ORNITORRINCO

O RECALQUE DO POVO NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL



Hoje o sol na Bahia brilha mais que ontem. É comemorado os 190 anos da Independência do Brasil na Bahia, uma data que fora e até dentro dos limites baianos é muito pouco compreendida em sua magnitude, uma data que celebra uma luta de independência iniciada muito antes do farsesco grito às margens do Ipiranga no 7 de setembro.


Foram mais de 15 meses de luta, com batalhas violentas e milhares de mortos. Nessas batalhas se juntaram também tropas enviadas de outras partes do nordeste como Sergipe, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Batalhas onde estiveram envolvidos todos os estratos da população baiana, uma luta onde definitivamente o povo esteve presente e foi decisivo.

Uma luta que agora está muito distante, mas aqueles que só lutam pelo seu futuro e se esquecem de honrar e resgatar a memória dos que combateram no passado enfraquecem suas possibilidades de vitória ao não reconhecer o sacrifício e esforços de outros tantos combatentes, especialmente, embora este não seja o caso, daqueles que não lograram a glória.

Nem um povo, é verdade, é completamente independente de outros povos. Isso é impossível no atual momento histórico. A compreensão disso vai ficando evidente e isto é bom porque temos que assumir, mais dia menos dia, que o planeta todo é nosso lar.

Particularmente nunca nutri nenhum nacionalismo senão aquele de quem acredita que as condições do lugar onde se vive e/ou se escolhe viver, seja aqui ou onde quer que seja, podem melhorar especialmente do ponto de vista da justiça e da concórdia, como canta o hino ao Senhor do Bonfim, friso apenas que uma concórdia honesta e justa e não conciliações e acordos malfazejos, como é o caso da lei de anista que vai deixando impune os crimes de tortura praticados durante o regime militar.

Nenhum momento do presente pode reclamar ser histórico se não for percebido em sua relação com a história prévia. Portanto se a história é hoje posta outra vez em evidência é necessário também rever a história que vem sendo contada até aqui, seja a história dos acontecimentos recentes, seja a história cuja a memória não está fresca.

A história oficial do Brasil vem sendo narrada como um inventário de formalidades banais ou negociatas tratadas como heroísmo, assim como de heroísmos vigorosos que são tratados nas cercanias do desbotamento quando não cunhados pelo selo da vilania ou do esquecimento. Isso não se faz à toa, mas sim com o intuito claro de arrefecer o ânimo de lutas mais pungentes.

O mito do brasileiro cordato serve muito bem a ideia de um país sem conflitos, de um país homogêneo, onde toda a realidade é de um brilho sem igual, mas não serve a um país que tem um vasto caminho pela frente no que toca a fazer valer em grau razoavelmente satisfatório e amplo, elementares direitos que gerem possibilidades de desenvolvimento aos seus habitantes.

Não faz diferença reclamar por mais educação se for apenas para manter as mesmas estruturas e a memória que esta história conta.

Não é por orgulho de ser baiano (não posso me orgulhar de uma condição que me foi dada pela natureza das circunstâncias de minha vida) que faço questão de relembrar o 2 de julho. É porque entendo que a história no Brasil vem sendo muito mal contada e o fato do 2 de julho não ser um feriado nacional e melhor estudado é um sinal desse interesseiro recalque histórico que subtrai o povo como agente emancipador.

Mesmo na Bahia e vergonhosamente, para que se tenha uma ideia, até o aeroporto internacional de Salvador batizado antes de 2 de julho, passou a se chamar de Deputado Luís Eduardo Magalhães para satisfazer um necessidade de reverência particular.

Há muitas lutas populares em várias partes do Brasil que também precisam ser melhor reconhecidas e acredito que isso deve ser disseminado por todos aqueles que entendem a força da história na luta política. Assim destaco que no que concerne a independência do solo brasileiro, nenhuma luta foi mais importante e representativa que a que culminou no 2 de julho baiano.



Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 02/07/2013 por em Júlio Reis.
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