ORNITORRINCO

SU CASA, MI CASA



Vou dormir mais de três dias, pra mim é casa. Pode ser hotel, sofá de amigo, sítio, pode ser na minha cidade, em outro bairro ou país. Eu brinco de familiaridades. Nem sei se gosto ou é necessidade mas é num estalo que eu me acomodo com a minha bagunça ordeira e invento uma rotina sem nem pensar se ela não vai durar.

Aos dezessete fui passar quatro meses longe pela primeira vez. Beira do São Francisco, quarto de hotel, primeiro estágio, pai e mãe no andar ao lado mas um mundo pra chamar de meu. Comprei folhas grandes de isopor, encapei com crepom azul claro, preguei fotos com alfinetes dourados, e pela primeira vez vi surgir esse meu jeito. Depois disso mil viagens, mil momentos, temporadas em língua estrangeira, passeios ali do lado, eu não quero nem saber: chego, me instalo, crio hábitos.


Dessa vez é novidade. Um quarto na casa de uma completa estranha, uma moça bonita de nome esquisito com muito bom gosto e doçura – dica preciosa de um amigo que esteve antes de mim habitando esse lugar. Faz uma semana que cheguei. Paredes brancas lençol branco edredon branco cortinas quadros janela abajur. Não tem mesa no meu quarto mas tem ar condicionado na cozinha. Tem dois cachorros minúsculos que lambem meus pés como peixinhos de massagem tailandesa e muitas plantas por todos os lados. Não se pode usar sapatos. Tudo cheira a jasmin.

Eu escolhi estar aqui. Desejei. Entre a decisão e a chegada meu coração palpitou inexato: que cargas d’água ia eu fazer noutro canto, eu que tanto gosto do meu jeito, dos barulhos e silêncios do meu chão? Cheguei aqui e a pergunta ficou boba. Vim brincar de mundo, vim ver os meus, sentir outro sol na cara, provar novos temperos. Pois não é pra isso que andamos?

Cheguei fazem onze dias. A pasta de dentes fica na segunda prateleira do banheiro. Meus sapatos na gaveta de baixo do móvel da entrada. O travesseiro gordo abraça o aparelho de ar condicionado do quarto pra ele ficar quietinho. Comidas na estante perto do fogão. De manhã é chá, torrada com queijo fresco, framboesas. O pratinho de flor lascado na borda, a cadeira de frente pras janelas. Janelas, sempre, aonde quer que eu vá. Saio do prédio pra direita, são oito quadras pro metrô. Em frente à estação a loja diz “te amo” no letreiro – assim mesmo, em português. Meu trem é o L, direção 8a Avenida. A escola de culinária é na 23 com a 6a, troco de trem ou ando nove quadras. Aulas no 12o andar, banheiro no final do corredor, quatro portas enfileiradas, a minha é a segunda. Todo dia que eu vou lá. Da esquerda pra direita. Meu banheiro na escola. Eu escolho. Eu fico em casa.

Minha loja de bike é pertinho, entro e o Eric diz “Hi, there”. Subo em duas rodas e descubro novos ventos. Eu ando comigo nas costas feito caramujo, eu na barriga feito canguru. Lar sou eu inteira dentro da minha carne. Lar é qualquer lugar.

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 17/07/2013 por em Maria Rezende.
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