ORNITORRINCO

SEASON FINALE

Foto: Ailera Stone

Eu escrevo. É o que eu faço para viver, o que eu amo fazer e o que por um bom caminho da vida, me dá algum dinheiro para pagar o aluguel no fim do mês. Escrevo cartas de amor, contos, poemas, frases, orações, livros e programas de televisão.

Neste momento estou relendo os 13 capítulos de uma série de tv que criei e escrevi com duas grandes amigas e um talentoso roteirista (que depois de 6 meses de contato intenso com nós três deve ter ganhado uns pontos a mais na tabela de Karma).


É uma série sobre quatro amigas muito diferentes que por um acaso do destino acabam morando no mesmo apartamento. Clara, a protagonista desta história, nasceu no meio dos anos 80, e como eu e você, achava que ia ser grande na vida. Mas aos 20 e muitos anos ela ainda não é atriz e trabalha temporariamente há seis anos em uma livraria.

A angustia dela é a minha, a de quase todos os meus amigos, e a de Lena Dunhan, escritora da série “Girls”. Mas Lena deu mais sorte do que muitos de nós. Escreve seu próprio show depois de ter lançado um filme brilhante na faculdade e ao contrário de sua maravilhosa protagonista Hannah, já conseguiu ser “a voz de sua geração”. Pelo menos parte dela.

Série ‘Girls’, da HBO. 

Feliciano não me representa, mas Lena Dunhan sim. No início dos anos 00 tivemos Sex And The City, uma série onde quatro mulheres de 30 e poucos viviam em uma NY maravilhosa cheia de sapatos bonitos, homens interessantes e histórias de vida. Hannah, Jessa, Shoshana e Marnie vivem em uma cidade um pouco menos glamorosa, ainda não tem o emprego dos sonhos, fazem sexo esquisito, conhecem homens difíceis e tem questões cruas e reais. Tudo o que Lena Dunhan escreve em Girls e o que a sua personagem vive, é muito mais lugar comum para mim do que desencontros com Mr. Big no alto de Manolos Blahniks. E foi pelo o que eu senti ao ver Girls pela primeira vez que decidi escrever a minha série.

Sempre que alguém me pergunta sobre os episódios, eu digo: “se você vai achar bom eu não sei, mas pode ter certeza de que é verdadeiro”. E é. São acontecimentos diários, diálogos que ouvi na mesa do bar, que vivi com os meus amigos, meus amores, minha família. E eu não saberia fazer diferente.

O amor é um tema recorrente dos meus contos. Já tive namorados que se recusavam a ler meus livros ou meu blog porque se sentiam acuados com o que era colocado lá. Até o que não era real se tornava verdade na cabeça das pessoas. Já recebi e-mails de leitores para saber como eu estava, preocupados com alguma coisa que tinham lido, e não os culpo, transformo sentimento em palavra desde que aprendi a manejar um lápis, portanto muita gente acha que sou mais atormentada do que eu realmente sou.

Mas a personagem esquisita da série já não cabe mais no roteiro da minha vida real. Minha melhor amiga quando viu “Girls” pela primeira vez brincou dizendo que Lena Dunhan tinha lido o meu diário, mas pelo contrário, ela só deu voz a um monte de outras recém mulheres desta nossa geração. Só que cada vez quero me desprender mais do personagem intenso e complicado e me aproximar daquela que não é a protagonista, mas talvez seja a bem resolvida.

Clara, a minha personagem, acabou de se separar. Com a Clara acontece no primeiro episódio, e na minha vida foi no episódio cinco da terceira temporada.

Recém solteira e com um pedaço de coração em cada mão eu fui obrigada a recomeçar minha vida. Eu tinha 27 anos e nenhum lugar para morar. Pedi asilo político na casa da Catharina, autora comigo, e tudo o que eu vivia lá invariavelmente caia na boca de Clara.

“Não precisa nem inventar, só transcreve”, e narrando a dor que ela sentiu quando saiu do apartamento que não era mais dela é que fui curando a minha. Não quero fazer spoiler nenhum, mas posso dizer que assim como eu e você, ela não foi feliz no dia seguinte, nem no mês seguinte, mas continuava pensando que seria diferente no mês que viria depois.

Como eu e você, ela trabalhou mais tempo do que gostaria no emprego temporário, não virou uma pessoa mais interessante e nem bem sucedida.

Mas eu e ela brigamos diariamente. Acho que muitas de suas escolhas foram erradas, que ela deveria gostar mais de si mesma, rir mais de si mesma e confiar que tudo vai dar certo, mas ela ainda não consegue pensar racionalmente em nada. Aliás, Clara é tudo, menos racional.

Ao mesmo tempo em que quero me distanciar cada vez mais dela e da minha sombra de Hannah, entendo todos os seus percalços. Os primeiros encontros são estranhos, o sexo de muito tempo depois não encaixa, e dia sim, dia não, ela se sente melancólica por nada.

Já não estou mais neste lugar, ou pelo menos não quero estar, mas me identifico com o que ela sente, assim como aconteceu quando assisti Girls pela primeira vez. Não quero mais ser a personagem intensa e complexa da série, mas não consigo deixar de sentir amor por toda verdade que ela coloca pra fora. Por toda verdade que eu já coloquei.

Há alguns meses desisti de publicar o meu terceiro livro quando ele já estava indo para a gráfica. Era um livro dedicado aos meus grandes homens, uma declaração de amor a tudo o que eles já me fizeram viver, o que foi bom e o que foi ruim.

Claro que muitos deles misturados em um só, mas eram eles. Hoje conversando com uma amiga e autora aqui do Ornitorrinco, a Maria Rezende, decidi retomar o livro. Li todas as páginas e mesmo que eu não me identificasse mais com muitos daqueles sentimentos, senti carinho por eles. Minha resposta quando a Maria perguntou porque eu tinha desistido de lançar, foi que aquela história já não terminava mais daquela maneira. Pensando nessa resposta depois, cheguei à conclusão que exatamente por isso eu devia publicar meu livro. Para deixar que o que o tinha construído, pudesse morrer.

Voltando para a personagem do romance e a da série, quis brigar com elas por terem amado sem um snorkel, ter tido menos fé nos trabalhos, nos encontros, na intuição. E por isso mesmo é que decidi coloca-las no mundo. Para me questionar também.

Quero sim ser uma protagonista forte, madura, adulta, que paga suas contas com o que ama fazer e se sente mais feliz todas as manhãs. Mas as que eu escrevi são intensas, sentimentais, honestas, exageradas, e porque não, reais. E assim como elas, eu não sei ser menos do que isso.

Um dia ainda chego na personagem cool e bem sucedida da série, mas por enquanto vivo os episódios com gratidão e um pouco mais de sabedoria do que tive na primeira temporada.

Paula Gicovate é roteirista e escritora.
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Informação

Publicado em 05/07/2013 por em Paula Gicovate.
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