ORNITORRINCO

TUDO QUE FUNCIONA 24 HORAS É BOM

Voltando para casa agora, às três e pouco da madrugada, perto de virar à esquina da minha casa, vejo as luzes acesas da Pet Shop 24 horas e sinto uma paz enorme. Não só pelo fato de ter um gato e talvez precisar desse serviço um dia, não. As coisas que funcionam 24 horas me trazem paz.

Eu sempre tive dificuldade de dormir a noite, tinha uma sensação muito forte de estar sozinha. Quando criança achava que eu era a única pessoa acordada no mundo e isso era aterrorizante. E se de repente houvesse um ataque em massa dos guaxinins sem mães, ou do império das lesmas e só houvesse eu para lutar com eles? Era muita responsabilidade. Ficava feliz quando tinha alguma festa de adulto lá em casa porque quando tinha festa as pessoas ficavam acordadas e eu podia dormir. Era quase sempre assim nas madrugadas insones, quando o sol saia e eu ouvia os primeiros movimentos humanos, conseguia dormir e dormia bem. Lembro de passar mal uma vez de madrugada e ir para o hospital. Nesse dia descobri que existiam hospitais 24 horas e tinha um bem pertinho da minha casa e que nos hospitais as pessoas não dormiam nunca e eu podia dormir tranquila. Sempre dormi muito bem em hospitais.

Adoro farmácias 24 horas, já desci aqui pela rua e sentei em frente de uma na calçada mais de uma vez. O sono chega rapidinho e depois de saber o nome do atendente e um pouco da vida dele, eu já posso dormir.

A clínica da minha psicóloga é 24 horas e você pode ir lá se não conseguir dormir, ou se tiver muitos pesadelos, mas não é um serviço que deve ser muito utilizado, ela já me explicou.

Os frentistas são sempre muito simpáticos comigo, os do posto da rua do lado já me conhecem pelo apelido e vez ou outra dividimos a caneca de leite das 02:00 da manhã.

Garçons, seguranças, motoristas de táxi e de caminhão, bêbados dos botecos de esquina, DJ’s, meninas insones, povo da clínica da minha psicóloga e outros que o nome-coisa me fugiu agora, são eles os protetores noturnos, o exército que lutará comigo caso o império das lesmas ou os guaxinins sem mães pensem em destruir a humanidade.

É preciso orar por eles, é preciso orar para que o vigia noturno não durma na cadeira como vez ou outra eu vejo o Edmilson fazer, é preciso orar pelo fim do Rivotril para que meninas insones não caiam na tentação de tomar um, como já fiz algumas vezes. É preciso orar pelo arrebite, pelo bate-estaca, pelas luzes que piscam, pela cachaça e pelo petróleo. A segurança da humanidade depende disso.

Guaxinins a parte, escrevo isso em homenagem à todas as pessoas que trabalham de madrugada e existem enquanto eu hoje, finalmente, posso dormir, ou apenas não me sentir tão sozinha.

Tayana Dantas é atriz, dramaturga, poeta e letrista.
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Publicado em 23/08/2013 por em Tayana Dantas.
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