ORNITORRINCO

CINCO MULHERES QUE EU COMI

Foto: Frederic Dorizon


A patricinha modelo
Vale perceber que a ordem aqui altera o produto. Ser uma ‘patricinha modelo’ é diferente de ser uma ‘modelo patricinha’. Ela não era modelo como profissão, mas poderia ser, pois era linda de cair um raio. Mas se patricinha fosse uma profissão, provavelmente era o que ela seria. Meu prazer era pensar que eu estava destruindo algo belo. Toda a sua falsa castidade, o seu falso bom comportamento, o seu cabelo bem penteado (falso), a sua maquiagem, o seu semblante blasé, a educação do seu pai, a etiqueta da sua mãe, de repente tudo sendo demolido. Ela gostava. Eu tinha a impressão de que era por isso mesmo que ela se apegava à mim. Por isso que me ligava de madrugada pedindo para que fosse imediatamente para a sua casa. Me irritava um pouco com o fato de que ela tinha que se maquiar todas as vezes que saíamos. Era muito preocupada com a roupa que estava vestindo e como estava se comportando em público (tudo isso: se preocupava demais com a impressão que causava). Eu não gostava muito de sair com ela, não me sentia à vontade, era sempre uma Missão. Me divertia em provocá-la sexualmente em lugares públicos, casamentos, festas. E de transar com ela nas casas das suas amigas. Eu comi suas melhores amigas e isso não era um problema para ela. Acho até que ela gostava.


A mãe natureza
Fazer sexo com ela era como uma religião. Nosso corpo junto estava mais do que colado, unido, era um corpo só. Tremendo. Em convulsão. Ritual. Os poros abertos ultra-sensíveis, me sentindo derramar e escorregar pelo seu peito. Arrepios. Pupilas dilatadas. Olhão que ela tinha, um olhão gigante olhando pra mim, eu ali em cima dela, meio que um menino no mato. Eu sentia como se tivesse uma seiva percorrendo meu corpo. Me rasgava com suas unhas, e a seiva escorria pelo lençol. A sensação era de que eu sangrava, ou de que nascia de novo, ou de que ia morrer. Aquela mulher era capaz de inundar um deserto. Me sentia penetrar seu coração. A gente fodia um por dentro do outro. Era apenas nós dois no mundo inteiro, como se transássemos num cometa varando o universo. Fora isso não conseguia exprimir nenhum sentimento no dia a dia. Me deixava confuso, lhe disse algumas vezes que lhe amava, mas eu nunca ouvi ela dizer eu te amo. Talvez não acreditasse nisso. Talvez.


A atriz pornô
Não, ela não era atriz pornô (ao menos não que eu soubesse). Mas era atriz. E tinha esse hábito bizarro de fazer performances enquanto transávamos. Fazer caras e bocas, posições malabarísticas, gemia e falava coisas como se alguém estivesse dublando. Eu tinha a impressão de que ela estava interpretando o sexo. Não era exatamente bom transar com ela mas tinha alguma coisa que me envolvia. O cheiro, a beleza, as conversas extraterrestres que tínhamos depois. Não era uma má pessoa, só era um tanto insegura, precisava de coisas para se apoiar. Quando bebia se descontrolava um pouco, aí era bom. E quando viajávamos também, longe das pessoas conhecidas ela se deixava ser só ela. No palco exibia ego e confiança. Era uma atriz talentosa. Eu nunca soube se ela gozou alguma vez. Nunca soube se ela gostava mesmo de sexo. 


A doidona
Todas as vezes em que transamos estávamos completamente alucinados. Tanto que nem lembro muito.

A namorada do amigo
Foi um erro. Mas foi bom. Na hora não parecia tão errado assim. A primeira vez que transamos foi numa boate, no andar de cima onde era mais escuro e quase não dava para enxergar. Depois fomos para sua casa. Num outro dia nos encontramos numa rave, meu amigo estava viajando, não teve jeito, nos agarramos de novo. Novamente fomos parar em sua casa. Passamos o domingo inteiro entre a cama e o chuveiro. É uma merda, eu pensava, Que merda estou fazendo. Ela tinha a sensualidade do proibido, do perigo. Me olhava como que dizendo Você não pode tocar em mim. Me dava como que dizendo Você tá fudido. Gostava que puxasse seu cabelo e cuspisse na sua cara. Dizia aqueles clichês “Faça comigo o que o seu amigo não faz”. Malandra.


Por algum motivo essas cinco foram as primeiras que me vieram na lembrança e coincidentemente não tenho mais nenhum contato com nenhuma delas. Onde estão? A patricinha modelo deve estar em Paris, ou Berlim – que está na moda -, namorando algum designer de móveis. A última notícia que eu tive da mãe natureza foi que ela viajou para o interior da Bahia e foi morar numa comunidade e se casou com uma mulher e teve um filho. Vira e mexe eu vejo um comercial da atriz pornô e recebo convites de suas peças, mas nunca fui. A doidona deve estar por aí, pelas baladas da cidade, ou quem sabe não, deve ter entrado pra igreja e agora alucina os pastores. A namorada do amigo se casou, sei disso porque recebi convite do casamento e tudo. Mas não foi com ele.  

Moral da história. Já comi uma porção de gente por aí. Em férias, festas, folias. Acontece que agora não quero comer mais ninguém. Porque estou comendo você.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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8 comentários em “CINCO MULHERES QUE EU COMI

  1. Rafaela Gimenes
    02/08/2013

    Gosto desse tipo de declaração de amor, são as mais sinceras.

    É de invejar qualquer você.

  2. Anonymous
    02/08/2013

    tesão

  3. Paula R.
    02/08/2013

    final surpreendente

  4. Anonymous
    02/08/2013

    Cê come ninguém!

  5. Gabriel Pardal
    03/08/2013

    Rafaela, é como carta de amor enviada num canhão. Só que dessa vez sem o canhão.

  6. Gabriel Pardal
    03/08/2013

    Como os anônimos. (:

  7. sandra santos
    06/08/2013

    boa a sacada do final!

  8. Lucas Y Paz
    07/08/2013

    Dei valor.
    Bons relatos, afloraram lembranças que já tive, como outros leitores devem o mesmo ter sentido.
    Conclusão portentosa.

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Publicado em 02/08/2013 por em Gabriel Pardal.
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