ORNITORRINCO

ADORÁVEL MUNDO SELVAGEM


Ter filhos é como viver a céu aberto, sujeito a chuvas e trovoadas, em constante instabilidade. Quer queira, quer não. Já dizia alguém por aí: Quer descobrir os prazeres da vida selvagem? Tenha filhos! Mãe moderna se divide entre mil tarefas. Trabalha duro, tem que dar conta de muita coisa ao mesmo tempo e tudo isso fomos nós mesmas que procuramos. Já dizia alguém também: Quem procura, acha. Nossa! Agora me lembrei de um chefe que costumava dizer isso para uma equipe de mulheres em sua maioria. Traduzindo, deixe o marido em paz, não vasculha nada, faz a linha da morta e etc… Quanto machismo! Mas este é um outro assunto.

E de repente o telefone toca e é a escola avisando que o filho se machucou. A gente quando faz a matrícula, teoricamente se prepara para esse momento, é verdade, preenchemos um monte de papéis, informamos até o tipo sanguíneo da nossa tataravó, questionários de alergia, remédios indicados e no final, na prática, não estamos prontos para a chegada do dia D. Eu, pelo menos, percebi que não estava: 


– Mãe, como vai? Olha, estava tudo bem até que o gato subiu no telhado e de lá se recusou a sair, blá blá blá blá, mas, olha, fica calma, não foi nada grave, não existem fraturas expostas, desmaios, ausências ou convulsões, apenas, nos parece, uma pequena lesão no antebraço.

No caminho de ida para buscar a criança fui me perguntando ininterruptamente por que escolhi ser mãe? Pior, por que optei por um pediatra zen, uma escola zen, filhos zen, se eu sou uma histérica? Está certo que até aquele momento eu não sabia disso, mas a vida me fez ver que tenho um lado nervoso. E quanto aos fatos, a sinuca é de bico. Ser ou não ser? E nem adianta elocubrar, querer mudar, reorganizar as coisas, porque a esta altura do campeonato está tudo muito arraigado. O pediatra, a escola, os rebentos e, principalmente, minha porção zen. 

A dificuldade de ter muitos filhos, não sei se as coleguinhas irão concordar, não é administrar o financeiro. Já dizia alguém, inclusive, que onde comem três, comem quatro. Agora a tal da demanda emocional… Uou! Um Beijo do Gordô! Como diz o próprio Jô e Claudinha, uma amiga querida. E explicar o nervosismo e a tremedeira diante de uma suposta experiência? A-ha. Chupa essa manga. Não explica. Não pode. Não dá. Ninguém entende. Mãe tem que dar conta e pronto. De prole grande então… Obrigatório. E as exigências já começam na família. Selvagem. Eu sempre digo. Socorro, eu é que preciso da minha mãe! Do divã. Amarelei da pasta de dente ao papel higiênico diante de um acidente simples, corriqueiro com crianças. Não aguentei ver o sofrimento da cria, mesmo sabendo que era proveniente de uma fratura sem maior gravidade, do genêro “o gesso da infância que permanece por anos a fio na memória nostálgica da gente?” Conheci o tal do úmero sem querer. Sequer fui  apresentada formalmente. O dito cujo entrou na minha vida de supetão e me nocauteou para valer. Sem dó e nem piedade. Por causa dele percebi que sou uma mariquinha de carteirinha e de que o sexo frágil muitas vezes só não foge à luta, porque não pode, senão… E em tempo, por favor: o meu sexo frágil, vai. Afinal eu não tenho o direito de generalizar as minhas limitações.


Paula Santana é mãe e jornalista.
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Publicado em 25/06/2013 por em Paula Santana.
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