ORNITORRINCO

C-U


Objeto de Amar

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

– Adélia Prado


Em todas as manifestações que fui na vida, a palavra mais usada/cantada/gritada foi CU. O cara pode ter sido um ladrão cruel, mas não basta urrar por sua prisão, o lance mesmo é mandar tomar no cu. Tomar no cu. Desde sempre um grande xingamento. Te deram uma fechada, o ônibus não parou pra você, o juiz não marcou um pênalti. Tomar no cu. Nunca entendi muito bem, mas não sou assim tão estranha e n’algumas situações eu abraço o senso comum. Então muitas vezes já gritei “vai tomar no cu!” para algumas pessoas nessa vida. Só que essa pessoa pode curtir. E curtir muito. Dar o cu. Então tudo se perde?


Um amigo gay, ferrenho ativista, não lamentou, mas constatou: “Perdemos o cu para o mundo”. É isso. E tudo bem, disse ele, o lance é ver com graça. Na manifestação na frente da casa do ARGHT, Cabral, onde muitos gritavam coisas relacionadas a sexo anal, entre Cabral e Paes, Cabral e Eike, em determinado momento, Rafucko (procurem saber), iniciou um grito em contra-partida: “Ei, Cabral, toma da polícia, porque tomar no cu, eu te garanto, é uma delícia”. Muitos manifestantes não cantarolaram juntos, riram, estranharam, mas no fim, bateram palmas em respeito. Mas Rafucko já tentou controlar o uso do cu. Contou que n’outra manifestação, uns jovenzicos começaram a gritar algo como “Cabral, seu viado, vai dar o cu pra não sei quem”. E que ele na hora virou e disse “Então, eu sou viado, e dou o cu, e isso é ótimo, se você grita isso parece que é uma coisa ruim”. Os jovenzicos não foram radicais, pelo contrário, ouviram, pediram desculpas e constataram “Verdade, brother”.

Uma vez, no Maracanã (quando ainda era Maracanã), a torcida do Flu gritava atrás do goleiro Julio César, do Flamengo: “Ô Júlio César, seu viadinho, a sua mulher já deu o cu pro Ronaldinho”. Em um ambiente extremamente machista, como um estádio de futebol, já esperava ouvir baixarias, mas não só bastava xingar de gay ou lembrar ao sujeito que sua atual esposa já ficou com um outro jogador. Não. Isso é pouco. O lance é dizer que a atual esposa já deu o cu.


A escolha dos gritos é curiosa, uns grudam e surtem onda de efeito, outros começam muxoxos e assim permanecem. “Meu cu é laico, arrá urru” é um bom exemplo do uso de tal palavra nas manifestações. De resto é muito desejo reprimido, aleatoriedade e demência, sempre ela.


Em algum passado imbecil onde de repente DO NADA (percebe-se meu alto conhecimento antropológico no assunto, NÃO!) um homem ficar com outro homem se tornou algo ruim. Feio. Do Mal. Pior. Estranho. Proibido. Logo, o ato sexual que esses homens faziam, ANAL, também se tornou uma coisa ruim. Feia. Do Mal. Pior. Estranha. Logo, em qualquer situação de raiva começaram a desejar coisas ruins, feias e do mal para outras pessoas.


Sempre que começam a gritar desejos anais nas manifestações, eu meio que me calo. Rafucko diz que é pra não ligar, “porque nós, os gays, já perdemos o cu pra isso”, ele ri. Eu rio também. Mas fico pensando em cantar umas coisas mais malucas do tipo “Cabral, como você dorme? Como você mete? Como você olha na cara do seu filho? Na cara do seu pai?” Eu juuuuro que a melodia é boa, engraçada, mas acho que não pegaria. RYSUS. Sei que não pegaria. Mas sei lá, rogar uma praga forte em forma de canto, de mantra, me parece mais real e sensato do que mandar o PULHA do Cabral e do Paes comerem um o cu do outro. Palavra cantada tem força. Pois eu bem já me fiz de sereia. Já trouxe pra mim e já expulsei, através do canto.


No mais, a cidade fede, a polícia abusa, os diálogos não existem, absurdos já quase não chocam, 2013 é um ano forte. Na Bíblia em inglês, Apocalipse é Revelations. Não é fim do mundo, é revelação. Tomara que desse caos surja uma estrela, do tipo que brilha, não nebulosona. Eu vou continuar saracoteando, mas sem mandar tomar no cu. Lugar de ladrão é na prisão mesmo, não no prazer.



Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
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5 comentários em “C-U

  1. LIP
    25/07/2013

    Ela é foda, apenas. Foda. No prazer.

  2. Laniér Rosa
    26/07/2013

    Amei seu texto! De verdade. Gostei do jeito que você escreve e da reflexão sobre aquilo que pra gente às vezes é tão corriqueiro, que nem é questionado. Parabéns!

  3. marcos
    26/07/2013

    Este comentário foi removido pelo autor.

  4. Unknown
    02/08/2013

    Este comentário foi removido pelo autor.

  5. MaluvK
    02/08/2013

    Leticia sempre na clareza! ❤

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Publicado em 25/07/2013 por em Letícia Novaes.
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