ORNITORRINCO

A ARTE SINCERA, VOLUME 1


Conversava com o Vitor Paiva no Baixo Gávea sobre como é raro encontrar um trabalho artístico que desprendido da preocupação de causar efeitos e impressões, e da necessidade de sedução, fosse o sumo sincero do que o artista estivesse pensando ou sentindo. A arte sincera. Pode ser difícil de alcançar, para alguns é mais impossível que para outros, mas a sinceridade não é um labirinto. A sinceridade é direta, não desvia.

Para se expressar com sinceridade é preciso coragem. E uma dose de cara de pau. Nascido no Canadá em 1990, o cantor e compositor Mac Demarco vai direto ao ponto ao escrever sobre sua vida – os momentos pesados e também os leves. Sem ficção. É aí que ele ganha, com o peito aberto constrói uma ponte sem adornos entre ele e o público. A forma, os arranjos de enfeite e a vaidade podem corromper a verdade.

Totalmente diferente do tão festejado último trabalho do Daft Punk (que por sinal é ótimo), o som de Mac é cru, econômico, um estilo que alguns podem chamar de pobre, ele usa sempre os mesmos efeitos tanto na guitarra ritmica quanto na guitarra solo, riffs simples, bateria simples e letras sucintas, sem metáforas, simbolismos, firulas. A potência de sua composição é como a fotografia de um vômito. Ele usa uma guitarra que comprou por 30 dólares canadenses e um pedal de efeitos que diz que “nenhum músico sério usaria”.

Sites especializados classificam a música de Mac Demarco como slacker-rock, tipo de rock derivado do college rock nascido nos anos 80/90, que tem como principais figuras as bandas Pavement, Modest Mouse, Neutral Milk Hotel.

Lembra um pouco os trabalhos da carreira solo do John Lennon. John colocava seu rim, seu fígado, seu intestino em cada música no maravilhoso Plastic Ono Band (1970). Logo após o fim dos Beatles, ele mergulhou na terapia Primal conduzido pelo psicoterapeuta Arthur Janov. Durante quatro meses John tratou de seus traumas relacionados a infância (abondonado pelo pai, a morte da mãe). O álbum tem canções baseadas nestes traumas de infância, como na primeira canção: Mother, you had me, but I never had you (…) Father, you left me, but I never left you / I needed you, you didn’t need me / So I just got to tell you Goodbye.

Na primeira música do primeiro e único disco do Mac Demarco, 2, ele conta sobre um pai de família preparando metanfetamina na garagem de casa enquanto a mãe está cozinhando e o irmão está no balé. Logo depois vem a música ‘Freaking Out the Neighborhood’, que ele diz que fez como um pedido de desculpas para a mãe dele. Foi o seguinte, bêbado em um show, Mac caiu de bunda em cima de uma baqueta e começou a brincar criando cenas pornográficas como se estivesse enfiando a baqueta no cuzcuz. A cena foi parar no youtube e sua mãe e sua avó viram e ficaram, hum, #chateadas. I know it’s no fun / when your first son / gets up to no good / starts freaking out the neighborhood. A música mais conhecida do disco, ‘Ode to Viceroy’, ele fez para sua marca de cigarros favorita, e sobre seu hábito de fumar (que ele diz que nunca vai largar).

Até aí já está bom demais. Se você for, como eu, que está um tanto saturado de canções sobre o tema amor, sobre início e término de relacionamentos, já tem motivos de sobra pra dançar na pista. Mas é claro que a sinceridade do coração apaixonado ou ferido também iria aparecer na voz sonolenta de Mac. E mais que isso, são canções de amor divertidas, malucas, que, como ele diz, foram feitas para sua namorada, Kiki. Eles se conheceram ainda na escola e não se desgrudaram mais. É isso o que ele conta nas apresentações ao vivo enquanto faz declarações bêbadas do seu amor por ela. Num show em Barcelona, durante a música ‘Still Together’, ele chamou Kiki para o palco. Se beijaram, dançaram, se agarraram, até ele levantar ela nas suas costas e cantarem o refrão final juntos, um delírio para a porção de fãs femininas na platéia. Outra música, digamos, romântica, e uma das minhas favoritas – que vai grudar na sua cabeça -, é a sexy ‘My Kind of Woman’. Poderia aparecer nos filmes americanos dos anos 90, aqueles das sessões da tarde na TV, nas cenas do baile na escola, a declaração rasgada de amor feita com a estilosa voz cansada e charmosamente preguiçosa de Mac.


Oh baby
Oh man
You’re making me crazy
Really driving me mad
That’s all right with me
It’s really no fuss
As long as you’re next to me
Just the two of us

You’re my, my, my, my kind of woman
And I’m down on my hands and knees
Begging you please, baby
Show me your world



Mac Demarco, logicamente, não está sozinho. Eu e Vitor passamos a noite levantando outros nomes de artistas que através da arte revelavam o interno de si, algumas vezes o lado mais oculto. Kurt Cobain, Basquiat, Pollock, Blood on the tracks (discão do Dylan), Caetano Veloso 1971 (seu primeiro disco em Londres), o filme Tarnation de Jonathan Caouette…

Este texto é só o início de um estranho ensaio que pretendo elaborar explicando muito do meu atual desinteresse pelas obras de ficção, tanto como espectador como criador, pois acredito que são menores que a vida. Tudo é menor que a vida. Mas eu divago…

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 16/08/2013 por em Gabriel Pardal.
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