ORNITORRINCO

A CASA CAIU PRA VOCÊ: SEU PAI NÃO É O MELHOR PAI DO MUNDO

Família Osbourne.

Olha só, vou te mandar uma real: Seu pai não é o melhor pai do mundo. Seu pai não é o super homem.

Abri o facebook hoje e vi umas 50 postagens dizendo isso. Desculpa aí largar essa na vossa cara nesse dia tão especial, mas vocês estão viajando.

Estou em Petrópolis, vim visitar meu pai. O nome dele é Gina, também é conhecido como minha mãe. Meu pai anda meio ausente sabe… está morto. Mas ele foi meio ausente também, sabe, sem ressentimentos, já faço terapia há algum tempo e hoje já aprendi a amar meu pai, um ser humano. Num busdoor aqui na cidade Imperial vejo uma propaganda de uma loja de tênis que tem um símbolo de super homem e o slonga Seu pai super herói, dê um presente, ele merece blablabla. Isso é uma bullshetagem danada, baboseira da porra, mas vende.

Vende no sentido literal, afinal se seu pai é foda, vamos comprar um presente pra ele, né? Se a propaganda fosse “Seu pai é um bosta, mas compre um presente pra ele” acho que não ia vender muito. E vende também pelo mito de que a gente tem sempre alguém machão, mesmo se seu pai for gay, forte, mesmo se ele for raquítico, exemplar, mesmo se ele for político, enfim, alguém perfeito – que eu te garanto que ele não é -, que vai estar sempre com você pra te proteger, mesmo que ele esteja morto. Porém, caso ele morra, ou falhe, ainda tem o papai do céu dando cobertura sempre que você precisar. Tenho minhas crenças no meu Deus, mas é certo que não tem nada a ver associar Deus com Papai.

Meu pai já morreu há mais de 10 anos, mas bem antes disso eu já achava meio forçado esse negócio de meu papai, meu herói, meu deus, papai do céu.

Primeiro que falar PA-PAI é bem violentinho, escrotinho. Parece que é gago, ou que tem uma conotação sexual, sei lá, mas o ponto principal não é esse. Não é bacana porque essa romantização é feita desde a escola, já que quase todas tem esse ritualzinho de dar presentes pro super pai, pai herói. Se forem escolas católicas, como a que eu estudei, ainda tem isso do papai do céu.

Lembro que os filhos de um conhecido estudavam com meus sobrinhos nessa mesma escola católica que eu estudei. Vi a molecada saindo no dia dos pais com um porta CD, que eles tinham feito com um desenho do super homem e “Papai eu te amo”. Esse conhecido era viciado em cocaína, galinha, batia na mulher, não ajudava com as contas, era gordo e feio, mentiroso compulsivo e ainda por cima tirava meleca sem medo de ser feliz na frente de todo mundo. E a mãe estimulava o mito do super pai, apesar do olho roxo.

Duas crianças brincam. Ela começou a falar que o pai dela era melhor que o meu nisso e naquilo. E que o pai dela era melhor que meu no futebol. Tinha uns 8 anos. Bati na garota e parei de falar com ela, que era minha vizinha. Como assim minha filha? Meu pai é o melhor do mundo no futebol! Ele não perde, é imortal e não se machuca. E pouco tempo depois disso, ele não só se machucou jogando uma pelada, como tomou caneta e vários dribles humilhantes do pai de outro amigo que era bom de bola. Fiquei muito chocado esse dia, um sentimento de vergonha, decepção, sei lá, vai explicar sentimento. O telhado da casa caiu.

Lembro de uma vez que meu pai foi me buscar na saída da escola, inesquecível essa vez. Ele todo arrumado de terno, bonito, os meus amiguinhos com uma certa invejinha branca que eu lembro dos olhares, porque meu pai era o delegado de policia federal, trabalhava no Rio, minha professora olhando com cara de uau!, foi quase uma presença de um mito, de um super herói, foi uma super presença. Tão super que essa foi a primeira e única vez e ele nunca ia na festa do dia dos pais. A porta e a janela da casa caíram.

Meu pai não foi um péssimo pai, apesar do que possa parecer. Nunca me deixou faltar nada, tentava dar carinho de maneira torta, mas dava. Me ensinou muita coisa legal. Certa vez achei uma carteira lotada de dinheiro com documento e tudo. Eu tinha uns 10 anos e queria ficar com a grana, lógico. Ele me fez ir na casa do cara (que ele conseguiu achar não sei como porque não tinha o Google), entregar em mãos a carteira exatamente como achei. Depois me deu a grana equivalente. Esse mesmo pai, super moralista, super católico que fez bodas de prata na igreja, tinha uma família paralela secreta com uma filha e tudo, hoje minha irmã caçula querida. O que foi um exemplo legal também porque eu percebi que a poligamia é possível. Na verdade, quando descobri essa do meu pai, aí sim o resto da casa caiu. E se essa casa não tivesse sido construída, não tinha casa pra cair.

Essa coisa de super pai, pai herói, não é saudável. Seu pai é só uma criança, que foi educada por outras pessoas cheias de falhas, que cresceu e virou seu pai. Seu pai é humano, se ele não errou, pode ter certeza que vai errar e se essa consciência fosse passada desde a escola, ao invés de porta CDs com o super homem, a gente viveria num mundo mais real de pais humanos, com choques de realidade menos fortes para crianças que descobrem que seu pai também perde no futebol.

Sim pode até ser que seu pai seja super mesmo, porque existem pessoas muito bacanas nesse mundo e muitas delas se tornam pais, ou também porque o super homem está nos olhos de quem vê.

Eu juro que não é inveja, olho grande, eu quero ter o que você tem. Mas, pensa comigo o óbvio: se todo mundo está nas redes sociais postando hoje, “Meu pai é o melhor do mundo”, é logicamente impossível que todo mundo esteja certo.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 11/08/2013 por em Franco Fanti.
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