ORNITORRINCO

O PAPA – RÁ PAPARÁ PAPARÁ CLACK BUM – VEM AÍ!

Máscaras do Papa Francisco


“Fé em Deus DJ, vamo lá!” Gritam os MC Junior e Leonardo no início do Rap das Armas. Se Deus é onipresente então tava lá com eles na composição do hino do morro quando a violência assumiu o comando e o “Alvorada lá no morro que beleza” foi trocado pelo “Papará papará papará clack bum”. Cidade imersa no caos. Numa entrevista de 2008 o prefeito Eduardo Paes fala desse caos e faz uma defesa da Polícia Mineira, mais conhecida como milícia, alegando ser essa uma maneira do estado democrático de direito retomar a soberania de áreas perdidas para marginais degenerados. “Eu faço uma oração para uma santa protetora / mas sou interrompido a tiros de metralhadora / Já não aguento mais essa onda de violência / Só peço à autoridade um pouco mais de competência” cantam Cidinho e Doca no Rap da Felicidade. Essas são trilhas sonoras dos anos 90 que até hoje fazem sentido e ecoam pelas esquinas do Rio. 

Nesta segunda-feira o Papa Francisco desembarcou no purgatório da beleza e do caos. A trilha sonora da cidade são as sirenes da polícia, os sinos das igrejas e as hélices dos helicópteros. A fé depositada nas UPPs vai desmoronando quando vemos que pacificação não é paz, que as milícias seguem seu domínio fascista e que na Rocinha pacificada o Amarildo continua desaparecido, que a PM continua sendo a única ponte entre o Estado e o povo, seja nas manifestações do asfalto (com bala de borracha) ou nas da favela (com bala de verdade). Se Deus é onipresente então ele tá aí no meio da bagunça, sabe de tudo. Difícil é tentar entender tudo, talvez até mesmo pra Deus. Mas antes: “Ai daquele que edifica a cidade com sangue, e que funda a cidade com iniquidade!” Habacuque 2:12.
A chegada do Papa foi apoteótico-apocalíptica, chegou e logo ficou engarrafado no Papamóvel que pegou o caminho errado, bem ao estilo 485 em dia de fúria. Ainda bem que Deus é onipresente e arrumou um helicóptero pro pontífice argentino não passar pelo mesmo constrangimento que milhares de cariocas passam todos os dias usando o transporte público no Rio de Janeiro. A zona no centro foi parecida com dias de carreata pra seleção brasileira campeã do mundo. Lá estavam os que comemoravam a visita papal, os que protestavam pedindo um estado laico e o pessoal muito mal informado que não tá entendendo nada e só ficou engarrafado mesmo. O futebol não é laico, está mais pra panteísta, embora os evangélicos tentem evitar as guias de santo, mas o pai nosso une a galera, do tamborzão ao gospel. Entre as muitas e muitas visitas oficiais o Papa, torcedor do San Lorenzo, vai dar a bênção ao Neymar, se o Barcelona liberar. Mas que espanhol vai negar um pedido de um Papa? Se bem que Barcelona é Catalunha. Na viagem de avião de Roma pro Rio o Papa disse que a Copa de 2014 está nas mãos de Deus. Não sei se o argentino foi irônico ao usar a expressão, já que Maradona disse em 1986 que seu gol contra os ingleses foi “gol de Maradona, com la mano de Diós”. A mão de Deus se tornou um símbolo do canhoto baixinho, uma mãozinha que os latino-americanos estão acostumados a usar na malandragem do dia a dia. Fomos muito bem ensinados por ingleses, espanhóis, portugueses e jesuítas que chegaram por aqui na mão grande há mais de 500 anos. Mas como Deus é onipresente, viu tudo, e não preciso ficar contando de novo.


Marcia X



Hoje não teve futebol. O Papa encontrou com nossa chefa de Estado e foi humilde, pediu licença e tudo: “Peço licença para entrar e transcorrer essa semana com vocês. Não tenho nem ouro nem prata, mas tenho algo de mais precioso que me foi dado: Jesus Cristo”. De ouro e prata o Vaticano está cheio, mas Jorge Mario Bergoglio não escolheu Francisco à toa, ele quer passar a imagem de uma outra igreja. Igreja do perdão, da cura, do amor, da solidariedade. Por isso um de seus compromissos de agenda é inaugurar o Polo de Atenção Integral à Saúde Mental do Hospital São Francisco de Assis na Tijuca. Bancado pela Conferência Episcopal Italiana o polo se dedicará a cuidar de dependentes químicos. Um gesto nobre, mas que pra mim esconde vários paradoxos. Avesso ao militarismo, o Papa pediu menos seguranças e desfilou em papamóvel aberto, inaugura um pólo para tratamento de dependentes químicos mas condena a legalização das drogas. Me perco no meio de tantas agendas oficiais e de discursos que se distanciam muito da vida que levamos no rally urbano, mas a meu ver as drogas estão diretamente ligadas com a violência urbana e com a militarização. Por isso, por mais nobre que seja doar dinheiro e levar um Papa pra inaugurar um centro de tratamento é estranho que, justamente num encontro com a juventude, o assunto das drogas ainda seja abordado como tabu, como doença e como caso de polícia. Assim não adianta andar em papamóvel aberto, pedir menos segurança. A polícia continua na rua sentando a porrada e colocando os manifestantes pra correr, subindo o morro armada (faca na caveira) pra esculachar qualquer moleque com um baseado na mão. Continua sumindo com o Amarildo, ou no mínimo escondendo o que aconteceu com ele, o tráfico, militarizado, fomentado pela proibição da comercialização das drogas, ataca o Afro Reggae no complexo do Alemão e fecha suas portas. O tratamento às drogas deve ser feito lá no início, com sua legalização, e não somente nos casos de vício crítico que acontece, também, com os usuários das drogas legalizadas, como o vinho, sangue do Senhor. Amém.

Toda essa colagem de indignações e colapsos, toda essa conversa, é só pra dizer que a questão aqui não é criticar ou mexer com a fé de ninguém. Acho que religião e fé são importantes questões do foro íntimo de cada ser humano e que a espiritualidade é parte formadora de nossa existência. No entanto, quando o poder político dessa fé chega ao ponto de paralisar uma cidade, um país, por conta da visita de sua máxima santidade, aí a coisa fica mais complicada e não é possível não relacionar religião com política, ainda mais num estado que se pretende laico. A mesma coisa, em outras proporções, acontece com os mega eventos esportivos, nos quais fica impossível dissociar o teatro da guerra das competições com a guerra que elas provocam e expõem por onde passam. Os discursos e agendas oficiais, tão distantes da vida cotidiana, como era a vida nos castelos das cortes de outrora, vão seguir semana a fora. Hoje a polícia já foi pras ruas, prendeu, bateu e ameaçou em nome da segurança. A depredação do Leblon virou a desculpa para atacar manifestantes, prender os câmeras da Mídia Ninja, dispersar os Black Blocs (que já disseram não serem responsáveis pelos saques além da criação, por decreto do governador, da CEIV: Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas, uma espécie de Doi-Codi do Cabral. Enquanto o senso comum coloca os vândalos todos no mesmo saco ninguém atenta para o simbolismo de uma agência bancária apedrejada. Atos políticos estão mais que presentes nestes gestos. Não quero aqui incitar a violência, sou pacifista (talvez por excesso de preguiça, mas pacifista), no entanto é necessário que outras leituras mais sensíveis e acuradas sejam feitas sobre esse momento delicado e transformador que vivemos. Quantas vezes você já foi humilhado por uma megacorporação como um banco, por exemplo? Eu já fui muitas. 

A visita do Papa tá só começando, os jovens católicos estão por toda parte com sua fé, suas mochilas, seus hormônios, seus terços e suas culpas. Copacabana está tomada por um arsenal de cenários bíblicos. Guaratiba virou uma verdadeira cidade do Rock do Vaticano. Tudo feito de estruturas tubulares, isopor e panos, como numa boa alegoria de carnaval. Então que no meio desse caos político, religioso, a juventude (por que eu também sou jovem e sei o quanto isso é necessário) seja não só amém, mas que amem, se entregue ao universo encarnado da Cidade Maravilhosa e pensem menos que “O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” (Deuteronômio 32:33), e mais em “Teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios” (Cânticos 7:2).

Kolofé Axé Oxossí Saravá!

Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 23/07/2013 por em Domingos Guimaraens.
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