ORNITORRINCO

SENSAÇÃO CÓSMICA DO SER


Ilustração: Carnovsky


No noticiário da minha cidade procrastinada, uma garota foi decapitada por uma adolescente viciada em cocaína e perdida no mundo. Aí imagino o poema “Os escorpiões do sol” de Roberto Piva e também me pergunto: “Por onde é preciso começar?” Talvez imaginando aquele guarda crápula que atirou em Luizinho, morto no Edifício Copan. Então acendo mais um cigarro e pairo diante dessa rua poluída em meio aos tantos ativistas revolucionários de sofá e aos do coração. É que seria bem legal se todo o amor que você merece fosse revolucionário.



A realidade das coisas segue aí, parada como um copo americano sobre um prato de plástico. Os plásticos somos nós, os que saem pela tangente sem querer demasiadamente aquela remissão que (só nos salva) quando encostamos a cabeça no travesseiro. Eu ainda preciso saber por onde começar?

Em tempos de medo versus medo da polícia truculentíssima, eu ainda choro as minhas pitangas pela existência de determinados seres humanos illuminati e da tão famigerada “cura-gay”. A sensação cósmica do ser se transformou também numa garota decapitada. Quem é o culpado? Seria deselegante afirmar que “você faz tudo errado?”

Em todos os caminhos mais duros, você deveria ser uma bandeira erguida, costurada no espaldar dos olhos, caminhante, orgulhosa de suas próprias questões que reivindicam o outro ao invés do eu. Não dói pensar assim. O que dói é essa loucura desesperadora num corredor escuro de um hospital público lotado. É que muitos se contentam com o iPhone que só domestica o medo que eu guardo no peito. Ou simplesmente acham que tudo é lindo, talvez como o tom primaveril das blogueiras de moda.

Boto muita fé nessa paixão que os loucos insistem em reverenciar. Boto fé no lance doentio da falta de razão, da noite que se transforma numa gata iradíssima, e num boy falando manso ao pescoço.

O meu divã é cruzar o tráfego, as Ilhas Maurício imaginárias, o calor insuportável e pousar as asas numa zona de conforto onde as palavras (quiçá, ao lixo dos ventos) se tornam uivantes antes que a quarta-feira me engula – aí eu não seria nada.


Antonio LaCarne é escritor.

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Publicado em 04/07/2013 por em Antonio LaCarne.
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