ORNITORRINCO

SÓ SEREI FELIZ DEPOIS QUE EU TIVER UM BICHO



Essa é a frase da vez. Grande e espaçosa. Parece até caô, algumas pessoas devem estar rindo exatamente agora da minha notícia. Mas negada, é sério. E há poucos dias a frase que estava na minha cabeça era outra: “por que eu chamo todos de nego e de nega?”. Fácil, é porque eu amo muito minha cor e me amarro em vestir as pessoas com ela. Isso faz com que as pessoas se sintam mais calorentas e aí eu consigo ficar mais íntimo delas. Olha eu aqui forçando a barra. Desculpem, sou carioca, preto, ariano e marrento. E se alguém aqui não estiver satisfeito com isso, vá reclamar com os astros.

A última namorada que eu tive tem parcela nessa joça. Tentarei explicar rapidamente: tudo começou com um simples HÁ. Um HÁ muito mal empregado que acabou com minha vida. Acabo de deixar uma pergunta no ar: o que é que um simples HÁ tem para acabar com o valor da minha vida assim? Pois bem, vou precisar de mais alguns minutos para fazer alguns links e algumas buscas no Google armário do passado. E já vou avisando: tá tudo uma bagunça! Tenho dificuldades em arrumar as coisas e é justamente aqui que eu me encontro agora.

Namorei por quase três anos um caranguejo fêmea, de signo. A pessoa mais sincera que já me relacionei. Pelo menos, no que diz respeito ao gostar de mim. Somente ela me deu valor. Sérin neguin. E é isso que me faz ainda ser amarradaço nela. Mas, como nem tudo é um mar de rosas, passamos momentos difíceis de seca. Ela adora gatos. Eu sou do time dos cachorros. Ela é de água e às vezes aguava demais o meu fogo. Às vezes, era eu quem incendiava o oceano dela. E foi nas águas do caranguejo que acabei afogando meu bode e provocando um tsunami na gente. Coisas de onda sabe? Uma gaveta que você abre e encontra outra fechada. Aí, você abre essa e tem outra fechada. E assim sucessivamente. Vou tentar não ser tão enrolador com vocês: estávamos numa época difícil, eu e o caranguejo pipinha, sem emoção, sem vontade, sem força e sem internet. Isolados do mundo e inseridos na nossa solidão à dois. Ela queria porque queria um animal de estimação. Um gato. Mas animal dentro de casa, bastava eu. E justamente nessa época eu estava trabalhando feito um cão e trocando algumas ideias por e-mail com o então editor desse zine animalesco Ornitorrinco, o Sir Gabriel Pardal, o animal mais supimpa do reino literário. Negos e negas, falem aí: O que é esse zine magnífico e exótico? Não há nada parecido com ele. E eu adoro essas coisas alternativas, tipo ornitorrincos. Imaginem eu escrevendo para esta revista eletrônica? Seria o bicho! Mas, voltando ao nosso assunto, a desgraça quando vem, sempre chega acompanhada. E se não bastasse meu inferno astral na realidade, transformei em inferno cibernético o meu contato via e-mail com o Gabriel logo após, com todo meu amor e vontade por ornitorrincos, literatura e principalmente pela língua portuguesa, enviar-lhe um e-mail pedindo para ser colaborador do zine abarrotado de erros gramaticais, como esse aqui ó: “Estou a duas semanas sem me comunicar com o mundo cibernético.” Com a língua portuguesa é o seguinte: amo-a, mas ela me odeia. Fácil também. Gabriel Pardal, que é virginiano, “sacou minha imperfeição”, foi o que pensei na mesma hora. Fodeu! Ele não vai me deixar entrar. Ele não vai mais me deixar ter um ornitorrinco de estimação. Ele não me respondeu nunca mais.


Eu até encontrei-o em outros eventos. Mas o medo foi maior que meus 1,83m de altura. Com que cara eu falaria com ele? Mascarado? O que eu falaria? Contaria essa epopeia? Isso pra mim é desculpa. O fato é que participamos uma vez de um encontro na mesma editora que nos pariu e depois de algumas bebidas entrando, a verdade saiu: “Coé brôw, somos irmãos, não?” Bem, não foi bem assim. Mas deixei minha máscara de lado e mostrei minha cara pedindo desculpas pela deficiência do meu cérebro. Pelo leite derramado. Pela fome no nordeste. Pelo gol perdido do vasco ontem. Aproveitei para pedir desculpas por tudo. E ele, amável do jeito que só, me amansou de um jeito que só um baiano conseguiria fazer.


No fim, fiquei por isso mesmo. Hoje, estou sem o caranguejo pipinha e ela tem uma gata, a Lou. Coisa mais linda. Depois do caranguejo, passei a aceitar gatos. O ornitorrinco tá um bichano grande e lindo. Mas eu ainda preciso me entender com alguns bichos: Pardal, será que o burro ainda pode colaborar com um texto para o crescimento do Ornitorrinco? Acho que só serei feliz depois qu’eu tiver um bicho. E eu estou prestes a ter um.



Braulio Coelho é poeta, músico e educador.
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Publicado em 10/07/2013 por em Braulio Coelho.
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