgitofagia.
MICHEL –  É, foi uma apresentação em um festival, não tava certo que haveria espetáculo, não era… Digamos assim: o espetáculo que eu fiquei um tempão apresentando, que eu viajei, etc, foi esse que estreou dia 16 de abril de 2004. O negócio foi que eu cheguei em casa um dia, vindo de um trabalho, cansado, na correria, maluco, entrei no facebook e vi o post do Gregório [Duvivier] falando Pô, agora faz dez anos…” [do espetáculo Z.É.]. E eu tinha na minha cabeça que nós éramos do mesmo período, de espetáculos que ficaram em cartaz. Então eu vi e me animei na hora, dei uma contada, meio tipo “ah, quatro, cinco, sete, mais dois, vai cinco, dezenove, olha ai, que maravilha!” (risos), e já fui me empolgando, e postei.
VITOR –  Marcou a festa.
MICHEL –  É, é, enfim… E ai fui me animando. Carência, no final, né? (risos) Mais uma razão pra postar alguma coisa, alguém botar um like, curtir…  Até que alguém falou: “Bicho, então se foi… mais cinco, tira dois, não é. É ano que vem”.
PARDAL –  Ali no Regurgitofagia havia uma espécie de manifesto, né?
MICHEL –  Por quê ‘espécie’ ? (risos)
VITOR –  A pergunta é: era um manifesto de fato?
MICHEL –  Claro que era um manifesto de fato.
VITOR –  Você pensou como uma tentativa de mudar…
MICHEL –  O mundo?
VITOR –  O que você quisesse. (risos)
DOMINGOS –  Ou o seu pensamento sobre ele, o que fosse.
MICHEL –  Sobre o mundo ou sobre manifestos? (risos)
DOMINGOS –  O Vitor até lembrou de uma parte, como é que era?
VITOR –  É o início do que eu considero, no espetáculo, o manifesto, que explica: “Regurgitofagia: vomitar os excessos…”
MICHEL –  Na peça, quando você bota aquela dália com a sequência das cenas, a gente chamava essa sequência de Manifesto.
VITOR –  Pois é. Que era onde você explicava uma linha crítica de pensamento nos moldes de um manifesto mesmo.
MICHEL –  E já saiu como um manifesto. Tem um cara que fez um livro lindo, chama-se João Cezar de Castro Rocha, ele é professor da universidade de Princenton, e ele fez um livro, a tese de doutorado dele, sobre o manifesto antropófago. Ele fez um levantamento de coisas que tinham relação, outros trabalhos, e colocou o Regurgitofagia. É um livrão, grandão, lindão, e tem uma parte dos manifestos, que começa com o manifesto do Oswald [de Andrade], e vão indo outras coisas… Ele botou esse fragmento como o manifesto regurgitofágico. É total um manifesto, consciente. É. Lógico.
VITOR –  E você continua regido por essa ideia?
MICHEL –  Não conscientemente. Se eu sou um regurgitófago?
VITOR –  É.
MICHEL –  O último. O único. O primeiro. (risos)
VITOR –  O que é o manifesto, em termos práticos, para além do poema?
MICHEL –  Em termos práticos… hum… Em termos práticos é o que é, né? O manifesto é ele em si. Mas tentando fazer uma síntese, é a ideia desse… Já era o começo, que se acentuou, da hiper informação, e essa sensação que a gente vive, bipolar, de muitas vezes ficar muito angustiado com a impossibilidade de apreender tudo, de estar em tudo, de realizar todos os desejos, ser tudo que se quer ser, de comer todas as mulheres, de ganhar todos os dinheiros, de não ter nada, de ser mendigo, de ser broxa, de querer ser tudo. Que é legítimo, em muitos termos. Era um desejo, naquele momento, dos anos… Dos anos noventa? Não, era anos dois mil já, né?
DOMINGOS –  Anos dois mil… Início…
MICHEL –  Naquela época, na década de trinta. (risos)
VITOR –  O manifesto é um poema anterior ao nascimento da peça, né? Eu me lembro de você falando ele no CEP.
MICHEL –  É anterior. Fragmentos, né? O espetáculo é baseado no livro, que saiu posteriormente ao espetáculo. Mas ele é feito de vários fragmentos. E a ideia de vários fragmentos é justamente uma das interpretações do que seria esse conceito ou manifesto regurgitofágico, que é a ideia de comer o vômito. Enfim, depois eu fui encontrar mil coisas, mas o Machado [de Assis] falava disso, né? De ruminar…
DOMINGOS –  Pensamento ruminante…
MICHEL –  Exatamente. Que é essa ideia de que havia um excesso de informação, de que havia uma incapacidade de deglutir tudo, mas que talvez fosse necessária uma determinada razão crítica pra vomitar parte disso e poder refletir de novo o que se quer de fato comer. Até tinha uma frase, no momento que a gente está considerando ‘Manifesto’, que era “o que é enfiado goela abaixo, o que chega e você nem percebe”. Então era mais ou menos essa ideia.

DOMINGOS –  E o espetáculo em si tinha toda uma coisa, que é uma tônica que depois, nos outros espetáculos que fecham a trilogia, se manteve: essa relação com o público. Isso era uma preocupação sua quando você fez o Regurgitofagia?
MICHEL –  Total. Era isso. Eu cheguei a fazer um… Não chegava a ser um manifesto nem um release, mas o…
VITOR –  Uma definição da trilogia.
MICHEL –  É. Eu fiz um texto explicando justamente isso. Eu falei tantas vezes que é capaz que ainda saiba de improviso esse poema de Gonçalves Dias. (risos) Que eu mesmo escrevi. (risos) A trilogia era composta de monólogos, que trabalhavam com a ideia de experimentações, ou sei lá qual é a palavra, talvez experimentação seja a melhor, na relação do palco com a plateia. Então seria a ideia do “espectator”, ou “espectautor”, e ai voltando, misturando um pouco com o que o Vitor falou antes, e muito curiosamente, cara, ontem surgiu esse assunto… O cara viu Adeus à carne, e falou assim:  “Uma coisa que eu gostei muito foi que no final não tinha como a gente aplaudir. A gente não sabia direito que hora aplaudir, ficou uma situação muito louca…”, e no Rio de Janeiro, hoje todas as peças são aplaudidas de pé, blá, blá, blá, aquele negócio, e ai ele falou: “Ah, e eu vi o Regurgitofagia, e me lembrei que também…”. E de repente eu me toquei que todos os espetáculos que fiz – não como entendimento de que em todos tinha que ter – olhando em perspectiva agora, em cada um eu encontrei uma justificativa clara, uma razão pra não ter um desfecho que se estabelecesse um aplauso no final. No Dinheiro Grátis eu queimava o dinheiro e não voltava pro palco. Ai ele falou: “O Recorte eu gostava porquê ele acabava também desavisado.” É. Também não tinha espaço pra aplauso no final. Eu tô terminando de montar a versão do filme, o SEEWATCHLOOK, e é a mesma lógica. Eu não sei se tudo isso responderia por ser um regurgitofágo forever.
PARDAL –  Yeah.
MICHEL –  Tô cheio de palavras em inglês, né? Não é sempre, não. É só hoje, porquê o regurgitófago é assim, amanhã eu falo polonês, depois eu falo búlgaro…. (risos)
DOMINGOS –  Depois romeno (risos). Eu vi umas duas vezes a peça, e uma coisa que ficou em mim foi o sadismo da plateia. Um dia eu senti as pessoas com medo…
MICHEL –  De me machucar…
DOMINGOS –  De te machucar com os ruídos. Já no outro dia, eu lembro que tinham pessoas que inclusive levantavam…
MICHEL –  Com medo de não me machucar com os ruídos.
DOMINGOS –  É, e gritavam no microfone, e que talvez tenham até aplaudido no final pra…
MICHEL –  Pula! Pula! Pula!
DOMINGOS –  Exatamente. Você sentia isso?
MICHEL –  Claro! Isso é uma das características do teatro. Isso é uma das características da vida. Isso é uma das características enfatizadas mais do que nunca nesse espetáculo. Cada noite uma noite diferente. Alguns dias se instaurava um clima exatamente como você descreveu, de uma cumplicidade velada, de que ‘não vamos fazer barulho, não vamos machucar ele’. E se criava uma tensão absurda. Digamos: o bombeiro quer que pegue fogo, né? E o dono da loja de carros blindados? Ele quer a paz no mundo? (risos). Isso já é maldade falar, é uma brincadeira. Mas o bombeiro, acho interessante a tese, porque o bombeiro, de alguma maneira, se prepara pro momento do incêndio, né? Vinte e sete anos depois, nunca pegou fogo… (risos)
VITOR –  E ele está lá, gordo, sentado….
MICHEL – Um espetáculo que a primeira coisa que acontece é um off anunciando que todas as reações sonoras vão ser captadas e transformadas em descargas elétricas no corpo do ator, você está esperando que isso aconteça.
VITOR –  Muita gente não acreditava também, né? Achava que era mentira.
MICHEL –  E era. E não era. E esse lugar, que é o mesmo lugar, e que está em todas as obras. Talvez seja mais uma característica também deste potencial regurgitófago, se é que existe.


Domingos Guimaraens, Michel Melamed, Vitor Paiva e Gabriel Pardal



PARDAL –  E vem cá, há nove anos, quando você terminou de fazer o Regurgitofagia, e foi um sucesso, porquê a temporada se prorrogou infinitamente, você sentiu algum tipo de pressão por isso? Lá, o jovem Michel…

MICHEL –  Eu não sou mais jovem? (risos)
DOMINGOS –  O infante Michel.
PARDAL –  Como é que funcionou isso na sua cabeça? Você sentiu alguma coisa como: “O que eu vou fazer agora? Será que vai ser tão sucesso quanto o Regurgitofagia?”
MICHEL –  Não, nem um pouco.
DOMINGOS –  Que auto-confiança!
MICHEL –  Não, eu diria ao contrário. Sai desse lugar justamente de ficar preocupado com a auto imagem, e aqui chegamos num ponto reflexivo de nosso encontro, um momento filosófico, e eu como vovô, bem definido por nosso companheiro, deixo aqui uma mensagem para as futuras gerações, de que movimento gera movimento (risos). De fato, como a gentileza. Só quem faz muitas atividades pode fazer mais uma, e assim todos os lemas e dilemas que acompanharão essa questão. Então, voltando ao tema, é: a partir do momento em que você está sentado sobre a besta fera, e está criando, a criatividade gera mais ideias. Eu não faço pensando no que acho que vai levar ao êxito. Ou que alguém gostará. Faço pensando em função de uma série de circunstâncias e necessidades de algo que tô querendo expressar. Imagino que aquilo é minha ferramenta de expressão, é a carreira que… sobrou, das que não consegui fazer (risos).
PARDAL –  Depois de tudo que não consegui fazer na vida, isso aqui foi o que sobrou (risos).
MICHEL –  Exatamente, eu sobrei naquilo, e é a maneira que tenho de me expressar politicamente, afetivamente no mundo. A partir do momento que aquilo ali se configura em um trabalho – um espetáculo, um livro, um programa de TV, o que quer que seja – é óbvio que você deseja um êxito – mesmo que o êxito seja uma coisa difusa, que pode não ser só relacionado ao comercial. Pode ser relacionado ao debate, muitas coisas. Então sim, nesse sentido sim. Mas não por analogia com o espetáculo que fez sucesso. Eu queria que isso acontecesse no Dinheiro Grátis e no SEEWATCHLOOK, porquê a cada trabalho você quer. Uma das razões porque surgiu o manifesto do Regurgitofagia foi que naquele período nós tínhamos uma ascendência muito grande da geração dos anos sessenta, no Brasil e no mundo. Eram trabalhos que, em termos de teatro… O Opinião, Roda Viva, quer dizer… Em música, o exílio…. O papel da produção artística era muito participativo do debate nacional, né? Durante os anos noventa a gente foi sendo destituído de alguma força, ou havia um gap de algum tipo, e uma expectativa de querer produzir um trabalho que gerasse um debate. Uma das frases do manifesto, por exemplo, é “Pra você que não desapareceu em 1968 só porquê não era nascido”.
VITOR –  Foi o título, não foi?       
MICHEL –  Chegou a ser o título, em algum momento, do próprio trabalho. E foi dai, relacionado a essa frase, um dos lugares que surgiu a própria ideia do choque.
VITOR –  Da tortura.
MICHEL –  É, da tortura.
DOMINGOS –  Pau de arara.
MICHEL –  Porquê na minha cabeça eu pensava: “Pô, como é que eu hoje, em 2004, me coloco na posição de um artista que… Então talvez essa cara tivesse sendo torturado. Tivesse sendo ameaçado pelo DOI-CODI. Então eu taria sendo torturado hoje. Mas quem me torturaria?”. E dai, de uma série de ideias, reflexões e criações que surgiu a situação de inventar uma máquina de choque, em que o público é que gere isso, e eu que gero o público. E na verdade é um espelhamento, porque quem está torturando quem é uma coisa que está mudando o tempo todo. Se eu estou sendo agressivo, ou se estou provocando o público com humor…
VITOR –  E o torturador acha que tem razão. Que deve de fato torturar o subversivo pra salvar o país.
MICHEL –  É. E a própria metáfora do choque, no livro tinha isso, ao Frankenstein, ao golpe militar, à eletroconvulsoterapia. Eu particularmente sempre tive esse desejo, essa admiração por trabalhos que se colocavam nessa posição de querer participar do debate. Hoje talvez eu perceba com mais clareza que todos participam. Tudo participa, de uma maneira ou de outra. Mas era uma coisa mais objetiva, com clareza, pontuando temas.
DOMINGOS – Me explica uma coisa sobre essa questão de sucesso. Na época, saiu uma crítica da Barbara Heliodora [crítica de teatro do Rio de Janeiro], elogiando o espetáculo. Lembro que me impressionou muito essa da Bárbara, quando eu vi que ela fez, essa senhora que traduz Shakespeare, como ela…
MICHEL – Quando ela fala bem, ela sabe muito do que está falando, quando ela fala mal ela não sabe nada sobre teatro. (risos) Mentira, tô brincando.
VITOR – Era uma crítica diferenciada. Mais do que falar ‘a peça é muito boa, o texto é muito legal’, tinha alguma coisa que me fez achar que ela achou o espetáculo importante.
MICHEL – Ela talvez tenha entendido, no sentido de querer entender ao que a gente estava se propondo. Entendeu literalmente, coisa que normalmente não acho que seja o parti pris, apesar dessa palavra ter sido usada no Roda Viva na ocasião da entrevista do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, então corta o parti pris, de parti pris sem parti pris. Apesar que a nossa função é reinstaurar a linguagem, então ficamos com o parti pris renovado. (risos)
DOMINGOS – A partir desse novo uso dado à ele…
MICHEL – Então o ponto de partida seria… Do que estamos falando? (risos) De que justamente eu não acho, agora aquela coisa do Walter Benjamin, ou.. eu fiz uma vez um curso do Walter Benjamin, e estava super claro pra mim na época, e hoje eu cito isso sem ter a menor ideia do que falo. Indo longe, mas voltando pro negócio, a crítica poderia ser um espaço de multiplicação da potência do aspecto criador. É um debate que existe sobre o caderno de cultura, a questão de se os artigos devem se dirigir ao público médio ou ao leitor que conhece a área. Tem gente que defende as duas correntes. Eu particularmente não sei o que acho exatamente. Acho que prefiro que seja para o público iniciado, no sentido de que isso é uma maneira educacional, de quem não conhece, expandir, haver um diálogo. Na verdade pode ser uma mistura disso tudo.
VITOR – Só não tem que ter um limite pressuposto.
MICHEL – Eu tô contradizendo o que eu disse. Então tá perfeito, porque o negócio é a contradição. Sem verdades absolutas. Eu acho que a crítica deve ser uma criação. Nesse caso, acho que a Barbara faz pouco isso. Ela se coloca no papel de dizer o que é bom ou ruim, transladando a informação como se fosse uma decodificação. Ela faz uma leitura do que entendeu que aquilo é, e coloca no jornal. Aquilo é apresentado como se fosse a explicação do que acontece. Mas em se tratando de obra de arte, na maior parte das vezes a ideia é que a obra estimule uma compreensão, depois ela derrube aquela ideia, te surpreenda. Aí você de novo tenta normatizar o que tá acontecendo e é esse jogo que a obra de arte propõe ao espectador.
PARDAL – Puxando um pouco o papo pra frente, mas trazendo pra trás…

MICHEL – Ele sou eu! Ele sou eu! E agora fudeu, quem sou eu? Quem sou eu? É isso aí, puxando pra frente e pra trás, qual o nome dessa dança?
DOMINGOS – Dança do maxixe.
PARDAL – Em uma entrevista antiga, você disse que tudo que fazia passava pelo olhar do poeta. Hoje, nove anos depois você continua com esse olhar?
(silêncio)
DOMINGOS – Ele te fudeu.
PARDAL – Voltamos daqui a pouco…
MICHEL – Não eu tô aí, tô vivo no lance, tô atento. Minha pausa dramática é parte da minha resposta. Não é uma pausa de quem não sabe a resposta. A pausa já é a resposta.
DOMINGOS – Que recurso retórico (risos)
MICHEL – Aí já gostei, porque foi um elogio. Se eu me penso como poeta hoje? Eu gosto de pensar como uma veleidade, uma vaidade. Porque eu gosto muito da figura do poeta, já escrevi muita poesia, já me apresentei. Ou já fui chamado assim, ou já quis ser chamado assim, e admiro muito a figura do poeta, porque minha ideia de poeta é justamente uma condição no mundo. Poeta é um olhar perplexo diante da realidade, e uma maneira de se expressar. A linguagem seria uma outra questão. Eu lembro muito de conversar isso com o Waly [Salomão], por exemplo, e ver isso muito no Waly. Na época ele organizou um disco de alguém, e era uma atividade poética. O poeta se expressando de várias formas. Continuo querendo ter esse olhar perplexo, porque acho que isso é o artista. Hoje não sei se penso tanto na figura ou no crédito de poeta como penso no crédito de artista, porque me vejo há algum tempo orbitando em atividades diferentes no campo da arte, e acho que cada vez mais estamos todos fazendo isso. Então acho que a palavra artista responde bem. Pode ser poeta eventualmente. Seria uma honra ser poeta. Acho poeta foda.
PARDAL – Você usa o twitter, o facebook, postando poesia ali. Você acha que esse é um lugar acabado, ou a publicação em livro é necessária?
MICHEL – Já tô achando o contrário disso. Acho que isso é o mais fácil. Se você posta uma frase no twitter e é uma frase poética, não há dúvida que aquilo é um poema. No SEEWATCHLOOK, o filme, eu escrevi, dirigi, e tô editando, eu sou um poeta fazendo isso. Fazer um filme é coisa de poeta. Escrever poesia… aí é que eu não sei quem faz isso. (risos). Hoje eu não quero mais me auto nomear. Quando eu quis me nomear, grande parte do tempo eu tentei me nomear poeta. E hoje eu vejo que eu sou nomeado de coisas diferentes e me sinto confortável com isso.
VITOR – Você tem vontade de fazer uma novela?
MICHEL – Tenho, claro. De fazer tudo. Esse que é o negócio, não há mais limitação para os desejos, para as experiências, não há fronteira, não há barreira, não há nada que não seja a vida pulsando ensandecidamente em todas as direções. O único limite é ético. Posto isso, quero me experimentar como artista, como ser humano em muitas direções. Quero virar o monge, ir pra serra escrever um livro e sumir e nunca mais ser visto, quero fazer novela, quero posar nu, quero não posar nu…
VITOR e PARDAL – Depois de posar nu! (risos)
MICHEL – Não, antes! Antes! (risos) Estou nessa onda do desejo. Escravizado pelo meu desejo desde o início. E desejo é muitos. Desejos no plural.

 


DOMINGOS – Mas voltar pra dança do maxixe louco, andando pra trás andando pra frente…
MICHEL – Vocês estão fudidos pra editar essa entrevista, né?
PARDAL – Caralho, totalmente.
DOMINGOS – Quinta-feira, dia 28 de agosto, vai ser aniversário do CEP de 23 anos.
Queria que você falasse desse momento, quando surgiu a coisa ali. Você falou do manifesto, de os artistas dos anos 60 participarem do debate cultural, e me lembrou muito do CEP 20.000, de um desejo de que aquilo ali tomasse o Brasil, e em cada capital tivesse um CEP. Não foi isso que aconteceu nesses moldes, mas é um lugar que completa hoje 23 anos e que de alguma forma participa desse debate há tanto tempo.
MICHEL – Você fala bem, né? Eu achei que no final, antes da pergunta, você fosse inserir sua comoção, e eu ia aplaudir. (risos) Mas o CEP é isso mesmo, uma escola para todos nós. Maravilhoso e fundamental em todos os sentidos. Então vou chegar de novo no Regurgitofagia, que vem da formação do CEP, um espetáculo fragmentado onde se mistura música, poesia, artes visuais, uma série de acontecimentos. O CEP é a gênese disso tudo. Isso já explica completamente a minha devoção, agradecimento, alegria por ter participado.
DOMINGOS –  Todas as peças, os espetáculos, as experimentações do Regurgitofagia, Dinheiro Grátis, enfim, são criações suas, muito autorais. Você vê essas…
[Michel coloca a camisa no rosto, tapando o nariz]
VITOR – Você está sentindo algum cheiro ruim?
MICHEL – Não, eu tô incorporando um hacker. (risos)
VITOR – Ou o Black Bloc.
MICHEL – Todos nós temos um Black Bloc, às vezes adormecido, às vezes insone…
VITOR – Nome de banda, Black Bloc. Desde que ouvi pela primeira vez, pensei que deveria ter uma banda chamada Black Bloc.
DOMINGOS – Black Street Bloc (risos).
VITOR –  Você tava falando de mudança como uma premissa, e tem uma transformação que me parece nítida, da trilogia para os espetáculos seguintes. Enquanto a trilogia é verborrágica, o Adeus à Carne e o SEEWATCHLOOK não tem ou tem muito pouco texto. Isso foi uma mudança proposital, você concebeu eles assim, ou você tinha um texto antes e aos poucos percebeu que não deveria ter? Isso tem um significado?
MICHEL –  O SEEWATCHLOOK, por ser na rua, pressupunha que seria sem. Até tinha diálogos pré gravados em uma ou duas cenas, mas a maior parte delas era sem texto. O Adeus à Carne foi logo após, de maneira que eu podia estar sob a égide desta exegese (risos) e efeméride, e todas as palavras com E, incluindo Eduardo e Elefante (risos) e Edifício. Então eu tava nessa, de alguma coisa mais visual. Eu perdi um pouco as palavras em algum momento – no que isso tem de interessante, que é achar que aquelas imagens, aquelas situações eram potentes o suficiente pra prescindir das palavras.
VITOR –  Mas isso tem a ver com o mundo? Num mundo tomado de informações, ainda se tem o que dizer?
MICHEL –  Acho que tem, total. O mundo é outro. Tudo está por ser dito se o mundo é um outro a cada dia.
DOMINGOS –  Tudo muda o tempo todo no mundo.
VITOR –  Já dizia Sófocles (risos).
PARDAL –  Uma pergunta de escritores pra escritor. Você obviamente tem bloqueios criativos, não consegue mais pensar… Como é que você lida com isso?
MICHEL –  Não diria dessa maneira. Eu não lembro exatamente dessa cena clássica do filme americano, em que o escritor esta lá, ou que o artista está com bloqueio em relação a uma coisa específica. Eu acho que meus bloqueios são mais relacionados à vida, e ai acaba virando um bloqueio em relação à criação. Não lembro da situação de estar em um trabalho tendo de fazer algo, e falar: ‘Fodeu. Estou bloqueado’. Isso não acontece muito comigo. O que acontece é, entre trabalhos, de repente falar: ‘Porra, tô esgotado. Não tô interessado mais. Quero ser monge. Quero viajar, quero fazer outra coisa’, nesse sentido. A briga é mais com a vida do que com o trabalho.
VITOR –  Você sofre sem trabalhar?
MICHEL –  Sofre de todo jeito, né?
VITOR –  Mas você precisa trabalhar pra ficar feliz?
MICHEL –  Cara, eu não sei. Uma coisa que está legal é que os anos estão passando e aos poucos algumas premissas começam a aparecer, de dinâmica. No entanto, não sei se é uma característica particular minha – talvez seja, acho que tem gente que, na mais tenra idade, com um ano, já gosta de leite ou não gosta. Eu mudo. Cada semana eu gosto ou não gosto de leite, entendeu? (risos). Agora, numa situação de entrevista, mencionar isso me parece algo que é legal de falar – não porquê acho que seja bonito, porquê acho que também tem um sofrimento bem claro em tudo isso. Mas é assim. É muito instável.
VITOR –  Seria lindo acabar a entrevista aqui, mas  a gente não vai acabar ainda. Você falou do autor, e eu lembrei da coisa do Fora do Eixo… Nem lembro o que você falou mais…
DOMINGOS –  Falou da autoria, do indivíduo…
VITOR –  Isso. Era isso que eu queria perguntar. Manda brasa, Domingos.
DOMINGOS –  O Fora do Eixo teve esse momento agora. Você já tinha comentado sobre ele, sobre o parti pris, e teve esse momento agora que a Beatriz Seigner publicou uma carta enorme, falando sobre a relação dela com o Fora do Eixo, e como essa inclusão nesse sistema coletivo mata o artista, o autor. Como se o Fora do Eixo fosse um lugar que se aproveitasse dela enquanto artista pra ganhar coisas pra si. Outras cartas apareceram depois, defendendo o Fora do Eixo, dizendo que não, que é um lugar que constrói dinâmicas coletivas e que democratiza, que promove o acesso a isso tudo. Você já falou que não gostou da aparição, pelo que eu entendi, do Fora do Eixo na entrevista lá no Roda Viva…
MICHEL –  Não, eu não gostei do parti pris, do apresentador falar do parti pris. De qual seria a orientação política deles, como se de fato tudo não tivesse uma orientação política. Vou falar com clareza, para que não haja dúvida – mas por quê não, se a dúvida é o que melhor temos a oferecer? Eu não gostei do apresentador perguntar sobre qual era o ponto de partida político deles, como se eles, os entrevistados do Mídia Ninja, tivessem uma orientação política, e o próprio canal não tivesse. E o mundo, a roupa, como se tudo não fosse uma orientação política. Então, minha brincadeira e crítica foi ao apresentador, e não a eles.
DOMINGOS –  E o que você achou disso tudo, do Fora do Eixo, desse momento?
MICHEL –  Eu achei que teve uma demonização que foi desmedida, que os caras tem uma proposição e que vem a compor muito bem com uma série de outras. Não acho que eles são a verdade absoluta, e particularmente eu teria varias questões a colocar. Eu vi uma entrevista do Pablo Capilé falando sobre essa questão da autoralidade, e eu não concordo em vários termos. É uma discussão complexa, que envolve a questão das novas tecnologias, a maneira de se produzir arte. O debate sobre a morte do autor é muito anterior a isso, até às próprias tecnologias. Mas acho que os caras estão apresentando um modelo de alguma coisa, e que é maravilhoso que haja. Como a Mídia Ninja, que eu acompanhei por algumas madrugadas, e que acho que contribuiu muito. Essa ideia de demonização e endeusamento é que não tá com nada. Nem a Globo é o demônio, nem a Midia Ninja é o demônio. Existe uma composição disso tudo, e esse jogo de forças é que é fundamental. Então, quanto mais forças aparecerem, se colocarem, e estiverem nesse diálogo, nesse debate, acho que é produtivo e bom pra todo mundo. Dai você vê a Midia Ninja, lê a Folha, olha a Veja de longe (risos), vê o blog do seu amigo, o facebook, e dessas parcialidades você monta o seu olhar.
PARDAL –  Você falou de demonização, e me lembrou da figura do herói. Você acha que o herói existe? Você tem um herói? O gênio existe? Um artista mesmo. É possível hoje em dia, com a presença do mercado tão grande na indústria cultural? Existe sucesso sem patrocínio?
MICHEL –  Existe sucesso sem S?
VITOR –  Ucesso.
MICHEL –  Não… U CE O. O Céu!
TODOS: (Gritos. Risos)
MICHEL –  Existe sucesso sem S. É o céu. É isso ai. Na verdade, eu gostaria de terminar com uma piada (risos). Essa é a piada.



Sexta-feira, 23 de agosto de 2013 – Rio de Janeiro



Quer participar da entrevista? Tem alguma pergunta que quer fazer para o Michel? Escreva a sua pergunta nos comentários, as três melhores perguntas serão votadas pelos assinantes da página do ORNITORRINCO no Facebook, em seguida serão enviadas para o entrevistado e em uma semana as respostas serão publicadas aqui.


Atenção: as perguntas só serão aceitas até o dia 06 de setembro.

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Publicado em 30/08/2013 por em Uncategorized.
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