ORNITORRINCO

O PIOR CEGO É AQUELE QUE ENXERGA


Não há mais dúvidas do quão despreparada é a polícia militar do Rio de Janeiro – e do quanto isso é grave e perigoso. Ou pior: talvez ela seja justamente muito bem treinada, sob ordens de um psicopata, para agir como tal. É incontestável a necessidade de se desmilitarizar e reformar essa instituição – e é triste pensar que, da mesma forma que se trata a questão da legalização da maconha, é provável que ainda tenhamos que sofrer por algumas décadas de óbitos até que o óbvio seja feito.


Um ato de vandalismo por um civil não pode ser visto com os mesmos olhos que um ato de barbárie cometido pela policia. A própria existência da polícia prevê que delitos e confusões envolvendo cidadãos sempre acontecerão. Porém, quando o governo do estado, através de policiais subjugados, se revela o verdadeiro criminoso – e ainda mais, quando isso se dá contra a população como um todo, diante da mera necessidade de se lidar com a ocupação das ruas pelo povo – abandona-se um acordo fundamental e a loucura se instaura como se batêssemos com toda força contra nosso próprio rosto. Os excessos cometidos por cidadãos isolados não podem ser comparados à brutalidade de policiais treinados, se utilizando do aparato do estado e sob ordens de quem detém o poder.

Porém, um outro fator deve também ser sublinhado como um dos mais nefastos aspectos de toda essa história: a postura da grande imprensa. A violência que vem se repetindo por todo o país poderia ser ao menos amenizada se os grandes meios de comunicação fizessem não mais do que sua obrigação – relatar os fatos como ocorreram, ao invés de nubla-los e direciona-los completamente, na direção do que melhor lhes favorece, oposta à verdade e aos interesses gerais. 

A grande imprensa não tem se furtado em manter sua tradição de apoio inconsequente às elites, certos empresários e segmentos do governo que lhe beneficiam – da mesma forma que tentam esvaziar de forma leviana todas as propostas recentes do governo federal, como no caso da importação de médicos estrangeiros e do plebiscito. Agem como um quarto poder do Brasil, sempre e somente em favor de seus próprios interesses.

Porém, em tempos de internet, essa intenção supostamente velada se torna risível de tão explicita, e a grande imprensa passa a parecer uma criança, tentando manipular um fato evidente para não lidar com as consequências de uma verdade óbvia. Ou pensam que as crianças somos nós, engolindo inverdades em um tatibitate quase ilógico, como se não pudéssemos enxergar o real pelos nossos olhos. Como se os principais personagens dessas notícias não fossemos nós mesmos.

Quando se referem aos atos de vandalismo, a imprensa os trata como incontestáveis, e os exibe com competência exemplar. Mostram vidros quebrados, focos de incêndio, imagens filmadas em celular, apontam acusados e números precisos. Quando falam dos ataques contra os manifestantes, no entanto, confundem a ordem dos acontecimentos – que, nesse caso, altera sim o produto – e tratam os fatos como supostos. Suspeita-se que tenha havido excessos por parte da polícia. Supostamente um convidado da neta do Rei do ônibus no Rio de janeiro atirou um cinzeiro de vidro contra os manifestantes, em frente ao Copacabana Palace – ainda que a Mídia Ninja tenha registrado tudo e exibido ao vivo para mais de dez mil pessoas pela internet. De detalhe em detalhe, o verdadeiro algoz tenta se transformar em salvador da pátria. Dessa forma, a grande imprensa é também responsável pela manutenção do que está acontecendo. Tenho certeza que até o governador ou algum de seus assessores sem cabeça tem acompanhado os ocorridos recentes por um link ao vivo da Mídia Ninja.


Pois se a Mídia Ninja é provavelmente o fruto mais impactante das manifestações até agora, seu alcance é ainda muito pequeno em comparação ao estrago que uma reportagem mal intencionada do Jornal Nacional provoca – ou ao efeito que poderiam causar se dissessem a verdade. Enquanto a transmissão pela internet dos protestos no casamento da neta do Sr. Jacob Barata chegou a alcançar dez mil pessoas, o Jornal Nacional fala diariamente para cerca de dois milhões de domicílios, somente em São Paulo. A Mídia Ninja é fundamental para iluminar a verdade sobre as manifestações pelo Brasil, mas o JN pode influenciar diretamente, por exemplo, as eleições do ano que vem.

Imaginem a pressão que se daria sob o governador se, ao invés de somente dar ênfase ao estrago provocado pelos que protestam, os meios de comunicação mostrassem, com a mesma ênfase, baseados simplesmente no compromisso investigativo e factual que deveriam abraçar como princípio, alguns dos mil vídeos espalhados pela internet mostrando abusos policias que beiram a loucura? Se fossem um pouco mais como a molecada que se arrisca para simplesmente oferecer a verdade, sem edições duvidosas ou dramaturgias funcionais? Se a grande mídia fosse um pouco mais Ninja? Enquanto o vandalismo civil é praticamente um cafuné diante da brutalidade policial, o vandalismo da grande imprensa contra a verdade é um verdadeiro tiro nos miolos do senso crítico do país.

Especialmente no caso do Rio de Janeiro, onde o comportamento demente do nosso governador, através da polícia, e as centenas de acusações que pululam diariamente contra Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes deveriam estampar as capas dos jornais impressos e modular a voz firme dos apresentadores dos telejornais – pois até mesmo uma criança é capaz de entender o quanto esses fatos são mais prejudiciais para a cidade e sua população do que um vidro quebrado em uma agência bancaria.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 16/07/2013 por em Vitor Paiva.
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