ORNITORRINCO

O VERDADEIRO OFÍCIO DAS ESTRELAS

A verdadeira função de uma estrela de cinema é envelhecer. Para além dos tapetes vermelhos, das capas de revista, entrevistas, fotografias, publicidades, intimidades expostas – que não passam de fachada para encobrir esse propósito – e principalmente para além das próprias atuações, o ofício verdadeiro das estrelas de cinema é envelhecer diante do público. O mesmo vale para as estrelas de novela e TV.

Esse segredo já havia sido apontado por Tom Zé através da canção Brigitte Bardot, na qual ele martela com a maestria costumeira certos aspectos dessa revelação. Coitada da Brigitte Bardot que era uma moça bonita, mas que envelheceu antes dos nossos sonhos – pois ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer. A Brigitte Bardot já estava se desmanchando em 1973, ano de lançamento do insuperável álbum ‘Todos os Olhos’, e há exatos 40 anos que, pelo mundo inteiro, milhões e milhões de sonhos querem pedir divórcio. O envelhecimento dos astros de cinema é uma metáfora da vida, iluminada pelos holofotes inclementes dos meios de comunicação. A televisão é um livro de filosofia animado.

Provavelmente nem mesmo os atuais astros sabem que são os peões desse cruel jogo de espelhos, mas nesse instante, em alguma sala de reuniões, homens de terno e gravata discutem sem pena sobre quem já passou do ponto, e quais serão as próximas vítimas. E o critério velado para essa secretíssima eleição é sempre o mesmo: o tempo. Quem melhor e mais lentamente irá envelhecer diante de nossos olhos.

No início, a vida plena de altos salários, tratamentos diferenciados, multidões apaixonadas e elogios exagerados parece justificar as horas intermináveis em quase escravidão dentro de estúdios de TV, reproduzindo as mesmas cenas de amor e redenção exaustivamente. Porém, mal sabem eles que o trabalho ainda nem começou.

Um dia, algo parece brotar feito um cheiro de dentro do aquário. Será um problema de iluminação? Uma maquiagem feita às pressas? O fato é que a beleza da mocinha não mais ilumina como antes os nossos jantares. Não, não é um efeito especial; trata-se de uma ruga, senhoras e senhores. Num canto de revista, uma celulite sorri, e uma certa flacidez desbunda em coreografia com um fio de cabelo branco sob os flashes incessantes, para que a mais óbvia mensagem subliminar nos dilacere em mil pedaços, e jamais esqueçamos: o tempo passa para todos.

É claro que, no mundo real, são essas pequenas marcas do tempo que fazem de fato as pessoas belas e interessantes – e não há um só membro do reino animal que esteja livre de tais detalhes. Devemos agradecer por eles da mesma forma que agradecemos às nossas memórias e vivências acumuladas. Porém, para as estrelas, a coisa funciona de outra forma. Tornam-se verdadeiros mártires silenciosos, que sofrem o efeito do tempo em jaulas de laboratório, a fim de que, para o resto do mundo, seja mais suave e menos solitário o gradual e impiedoso processo de envelhecimento.

E é ai que o trabalho de fato começa. Quando percebem a face real de seu ofício, já é tarde para desistirem. Frágeis, as estrelas são obrigadas a se expor ainda mais, a fim de tentarem continuar jovens como que por milagre, para poderem seguir protagonizando encantamentos juvenis sem perder a devoção de seus espectadores, que também sonham em se manter jovens para sempre – e a devoção então se transforma em uma espécie de vingança. É com prazer secreto que os fãs trocam o fato de não terem a vida de seu ídolo, pela certeza de que o mero passar do tempo – que para a população comum é indigno de nota – será, nos astros e estrelas de cinema e da TV, noticiado, sublinhado, criticado, alvo de chacota e apontamento de um ostracismo por vir.

É claro que junto dos homens de terno estão a indústria de cosméticos, da moda, das cirurgias plásticas e dos livros de auto ajuda. Contudo, o verdadeiro produto vendido é a metáfora – sem data de validade nem escassez, com cem por cento de demanda, perfeito para todos os segmentos de mercado. O diabo mora na memória.

Porém, por mais que algumas dessas estrelas consigam postergar a revelação por tempo impressionante, sempre chegará o dia em que a beldade de ontem interpretará a mãe de uma novíssima estrela em um folhetim – e a fábrica de metáforas nunca para. Resta ao público então notar silenciosamente a mudança, resignar-se e conviver com essa cruel obviedade que ele mesmo pariu – desapegando-se de suas próprias memórias, seus sonhos, de si mesmo, e abandonando Greta Garbo à solidão.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 26/08/2013 por em Vitor Paiva.
%d blogueiros gostam disto: