ORNITORRINCO

DECEPÇÕES ARITMÉTICAS DA VIDA



A matemática é uma ciência escrota.


Não tiro o mérito dos 2.295,452 usos e 21.732,33 utilidades desta ciência exata. Poderia dar 456,79 razões pela qual o mundo precisa da matemática, mas o texto não é sobre isso. Se você for fã das ciências exatas já pára de ler por aqui. Ou continua, mas já sei o resultado dessa equação. Vou te contar 5,2 historinhas e fazer 12,4 trocadilhos infames (como esse sobre a equação aqui em cima) pra tentar te explicar meu ponto de vista.



Na primeira série da tia Silvia, Deus a tenha, (ela nem morreu, mas é que acho essa frase escrotamente maravilhosa), até hoje lembro de uma pergunta que fiz. Estávamos aprendendo o que era unidade e dezena e eu numa curiosidade criativa + a vontade infantil de acessar um mundo desconhecido e sem limite + o sentimento de moleque metidinho a esperto achando que ia pegar a professora, perguntei:

– Mas tia silvia, e as coisas muito, muito, muito grandes, do tamanho do universo, maiores que as dezenas?


E ela com um balde de matemática fria:


– Aí temos as centenas, unidades de milhar, dezenas de milhar e por aí vai. Mas isso é só na terceira série.

Nunca esqueci isso. Algumas coisas específicas marcam nossa infância, mas por que uma coisa x = a uma memória e uma coisa y = 0? Nesse momento da Tia Silvia, como em muitos outros momentos da minha vida, senti alguma coisa, um sentimento que palavras não explicam, qualquer coisa longe de algo exato. Esse dia ficou até hoje na minha cabeça talvez porque ilustra bem como a matemática começou a ser odiávelmente frustrante pra mim. Só lembro que depois dessa decepção aritmética comecei a tentar fuder a matemática, tentando dar rasteiras nela.

Pegava um calculadora. Ligava. Olhava pra ela. De repente apertava uma porrada de números aleatórios e dividia por outros números mais aleatórios. E não é que a escrotinha da matemática sempre tinha uma resposta? Tentava multiplicações gigantescas, somas surreais, divisões bizarras e sempre tinha um resultado exato, mesmo se não fosse assim exatamente exato. A matemática é uma decepção para uma criança criativa. Ela sempre tem uma resposta, ela acaba com a mágica e o mistério das coisas, ela reduz coisas gigantes e incríveis como o universo e uma órbita de um planeta a pequenos e exatos números.

Ainda sobre planetas e decepções, conheci uma moçoila que trabalhava com astrologia e ela se decepcionou comigo. Depois de sairmos algumas vezes, eu com essa minha pouca matematicidade pessoal e sentimental, acabei percebendo que ainda amava minha atual namorada. A moça dos astros me atacou e disse que eu era confuso, mal resolvido, desonesto. Me questionou: Como eu pude não perceber que nessa divisão entre eu e minha ex restou algo? Como eu podia ter entrado na intimidade do lar dela, ter comentado sobre o que poderia ser nosso futuro e dois dias depois ter percebido que amava minha ex? Como? Ela, ainda com muito sangue nos olhos, finalizou dizendo que relacionamentos se baseiam em outros valores x, que eu não possuía, que abriu a intimidade numa velocidade z, inversamente proporcional ao ideal y do que deveria ser esse início de relação… Enfim, tudo muito matemático.

Pedi perdão por ter parecido leviano ou confuso, mas não adiantou. A questão é que sentimentos e relações não têm fórmula e não são uma ciência exata. Sentimentos, em especial os que vêm das entranhas, não são calculáveis e nem tem denominador comum. Sentimentos são incógnitas ambíguas, são uma equação sem um único resultado e interpretação. As vezes você acha que vai reagir assim e reage assim ao quadrado e a ordem dos fatores não alteram esse produto. Como eu sinto uma perda, amor, ódio não é = a como N pessoas sentem esse mesmo sentimento. Nada de denominador comum e MMC.

Se não concorda então dê uma resposta exata para o seguinte problema:
A= uma mulher; B= um homem.

Se A ama B e B ama A, A+B = Um filho? Separação? Casamento? Namoro? Assassinato? Aaaaah se relacionamentos e sentimentos fossem calculáveis assim.

E às vezes a gente deseja:
– que a vida e os sentimentos sejam como a escrotinha da matemática;
– que nós e as pessoas sejamos precisos e exatos;
– que a gente esteja certo e seguro de que depois de 657 dias 12 horas 20 minutos e 30 segundos foi a hora exata de terminar a relação;
– que depois de terminar a gente saiba que vai sofrer por 19 dias 7 horas 29 minutos e 59 segundos até estar pronto pra se envolver em um relacionamento novo;
– que esse acontecimento + nossa personalidade seja = essa reação = esse sentimento= essa consequência;
– que a gente saiba com precisão matemática a decisão exata a tomar e o caminho a seguir.

Aaaaahhhh se a vida fosse matemática.

Aaaahhhhh e que bom que não é.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 19/07/2013 por em Franco Fanti.
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