ORNITORRINCO

A SÍNDROME DE LUSSANDRO

Infelizmente era como era. Na hora do recreio nos separávamos em grupos distintos. Dávamos nomes uns aos outros e nos divertíamos com isso. Ilhas próximas, aldeias, de onde se ouviam as libações para os deuses, que, diferentes dos nossos, sempre eram estranhos. A perplexidade diante do comportamento dos vizinhos que não eram inimigos. Não havia batatas que levasse a uma batalha sangrenta ou qualquer conflito para justificar tanto ódio.

Lussandro era um típico romano. Lutador de jiu-jitsu, disciplinado, um corpo preparado para o front adquirido após anos de treinamento. Não se misturava, tinha ojeriza à maconha e era aluno mediano. Nesse ponto, tal a maioria dos romanos, a Grécia tinha sido mal absorvida, mais corpo do que pensamento. Restou apenas a vontade da potência do avanço, a honra, o juramento à bandeira que anunciava a entrada da cavalaria.

Não era efetivamente um vilão. Socialmente amável, até ria das silenciosas crônicas que fazíamos das garotas. Todas elas. Gostava de praia e era um rapaz bonito. Após anos de raso convívio, meia dúzia de palavras na fila da lanchonete, encontros nas competições de jiu-jitsu, esporte que nos unia mais do que os outros camaradas, poderia dizer que, de certa forma, éramos amigos.

Mas não tínhamos interesse em avançar. Nosso laço era o que era. Não havia outros assuntos que não o esporte ou as matérias das avaliações semestrais. Porém, o corpo que sente-se minimamente seguro, relaxa, e assim, as relações, mesmo que rasas, abrem espaço para um aprofundamento natural.

Lussandro, como de hábito, veio ter conosco no início de um desses intervalos, que, quando se tem dezessete anos, já munido de certa ironia madura, insistíamos em chamar passionalmente de recreio. Hora de esquecer das equações, das estruturas químicas, das apostilas, e falar dos simples prazeres da vida do jovem, da professora de História cocainômana, da estupefação diante das roupas dos grunges, que, mesmo no verão, usavam roupas pretas e quentes, e por fim, celebrar a fácil alegria de sentir-se incluído num universo excludente e cruel.

Lussandro cumprimentou os camaradas sorrindo, um a um, relaxado, aparentemente dando continuidade à sustentação de mais quarenta minutos de ócio e prazer. Quando chegou a minha vez, estendendo a mão vindo do alto para maior força de contato e celebração, toquei-lhe, sem saber, no centro do magma da fúria ao dizer “Como vai meu garoto!”. Uma tempestade se fez em seus cabelos, os olhos ganharam um vermelho sangue incandescente, olhou para baixo, resmungou babando palavras de cólera, arrancou sua mão da minha com visível nojo, virou as costas, e, completamente transtornado, foi embora e nunca mais falou comigo.

O quê teria acontecido a Lussandro quando ouviu a palavra ‘garoto’? Por que este simples tratamento despertou sua hibris? No fundo, eu teria sido sempre um adversário, um bárbaro, um Heitor, um antagonista cretino? Ou pior, um traidor? Que sensibilidade era aquela? O quê teria vivido para que, ao ser chamado de ‘garoto’, o levasse a revoltar-se tanto que, por instantes pensei que uma guerra selvagem iniciaria cujo fim se resolveria com a morte? E por fim, qual a medida da ofensa?

O fato é que desde então nossos encontro foram sempre tensos. Éramos cães, dragões de komodo disputando uma fêmea. Mas não havia fêmea, jamais houve duelo. O que havia era a ofensa, o corpo machucado pela palavra falada, talvez, mal falada, maldita, o dente trincado diante do exército, a hignomínia pura.

Hoje, doze anos depois, o assunto ainda causa aborrecimento. Não que a vida tenha mudado depois disso. Diretamente, não. Mas os percalços, mesmo os pequenos, nem sempre são pontuais como uma queda ou uma tragédia, mas, ao olhá-los buscando algum tipo substância que ajude a viver o instante, percebe-se que a melhor coisa a ser feita é transformá-los em outra coisa, fora do corpo, no limbo que precede as relações, para que um dia, velho e distraído, a redenção venha por acaso, num encontro na rua, dentro do riso, e o esquecimento seja tão aprazível quanto o sinal do recreio.

Pedro Lago é poeta.

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Publicado em 30/08/2013 por em Pedro Lago.
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