ORNITORRINCO

SANGUE


Ilustração: Jeff Koons


Estou em Portugal há 18 dias, parece pouco pois não fiz nenhum passeio clássico turístico, não me fale em castelos e afins. Mas parece muito quando consigo reconhecer as ruas e voltar para casa. 


Assim que chegamos, começamos a receber garrafas de náufragos brasileiros pedindo socorro. Grande hecatombe confusa, ainda mais em gêmeos, tudo tão dual. De longe, ficamos perplexos, mudos, mas já conscientes que tanta merda uma hora aduba, esperávamos tal movimento, já vivemos tal movimento, mas parece que alguns dorminhocos acordaram. Fizemos alguns brindes delirando, pois sobrevivemos, e alguns outros desejando clareza e constância para tal momento brasileiro.

Meu texto não é sobre nada disso, nem sobre minha estadia em Portugal, nem sobre as reinvidicações do povo brasileiro, perdão. Comecei assim, mas vou mudar. Estou dando a seta (pra esquerda, risos). 


No último dia de Lisboa eu estava toda errada e tinha esquecido que mercúrio começara a retrogradar. Bebi vinho, como todos os dias, na hora do almoço, mas incrivelmente fiquei alta. E lá fomos nós alugar carros para podermos viajar. E assim, retrógrada, esqueci duas sacolas na loja e meu passaporte e minha carteira de motorista. Ligávamos e nada, já tinha fechado. Como sou carioca, pensei “era uma vez duas sacolas cheias de presentes…”. Fomos fazer nosso último show na cidade. Não existe ar condicionado aqui, nem nos clubes, nem nos inferninhos, nada. Mas sim, existe verão. É meio incompreensível. Que nem algumas casas em Petrópolis que não têm aquecedor e você passa mais frio dentro de uma casa do que do lado de fora, sei lá. Eles acham que não compensam. E aí fizemos um showzão, casa cheia, gente entrando, gente entrando, as janelas foram fechadas por causa dos vizinhos. E aí, amigos, BAFO, INFERNO, CALOR. E eu lá, amarradona cantando, dando tudo, levando para outro lugar, cantando pela milésima vez uma música, mas redescobrindo, pervertendo, confirmando, olhando para os meninos, olhando para a plateia que queria bis, claro. Sim, mais duas músicas. Uh, Yurrul! Mas eles querem mais, sempre. Estou sentindo uma coisa no meu corpo, minha barriga está grande, tenho comido muito, ok, mas minha barriga está esquisita. Mas será que… não, não era para ser hoje. Mas a sensação de estar num país sem meu passaporte e documento é aterrorizante. Passei a tarde toda infernizando nessa sensação, me culpando por ter sido tão desligada, garota, enfim. Mas será? Fui sentindo uma coisa vazar de mim, meio mágico, meio místico, meio bizarro. Involuntário. Assim, em cena, enquanto cantava, percebi que estava ficando menstruada, e a certeza da descida acarreta cólica monstruosa. Um urso vivo, que antes hibernava, agora acorda dentro da minha barriga, das minhas costas e começa a pular, dançar. Eu continuo cantando. Lucas me olha e diz para a gente cantar sei lá qual, eu não consigo mais ouvir. Todos nós estamos ensopados de suor. O nome do lugar é ‘Pensão Amor’. Risos.

Canto a última e percebo que posso cair, posso desmaiar, isso está ficando sério. Posso até mesmo manchar o maiô que uso em cima de uma meia calça. Aplausos. E quando eles pedem mais, eu preciso dizer, poderia sair correndo, super diva gatinha mistério, mas não consigo, astrologia, não consigo. Falo ao microfone: “Homens, por favor, não tenham nojo e mulheres, sei que vão me entender: adoraria cantar mais, mas estou ficando menstruada nesse exato momento e estou com muita cólica, agradeço a todos por terem vindo mas tenho que encerrar por aqui e me jogar no chão do camarim de bruços e tomar meu remédio.” Aí já não lembro, a visão ficou turva, sei que gritaram muito. Mas saí do palco, me joguei no chão, tomei Ponstan, e até chorei, levei ao além, exaustão máxima. Depois de uma hora, já medicada e refrescada, desci, e muitas, muitas mulheres, claro, vieram falar comigo. Uma portuguesa, Matilde, disse que foi o ato mais feminista que ela já tinha visto, eu sorri e pensei que tinha sido um ato humano, mas deixei que falasse, que é o que faço depois de um show. Falam muito, eu só escuto, geralmente. O que já é muito, mas não gosto tanto de replicar, perdão, não absorvo rápido. Pois, andando pelo local, sentia que me olhavam forte, não mais porque sou alta e sempre vão me olhar mesmo, mas porque sabiam algum segredo meu, uma besteira, uma coisa comum (filho de deeeeus, essa canoa furaaaada), mas olhavam admirando a coragem da exposição. Eu até poderia sair do palco, divona, sob os aplausos de Lisboa, aos gritos de MAIS! MAIS! MAIS! mas queria que entendessem que eu não podia mais, não era jogo de cena, era sangue escorrendo entre minhas pernas. 

Achei que não ia falar sobre Portugal, acabei falando – de alguma maneira -, e também pensei que não fosse citar o povo brasileiro, mas acaba que é mais ou menos isso: o povo tá menstruando e não quer disfarçar, quer avisar, que gritar, quer pedir para parar. 

Em tempo, meu passaporte estava com a Paula, fotógrafa e cinegrafista da turnê, a moça da loja devolveu meu passaporte e o documento dentro do passaporte dela, e ela só percebeu no dia seguinte. Ufa. E minhas duas sacolas ainda estavam na loja. Ufa 2. São Longuinho, eu te amo, mas dessa vez, foram os humanos mesmo.


Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.
Anúncios

3 comentários em “SANGUE

  1. Wellisson
    28/06/2013

    Como não se apaixonar por escritos tão crus e verdadeiros?
    Palmas e palmas para a Diva Letícia.

  2. Aline Miranda
    29/06/2013

    la vida es roja.
    y que bueno que estás en esta vida con nosotrxs.
    <3

  3. Franco Fanti
    11/07/2013

    Como vc mesma diria: adoray!
    E como eu mesmo diria: very maneer!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 28/06/2013 por em Letícia Novaes.
%d blogueiros gostam disto: