ORNITORRINCO

CONSIDERAÇÕES INÚTEIS SOBRE O SUJEITO SOZINHO NO TRAJETO

PARTE CONSIDERÁVEL DA VIDA DE UMA PESSOA
 Parte considerável da vida de uma pessoa é passada não exatamente nos lugares onde ela por escolha ou obrigação tem que estar, mas sim no caminho entre o lugar onde estava antes e aquele para o qual ela tem que se dirigir. 
O CAMINHO 
O caminho que se faz para se estar onde se tem que estar faz parte da vida tanto quanto o lugar onde se estava antes ou aquele para o qual se irá VIDA INTERIOR
 Uma pessoa que more muito longe de onde sempre tem que estar tem possibilidades de vida interior imensamente diferentes da de uma pessoa que more muito perto de onde ela sempre tem que estar O SUJEITO
 O sujeito se forma nos lugares de onde veio e nos lugares onde chega mas se forma mais ainda no trajeto HABITAR A DISTÂNCIA 
A distância que separa esses dois pontos – o lugar onde se está e o lugar para onde se quer ir – também é e deve ser considerada como um lugar onde se está O TRAJETO 
É o espaço a ser percorrido na distância compreendida entre já ter saído e não ter chegado ainda O SUJEITO SOZINHO NO TRAJETO 
É sozinho que o sujeito percorre, na grande maioria das vezes, o espaço existente entre sair e chegar, de seja lá onde for até seja lá onde for VERTENTES
 Podemos dividir o SUJEITO SOZINHO NO TRAJETO em duas vertentes principais: sujeito sozinho trajetos curtos sujeito sozinho trajetos longos COMO RECONHECER UM SUJEITO SOZINHO NO TRAJETO
 Todo sujeito que chega sozinho em qualquer lugar acabou de ter estado em companhia dele mesmo sozinho no trajeto 

SUJEITOS SOZINHOS NO TRAJETO EM COMPANHIA DE SUJEITOS SOZINHOS NO TRAJETO
 O sujeito sozinho em seu trajeto está sempre rodeado de outros sujeitos sozinhos no trajeto deles RELACIONAMENTO ENTRE SUJEITOS SOZINHOS EM SEUS TRAJETOS CURTOS
 Sujeitos sozinhos em seus trajetos curtos têm menos chance de se relacionar entre si, o que não quer dizer que isso não vá chegar a acontecer RELACIONAMENTO ENTRE SUJEITOS SOZINHOS EM SEUS TRAJETOS LONGOS 
Sujeitos sozinhos em seus trajetos longos têm mais chance de se relacionar entre si, o que não quer dizer que isso vá chegar a acontecer RELATIVIDADE DOS NOMES DAS DISTÂNCIAS
 DOS TRAJETOS O desenvolvimento da tecnologia a escolha do meio de transporte as condições do trânsito a existência de espaço livre no coração são fatores relativizadores do tamanho dos trajetos a se percorrer sozinho com alguém ou sozinho sem ninguém IR DE ÔNIBUS
 A experiência mais intensa que pode acontecer entre dois sujeitos sozinhos com eles mesmo em seus trajetos é a viagem interestadual rodoviária TODAS AS VIAGENS 
Todas as viagens deveriam ser feitas de ônibus exceto as que só podem ser feitas de avião RELAÇÃO ENTRE SUJEITOS SOZINHOS PARTILHANDO TRAJETOS – ÔNIBUS RODOVIÁRIOS
 Desconhecidos que partilham por algumas horas o mesmo espaço, o mesmo destino, a mesma espera DAS INTIMIDADES COMPARTILHADAS SEM QUERER – ÔNIBUS RODOVIÁRIOS
 Em caso de a viagem ser à noite é comum que todos estejam dormindo. O sujeito sozinho em seu trajeto deverá atentar para a respiração dos outros sujeitos, estejam eles sozinhos em seus trajetos ou acompanhados. O sujeito sozinho em seu trajeto deverá contar nos dedos quantas respirações ele, sem esforço algum, consegue ouvir como se fossem a sua própria, subtraindo-se os casos de roncos, espasmos de roncos e mini-ronquinhos assustadores 

CHEIROS DESCONHECIDOS 
EM SEUS TRAJETOS No silêncio de um ônibus rodoviário é possível, mesmo que não se queira, sentir o cheiro das roupas da avó materna do desconhecido que ocupa a poltrona ao seu lado. Pensar que também o desconhecido, se sensível o bastante, pode sentir o cheiro da sua avó também, fará com que o SUJEITO SOZINHO EM SEU TRAJETO se sinta como que nu em uma fila de banco, ou de sunquini numa praia de nudismo 

DORMIR AO LADO DE UM DESCONHECIDO 
Em tendo alguém do seu lado no ônibus, seja durante o dia ou à noite, em algum momento um de vocês fatalmente irá dormir. Neste momento, o SUJEITO SOZINHO NO TRAJETO deverá notar que está dormindo ao lado de um total desconhecido, e ele ao seu lado. Neste momento é curioso pensar que os corpos de dois totais desconhecidos possam partilhar a mesma proximidade que um corpo só costuma ter com outros corpos excepcionalmente escolhidos para esta finalidade 

APOIAR O BRAÇO NO NEGOCINHO DO MEIO NEM PENSAR
 Em caso de dois desconhecidos viajando juntos jamais deve ser utilizado por nenhum dos dois o negocinho de apoiar o braço que fica no meio entre as poltronas. O artefacto representará a única fronteira física para que tanto você quanto o desconhecido ao lado consigam dar cabo da viagem sem que se tenham se tornado, sem querer, um casal com 4 filhos, ou até mesmo uma pessoa só BALANÇO 
A grande diferença entre uma vigem de ônibus e a vida é que na viagem de ônibus não ter ninguém ao seu lado é a melhor coisa que pode te acontecer.

Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 20/08/2013 por em Keli Freitas.
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