ORNITORRINCO

CLIMÃO NO PARQUINHO


Foto: Claudia Crobatia





“-Boba, feia, gorda!”, ele me disse aos cinco anos dentro da caixa de areia do Jardim I.

Fui pra casa arrasada por não entender porque ele tinha dito aquilo, e ainda por cima ter derrubado minha caixa inteira de lápis de cera, quebrando um por um.


Lembro que cheguei a casa com a cara inchada de tanto chorar, com a maria-chiquinha totalmente embaraçada e carregando pedacinhos de lápis colorido nas mãos. Minha mãe na hora veio correndo perguntar o que tinha acontecido. “Alguém te bateu? Alguém te mordeu? A professora te maltratou?” e quando eu disse o que tinha acontecido, ela disse: “Ah, isso.”.

Fiquei incrédula aos 5 anos e quis entender porque aquela violência gratuita do meu coleguinha tinha parecido normal pra minha mãe, que me deu beijo e me abraçou me consolando pela primeira por um ato impulsivo de outra pessoa.


“Meninos são assim, filha.” Pelo menos aos cinco anos.


Acontece que 22 anos depois, eu iria ouvir a mesma versão desta frase com um vocabulário um pouco mais desenvolvido e requintes de crueldade.


-“Gorda, triste, deprimida”. Ele me disse em um domingo ensolarado na casa que ainda era minha. E eu não tive outra escolha a não ser deixar a caixa de areia da idade adulta e correr para os braços das minhas amigas.


Veja bem. Eu estava com cinco quilos a mais, e por mais que você não me conheça, ouço uns elogios de pedreiros e homens de olhos bonitos. A questão ali não era estar acima do peso, era de novo a violência gratuita de um menino de cinco anos (mais 30) para mascarar a insegurança de simplesmente dizer “eu não te amo mais.”


Por algum motivo não lógico ele me agrediu emocionalmente de uma forma arrasadora só porque não queria mais se relacionar. Achava que era mais fácil culpar um aspecto físico a me dizer que o amor tinha acabado, esgotado, descido pelo ralo do chuveiro em uma segunda-feira, ou seja lá como for.


O amor acaba, sabemos disso e precisamos viver com isso na cabeça até para conseguir preservá-lo. Eu tinha a ingênua ideia de que o amor supera tudo, maus momentos, crises, tristezas, e quer saber? O amor não supera nada, quem supera é você. O amor não é mais forte que tudo, e sim você. O amor é um reflexo do que você é. E eu não era mais ninguém.


Tinha me envolvido tanto com aquele homem que acabei perdendo a mim mesma, mas depois do baque inicial eu comecei a pensar que a melhor coisa que ele fez por mim foi ter deixado de me amar. Até que hoje aconteceu.


Esse mesmo cara apareceu de mãos dadas com a menina mais bonita do colégio, aquela que tinha o giz de cera mais caro, a família abastada e ia todo dia com um moletom diferente da Disney. Enquanto as minhas mãos estavam sempre sujas de tinta guache.


Foi um baque. Sempre é. Ninguém nunca está preparado para ver o último amor tendo um outro ao lado, mesmo quando não se quer mais. E o meu ex homem encontrou um troféu. Como se estivesse sendo retribuído pelo universo pela sua coragem em me deixar daquela forma, ele desfilou sua mulher bonita entre os meus amigos fazendo questão de dizer que estava feliz.


Diante do acontecimento fui chorar com as maria-chiquinhas desgrenhadas na casa da melhor amiga, que a essa altura já tinha preparado uma comitiva feminina e alcoólica a fim de que eu pudesse chorar até vomitar álcool e ex amor. E assim eu fiz.


Em um dado momento me peguei tendo medo de sair e encontrar o novo casal maravilha nos lugares que são meus, e comecei a panicar. Eu tinha duas escolhas: me sentir uma merda por ele ter encontrado a garota fitness 2013, ou levar a minha vida com um pouco de humor e leveza. Escolhi a segunda.


Meu ex homem é capaz de amar até a página dois, enquanto eu preencho cadernos com declarações de amor. A tal moça precisa ser feliz constantemente, pois qualquer tristeza sem hora vira “depressão” e um dia de melancoliazinha vira uma crise gigantesca.


É preciso estar linda 24h, forte 24h, alegre 24h e ser simpática, cativante, ter a pele perfeita e o cabelo também.


Eu me permito a ser um pouco menos e a querer ser amada por alguém que compreenda a vida com uma visão mais profunda, que me ame do jeito que eu sou e que eu possa amar do jeito que é.


É preciso um amor relaxado, quentinho, sexy, porém agradável de moletom em dias frios.


Eu quero o conforto de um edredom, o sexo com intimidade sem pudor algum, e uma relação com muita aceitação.


Mas não quero me apaixonar tão rápido. O que preciso agora é de força para andar pra frente sem repetir padrão e poder olhar com carinho para ele e ela, desejando uma vida leve e palavras mais doces quando o fim chegar.



Ana Capri é uma autora.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 11/07/2013 por em Ana Capri.
%d blogueiros gostam disto: