ORNITORRINCO

BIOGRAFIAS, GRAFEMAS, GRAFICÇÕES

Ilustração: Mario Wagner

Li dia desses uma matéria sobre a nova biografia do artista alemão Joseph Beuys, escrita por Hans Peter Riegel. Não li o livro que nem foi traduzido para o português ainda. Mas, a matéria conta que o biografo está sendo processado pela viúva do artista por aproximar Beuys do regime nazista. Imagino o quão complicado para os alemães deve ser essa relação entre seus expoentes do pós-guerra com as ideias levadas a cabo pelo Adolf Hitler reprovado na academia de artes de Viena. Talvez haja uma vontade policialesca de descobrir verdades encobertas por figuras importantes da Alemanha do pós-guerra para que não sobre ninguém impune, sei lá.


A matéria de jornal conta que o livro é “escrito como uma investigação policial”, que Beuys nunca teria se distanciado dos velhos amigos nazistas, que teria mentido sobre episódios de sua vida como quando salvou livros da fogueira no colégio, que mentiu sobre a origem do pai, sobre sua própria cidade natal, que não era antissemita ou racista, mas que tinha ideias por demais nacionalistas.

Joseph Beuys


O livro ainda desmente a história contada por Beuys de que teria sido tratado com gordura animal e feltro (matérias de sua obra mais famosa) depois de um acidente de avião durante a guerra. Que foi piloto do exército alemão Beuys nunca negou, o que negava era o conhecimento sobre o holocausto enquanto lutava – o novo biógrafo também considera isso impossível. Daqui de longe posso apenas vislumbrar o peso que essa terrível história alemã do século passado possa ter para as gerações que se seguiram. Não tenho a menor competência pra dizer qual das duas versões (a do artista ou a de seu biógrafo) é a verdadeira. Não sei se estamos diante de uma comissão da verdade, que quer abrir os arquivos de um período pavoroso da história de um país para, com toda a justiça, encontrar o paradeiro de desaparecidos e julgar dentro da lei aqueles que violentaram um povo ou se estamos diante de uma malhação do Judas transformado Joseph Beuys no Simonal alemão. Mais uma vez repito que não tenho a menor capacidade pra analisar essa questão que coloco. Quem sabe Joseph Beuys era um grandessíssimo filho da puta, mas fico pensando sobre essa vontade da verdade nas biografias. Uma vontade da verdade quase bíblica, encontrada em Lucas 12:2 “nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido”. Vontade da verdade bíblica já é uma contradição em termos, uma vez que do ponto de vista do rigor historicista a bíblia deixa várias lacunas, sendo um espaço de narrativa que se vale mais de artifícios literários, como a parábola e a hipérbole, para contar o que quer. Se pegarmos uma passagem do Gênese que conta da Arca de Noé temos: “passados sete dias foram quebrados todos os fundamentos da grande profundidade e as janelas do céu foram abertas, e a chuva caiu sobre a terra por quarenta dias e quarenta noites”, ou seja, vale muito mais o exagero bem afeito ao drama do que a quantidade de milímetros cúbicos de chuva. Gosto mais quando é assim, com chuva, dramático, sem você saber quanto de acréscimo o juiz deu.


A construção de uma vida não é feita apenas de verdades, mas também de autoficções que se vão construindo, uma espécie de obra viva que vai tomando forma junto com a obra do autor seja ela feita de letras, tinta, bronze, feltro ou gordura animal. Eneida Maria de Sousa, em seu ensaio ‘Notas sobre a crítica biográfica’, faz interessantes apontamentos sobre estas múltiplas chaves de leitura dizendo que “a figura do escritor substitui a do autor, a partir do momento que ele assume uma identidade mitológica, fantasmática e midiática. Esta personagem, construída tanto pelo escritor quanto pelos leitores, desempenha vários papéis de acordo com as imagens, as poses e as representações coletivas que cada época propõe aos seus intérpretes da literatura.


Cada escritor, portanto, constrói sua biografia com base na rede imaginária tecida em favor de um lugar a ser ocupado na posteridade”. Assim o saber dramático suplanta o epistemológico “ao operar nos interstícios da ciência e promover a encenação de subjetividades”. A leitura que se faz da vida/obra de um artista ou autor, para mim, é bem mais interessante quando é menos policialesca e mais ficcional, quando há espaço para este lugar da encenação, da subjetividade, quando se assume que a dimensão fantasmática e espectral está presente na vida dos grandes artistas assim como na de todos nós.

Fico na cabeça com as biografias escritas por Paulo Leminski, compiladas no livro Vida. Trotsky, Bashô, Cruz e Sousa e Jesus tem suas vidas passadas a limpo, ou melhor, enrugadas, por Leminski. São nesses enrugados, nesse embaralhar de vida-obra-ficção que Leminski nos conta não a verdade sobre essas vidas, mas os sabores que elas babaram. A precisão das datas é deixada de lado, a linha cronológica é pervertida e a vida de um Cruz e Sousa não é sua data de nascimento e morte, o nome de seu pai e sua mãe, sua profissão e quantos filhos teve. A vida de Cruz e Sousa é mais sua paixão: pela literatura, por sua mulher louca, a localização marginal de um poeta simbolista naqueles tempos, a vida de um negro no Rio de Janeiro daqueles tempos, seu desejo de ser universal. Cruz e Sousa inventor da tropicália, “tropicalismos primaverais de sóis sangrentos”, dialogando com o blues americano, Alphonsus de Guimaraens, Bob Marley e Gilberto Gil.

Numa vida há muitas informações para serem lidas, segredos encriptados para serem desdobrados, mas no sentido da verdade jornalística as biografias de Leminski mais desinformam que informam. Sendo assim me parecem super transgressoras, não só pelas figuras de forte personalidade política que apresentam, mas por agirem na contramão dos sistemas de crenças estabelecidas, transformando-se num veículo destruidor de dogmas, não impondo outros, mas abrindo caminhos para a reflexão e o pensamento crítico de quem entra em contato com essas vidas, com esses jogos de biograficção. Sendo assim estão mais em consonância com a reflexão da jovem artista mexicana Minerva Cuevas de que “A desinformação é uma arma efetiva contra sistemas de crença. É particularmente mais perigosa quando contaminada com uma semente de verdade”.


O escritor conta aquilo que ouve, não o que houve, salve sempre Oswald de Andrade. Contaminemos a vida com mais ficção.



Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 01/08/2013 por em Domingos Guimaraens.
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