ORNITORRINCO

DESCULPE O TRANSTORNO: ESTAMOS DEMONSTRANDO NOSSO EGOÍSMO



“O mundo é dos espertos, minha tia!” ao som do Rio de Janeiro continua lindo em versão Bossa Nova, essa foi uma das primeiras lembranças de quando vim visitar o Rio bem pequeno.

Até meus 17 anos, antes de ir morar em NYC, eu vivia em Petrópolis, uma cidade de 300 mil habitantes que está há 50 minutos do Rio e é opressoramente fria e pacatamente chata.


Essa cena ficou na minha memória numa das primeiras vezes que vim ao Rio: minha mãe esperando uma vaga, ela sai do carro pra pedir uma informação ao guarda, vem um cara e entra rápido na frente dela. Quando ela foi argumentar, o malandrão teve a cara dura de dizer: “O mundo é dos espertos, minha tia!”

O carioca tem fama de metido a esperto. E assim somos na nossa maioria mesmo. Poderia citar milhares de exemplos, mas vou me limitar a exemplos que interferem no funcionamento de grande parte dessa nossa comunidade sem comunhão.

O primo de um amigo é a caricatura do carioca esperto. Foi pra Floripa e ria todos os dias de como a galera era “agarrada” no trânsito: “Maior fila pra entrar na ponte e eu entro lá na frente.” Essa mentalidade eu vejo todos os dias no trânsito, seja de bicicleta ou de carro.

Todo dia: o cara só quer ir com carro DELE o máximo pra frente o possível e pronto, bloqueou o cruzamento. O egoísta do outro lado buzina como se o mundo girasse em torno dele e todos nós achássemos agradabilíssimo alguém atacando a mão na merda da buzina. E pra piorar, o trânsito tem a síndrome do pisca-alerta. O cara acha que por ligar o pisca-alerta significa que pode fazer qualquer coisa no trânsito, tipo está de altas, desde parar em qualquer lugar e bloquear uma pista inteira por 5 minutos para fazer qualquer coisa, até as manobras mais esdrúxulas que o motorista que vem atrás tem que adivinhar. Sem falar que o trânsito está cada vez mais insuportável, e reparo que 90% dos carros tem só um egoísta esperto dentro.

Minha impressão é que a malandragem egoísta reina no Rio, mas tenho muitos amigos baianos que me dizem que é tudo muito parecido por lá, seja no trânsito, seja na mentalidade.

Por outras bandas, o Zé, irmão de um amigo de Petrópolis, conheceu uma dinamarquesa. Eles se apaixonaram. O sexo era frio, mas ela não se atrasava. O beijo era seco, mas ela tinha noção de sociedade. Deve ser por isso que ele se mudou pro verão de 3 dias e – 20 graus de lá.


Um dia, Zé, como bom exemplo de queimador de filme de brasileiro, chegou no seu primeiro dia de trabalho atrasado. Para sua enorme surpresa de atrasado, em um estacionamento gigante da empresa onde trabalha, quase dez minutos de caminhada das vagas mais distantes, havia uma vaga bem ao lado do seu escritório.


No dia seguinte, de novo, atrasado. Pra sua gigante e enorme surpresa, uma vaga ainda mais perto do escritório.


Para dar uma variada na vagabundagem ele decidiu se organizar e chegar bem cedo no dia seguinte e entendeu o que estava acontecendo e o que é ter noção de sociedade. As pessoas que chegavam mais cedo estacionavam nas vagas mais distantes possíveis. Por que? Para quem chegar atrasado ter menos tempo para caminhar o estacionamento todo e se atrasar ainda mais até chegar no escritório. Não é lei, não é regra, não é obrigação. É simplesmente um exemplo de noção de comunidade, de interdependência, é uma forma de pensar, uma mentalidade que consequentemente gera uma forma de se comportar.


Exaltar os exemplos gringos não se trata de determinismo geográfico ou daquele velho papo idiota de superioridade européia. Mas a questão é: muitas coisas na Dinamarca funcionam, as escolas educam, os hospitais atendem, enfim, o sistema funciona. E o porquê é em grande parte pela mentalidade, a noção do que é viver em comunidade.


Uma definição de comunidade é: Comunhão, sociedade, nacionalidade, agremiação de indivíduos que têm a mesma crença ou a mesma norma de vida. Sim, cariocas, brasileiros, nós temos a mesma norma de vida: o egoísmo.


As manifestações que aconteceram no nosso país recentemente me deram uma impressão positiva, evidentemente. Nós levantamos a bunda do sofá e fizemos alguma coisa. Ironicamente muita gente saiu do Facebook, só para postar fotos cult no próprio facebook dizendo que estava lá. Ironia a parte e em parte, teve sim muitos lados positivos, entre eles ilustrar a falta de coesão desse povo que faz mais do que a obrigação.


Sim, tinha muita gente com propósito claro, muita gente achando que era micareta, muito fanfarrão, muito aproveitador, muito vendedor, muito alienado, muito politizado, muito de muita coisa, e um traço muito marcante, muito cada um por si, muito bobo pensando só no seu próprio rabo em uma manifestação coletivamente egoísta.


O que era pra ir contra os governantes, que poxa gente, coitados, só querem poder roubar e avacalhar o país em paz, e fecham ruas, desligam câmeras, apagam luzes só pra poderem usar um sprayzinho de pimenta (no dos outros é refresco), usar umas bombinhas de gás lacrimogênio e dar uns tirinhos de borracha… Pois é, acaba sendo um tiro no nosso pé, vamos combater o egoísmo demonstrando como podemos ser egoístas.


Parece que ninguém pensa no funcionamento mais abrangente e conectado das coisas. Vamos pra rua e foda-se. Foda-se que ela mora em Deodoro e vai se fuder pra ir pra casa porque a estação está fechada; foda-se que ele; que é tão alienado quanto você que está na passeata, optou por não participar mas levou tiro de borracha na cara mesmo assim; foda-se que aqui é uma área residencial da Tijuca e tem famílias com crianças porque eu vim em PAZ, tá ok, contra o Paes, tá ok, e por isso vale tirar a paz de quem vive aqui, tá ok? Foda-se, o protesto é maior, a minha causa é nobre e justifica tudo.


Não tiro absolutamente o valor do vem pra rua e foda-se. Num primeiríssimo momento valeu. Agora é hora de organizar mais esse movimento e não continuar no cada um por si egoísta fugindo de bala de borracha.


Cada um por si tem seu valor logicamente. Ter atitude egoístas não te torna um egoísta total. Egoísmo tem naturalmente uma ranso negativo, mas não é necessariamente ruim. Steve Jobs foi um belo de um egoísta babaquinha quando teve uma filha com a namorada de longa data Chrisann Brennan, aos 23 anos, ele não apenas negou a paternidade como notoriamente terminou com Chrisann. Tudo em prol de si mesmo e do seu trabalho. Mas sem o egoísmo dele eu poderia não estar escrevendo esse texto agora aqui no meu iPhone. No caso do avião despressurizar, você tem que ser egoísta e pensar sim primeiro em você, dane-se que sua filha de dois anos está apavorada e sem ar. Egoísmo salva vidas. Ser egoísta e pensar só em si, na própria mudança, o velho cliché de a mudança começa de dentro, é verdadeiro e seria ótimo aqui nesse momento, mas o egoísmo aqui é o tradicional mesmo.


Quando numa situação de convívio ou em um movimento buscando mudanças que acontece com outros seres de uma mesma sociedade, o carioca, o brasileiro, é quase sempre inconscientemente egoísta.


Pode parecer que eu me acho o pica de ouro e estou fora desse povo aí, mas não. Sou egoísta muitas vezes, lógico, não sou exemplar. Falsifico carteira de estudante, ainda ando sozinho de carro, já liguei pisca-alerta e bloqueei pista, já parei em local proibido, já furei fila. Procuro ter mais consciência, sou um carro a menos com minha bike quase sempre e procuro não fazer mais estas coisas.

São atitudes pequenas que parecem inofensivas e que tenho certeza que muita gente lendo esse texto já fez ou faz, mas elas refletem crenças e pensamentos que tem grande participação do nosso fracasso como sociedade interdependente.

O egoísmo do brasileiro fortalece a nossa incapacidade de nos percebermos como interdependentes, essa falta de entendimento do que é coletividade. A gente burla as leis e pensa muito em salvar o próprio rabo porque não confia na justiça, não confia num estado que te cobra pra cacete, mas não te dá quase nada. Aqui é cada um por si, aqui o mundo é dos espertos e acaba sendo todos contra todos, mesmo quando era pra ser todos juntos. Isso acaba com a confiança no respeito às leis, com a fé nas instituições públicas, em nós mesmo como sociedade interconectada.

E afinal, Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?

E esse é o ponto, a mudança começa em cada um de nós e as coisas mudam e não só o contrário. Cobram-se dos políticos porque é muito fácil pegar alguém pra Judas, mas tá faltando olhar um pouco pro próprio rabo pensando no rabo dos outros, mudar dentro pra mudar fora. Se é pra ser egoísta, vamos ser egoístas direito.


Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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2 comentários em “DESCULPE O TRANSTORNO: ESTAMOS DEMONSTRANDO NOSSO EGOÍSMO

  1. Mari
    10/07/2013

    vc é um iluminado, meu caro.

  2. Franco Fanti
    11/07/2013

    São seus olhos, minha cara.

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Publicado em 09/07/2013 por em Franco Fanti.
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