ORNITORRINCO

O POVO QUE NÃO FAZ MAIS DO QUE A OBRIGAÇÃO



Meu sobrinho me pergunta sobre o livro do Ornitorrinco: – Titi, trouxe teu livro pra eu ver? Achei muito maneiro aquele desenho daquele bicho (ele não sabe como é um ornitorrinco, ok?) na capa. Ele achou um sucesso. Simples: porque tem um desenho maneiro na capa. Depois ele fez o adendo que a vovó (minha mãe) falou pra ele que meu livro deveria ser uma merda, porque com esse nome “Ornitorrinco”, não poderia ser coisa boa. Achei o máximo. Não ele ter me contado que ela fez esse comentário, mas sim ter lançado o livro e sim ele ter adorado. Por outro lado também ela ter feito esse comentário, porque através dele eu pude perceber como a gente pode usar a auto-crítica como defesa, como a gente às vezes faz muito, mas tá condicionado a pensar que não faz mais do que a obrigação e como a gente acha que o conceito de sucesso é regulamentado pela ABNT.


A auto crítica é muitas vezes uma forma de se blindar desse tipo de ataque da mamãe. É nossa forma de não saber lidar bem com um comentário negativo sobre quem somos ou sobre o que fazemos. Antes mesmo de você falar que meu livro ficou uma bosta eu já acho que ficou uma bosta e inclusive enfatizo as razões pela qual ficou uma bosta. Por que a gente se foca mais no negativo? A gente se enfraquece.

Por muito tempo usei a auto-crítica depreciativa. Também já vi muita gente usando a mesma tática, uns por falsa modéstia, outros pela brasilidade no sangue, outros talvez pela mesma razão que eu usava.


Esse tipo de comentário que minha mãe faz já não me afeta, mas imagine você dos 5 aos 15 anos ouvir coisas parecidas do seu pai. E em toda nota 10 tirada: Você só estuda, não fez mais do que obrigação. Essa frase, aparentemente inofensiva pra alguns, é um cliché nocivo, uma péssima escolha de palavras com consequências bem mais nefastas do que se pensa. Você acha que fez algo especial e vem a opinião alheia e te diz que não fez mais que sua obrigação, que não foi esse sucesso em que você acreditava. Caso você não esteja com sua auto-estima bem trabalhada, existe grande chance de você acreditar que de fato não fez nada além de sua obrigação. Não precisa ser só a família a dizer. Essa mesma frase poderia vir da sua namorada pra você, de um professor ou de nós mesmos falando do nosso país.


Por um primeiro prisma, vejo alguns relacionamentos. Você muda um comportamento, faz um agrado, ou atende a um pedido do parceiro e escuta: Mas também, só porque eu pedi, não fez mais do que a obrigação. O que? Então o fato das pessoas estarem se esforçando, terem escutado, e talvez até estarem abrindo mão conscientemente de uma posição própria pra tentar harmonizar a relação não é mais do que a obrigação?



Uma segunda perspectiva é como professor. Percebo que a tendência geral é muito mais no que não sabemos do que no que sabemos. Alguns alunos insistem em me pedir que eu corrija e aponte erros na hora, o que é um erro. Fazer este tipo de correção imediata, a técnica chamada “correction on the spot”, consiste em corrigir o aluno assim que ele comete o erro, tipo criança bota a mão no bolo toma um tapão na hora. Eis mais um exemplo de foco no erro. Não é a toa que nos níveis básicos, quando entrevisto alunos (que já estudaram inglês em alguns cursos) sempre escuto: Não sei falar nada. Faço 10 perguntas básicas e a pessoa entende e responde todas. No Brasil tem essa epidemia de não fez mais do que a obrigação, uma inflamação no cérebro que te faz acreditar que tudo é sempre muito pouco, que ninguém reforça a qualidade, o elogio, o acerto, e que bota o foco quase todo no aspecto negativo, no erro, na falha.

Por um terceiro aspecto, vem a nossa visão do nosso país. Temos muitos governantes de merda, e ainda tem muita coisa absurda e errada por aqui, ok, mas não tem uma coisita dando certo no Brasil? Porque nunca vi uma pessoa postando em uma rede social que os indicadores econômicos, de distribuição de renda, índices de analfabetismo, estão melhores do que no passado. Compartilhar vitórias não dá muito número de curtidas? Ou talvez o pensamento de que seja isso não é mais do que a obrigação?


Quando morei em Nova York pude perceber essa questão da auto-estima e do foco no sucesso levado a um outro extremo. Muitos americanos são erroneamente considerados arrogantes porque acham (e dizem) que são bons em alguma coisa. Quando são mesmo. O perigo é que existe uma linha muito tênue entre exaltar algo de bom em você mesmo e a arrogância de se achar muito foda cago na sua cabeça.


Uma coisa sensacional, espetacular e linda de morar fora é que você tem a oportunidade de ver seu país de fora, com um outro olhar, e logicamente o país onde você é de fato um estrangeiro também. Nos EUA pude ver como nós brasileiros temos baixa auto-estima como nação, como a gente valoriza muito mais nossos erros e falhas. Essa ode ao erro vai desde a nossa educação e forma de ensinar, até os jornais, rodas de bar, redes socais.


Ainda nos EUA, também pude ver que essa máquina toda de All American Pride, tem como consequência desastrosa muitas vezes uma auto-estima fake e elevada à décima potência, baseada em uma lavagem cerebral da escola ou dos noticiários que os faz acreditar que são o cheddar do mundo, aí sim é o famoso estereótipo do All American Arrogance. Percebi que esse modelo de auto-punhetagem sim reforça mais o lado positivo das coisas, o êxito, mas traz uma consequência nociva: a uniformização da definição de sucesso.


Não se engane, dei o exemplo dos EUA, mas o sucesso também usa uniforme aqui. Todo esse papo da opinião de outrem, de não fez mais que a obrigação, tem influência na questão sucesso: na relação, no trabalho, na escola, na vida. Inventaram notas, medidas, fama, bens, status, Ferraris e contas bancárias, e criaram relações dessas coisas com sucesso, como se fosse mensurável, definido e rígido. Ser bem sucedido, ser um sucesso em algo, significa na esmagadora maioria das vezes atingir as metas que alguém inventou pra você pessoalmente, e pra você brasileiro. O irônico é que já vi diversas vezes um brasileiro puto com um gringo falando que isso ou aquilo no Brasil não presta. Se não é brasileiro não pode? E você esperava o que? Se nós mesmos estamos sempre com o foco no que deu errado?


Não se trata de fazer vista grossa e não falar dos absurdos que acontecem aqui, mas de mudar o olhar sobre eles, e por outro prisma, exaltar e reforçar mais o que fazemos de bom, sem cair no extremo do exemplo americano. Sinto que muito da nossa auto-crítica de brasileiro é uma forma de se proteger: Vamos exaltar nossa merda, porque se alguém vier criticar dói um pouquinho menos; vamos estabelecer padrões internacionais de sucesso inatingíveis pra gente poder pra sempre reclamar e criticar os governos! 


Já deveríamos ter passado dessa fase.


Eu passei dessa fase. Penso que como brasileiros e como seres humanos, deveríamos mudar um pouco nosso foco. Que tal usar a mesma força que a gente critica o que tá errado pra exaltar as nossas vitórias? Sem falsa modéstia, não achei esse texto espetacular, mas neste ponto, eu sinto que posso dizer que foi um sucesso, e concluindo, sinto como brasileiro e como humano que fiz muito além da minha obrigação.



Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

Anúncios

Um comentário em “O POVO QUE NÃO FAZ MAIS DO QUE A OBRIGAÇÃO

  1. Pedro Belford
    26/06/2013

    Eventualmente leio algumas coisas dessa coluna por conta das atualizações no facebook. Os temas me chamam a atenção..
    Pra mim, alguns aspectos do estilo usado na escrita são novidade.
    Apesar disso, gostei da ideia desse.
    Mandou bem Franco.. bacana abordar isso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 26/06/2013 por em Franco Fanti.
%d blogueiros gostam disto: