ORNITORRINCO

O ESTADO DE EMERGÊNCIA


Ilustração: Emma Rios



“Amor não é aquilo que te deixa feliz, calmo e tranquilo. O nome disso é Rivotril”, já dizia o poeta. E, de fato, não sei como se pode fazer essa confusão tão dramática de sentimentos. Apesar de que se pode fazer uma diferenciação entre amor e paixão, e questionar qualquer padrão para algo tão individualizado quanto o que sentimos, é certo que nunca vi na minha vida alguém verdadeiramente apaixonado e tranquilo ao mesmo tempo.

Na verdade, tenho observado que as pessoas costumam associar o amor à felicidade quase que automaticamente, e às vezes de forma tão simplista que me dá calafrios. Culpo em parte o câncer das comédias românticas genéricas, vomitadas em nossas salas de cinema pela desgraça que se tornou Hollywood, mas sem tirar o papel das nossas ilusões de casamento perfeito, filhos, sogra, cachorro e papagaio, alimentadas por nossas famílias. Desde criança somos ensinados que eventualmente iremos nos casar e, com isso, atingiremos a tão almejada felicidade, em um estilo meio “zerar a vida”. O resultado é que todas as nossas decisões e escolhas acabam sendo determinadas por esse objetivo final, fazendo-nos abrir mão de tantas oportunidades e experiências..

Afinal, o amor é vermelho, quente, muitas vezes doloroso. É aquilo que nos deixa tão mal quando aparece, e tão pior quando some. É o que nos tira da morosidade da vida e nos coloca em um estado de emergência, no qual nunca temos certeza de onde estamos pisando. A paixão nos deixa irracionais, loucos, sem pensar muito nas consequências. Meus melhores erros eu cometi porque estava apaixonado. Coisas que, olhando para trás, não entendo como consegui fazer, porque simplesmente não estava pensando.


Mas, no final de tudo, temos sempre a certeza que o amor vale a pena. Mesmo que as consequências sejam problemáticas, mesmo que o relacionamento seja conturbado, mesmo que sintamos tanta dor, não existe nada melhor nesse mundo do que se apaixonar. Porque o amor nos lembra que estamos vivos.



Daniel Duque é escritor, músico e economista.

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2 comentários em “O ESTADO DE EMERGÊNCIA

  1. A Uerba
    08/07/2013

    Belo texto. E digo mais, não fosse suficiente reforçar essa tal felicidade-bônus, ainda tem o “pra sempre”. Amor e dor, andam juntos, e isso não é ruim. Vai depender sempre de como lidamos com cada um deles, ou ao mesmo tempo, sentindo e refazendo-se. Massa, Daniel.

  2. Bianca Marzulo
    10/07/2013

    Eu já li sobre uma diferenciacao de amor e paixao baseada na diferenca entre um ato pensado e um ato impensado. A paixao seria a constante impulsividade impensada, e o amor já seria pensado, maduro, racional… Eu gosto desse dualismo, vejo sentido! Agora eu ousaria mesclar amor e paixao em vez de separá-los, porque nao poderia haver um amor com paixao? De qualquer forma, a tranquilidade… é suspeita nesses sentimentos! Boa temática e associacoes!

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Publicado em 08/07/2013 por em Daniel Duque.
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