ORNITORRINCO

E-MAIL PARA UM CARO AMIGO QUE ESTÁ NO ESTRANGEIRO



Meu caro amigo eu não pretendo provocar nem atiçar suas saudades, mas ultimamente venho me recordando de uma antiga conversa nossa a qual discorríamos sobre a incapacidade geral das surpresas se manifestarem com frequência, talvez fosse e seja o axioma moderno onde “nada do que é humano é estranho”.

Você está um tanto distante agora, mas aqui no Brasil, algo de inusitado está acontecendo, uma politização de ‘nossa geração’ que parece ter ocorrido como que da noite para o dia. Já não é mais chato falar em política e se a coisa prosseguir bem, mas não é assegurado, em breve será legal falar de filosofia para além de metáforas futebolísticas sem também soar chato.


Meu caro amigo, eu digo que sou de esquerda porque acredito que tenho que me posicionar neste país onde contingentemente eu calhei de nascer e ser criado, ainda que no fundo – assim como você – preze por independência no pensamento e só aceite mestres voluntariamente e criticamente e até onde essa relação é saudável.

Você sabe que aqui há muita desigualdade social, muito ranço de autoritarismo no modo de tratar o outro, então não posso ficar fazendo palavras cruzadas, como dizia um dos nossos mestres indiretos que ambos reconheceríamos, Darcy Ribeiro. Tenho que contribuir de alguma forma para o desenvolvimento daquilo que promova mais humanismo nas relações humanas.


Meu caro, te confesso que às vezes até me culpo de não estar fazendo mais, de não estar fazendo algo de maior monta, embora não saiba ainda as estratégias para alcançar esse espaço sem perder em minha independência. Mas também pondero que é muito no dia a dia que a luta é travada, que o poder não é só algo distante, um lugar isolado, o poder está sendo disputado em toda parte e eu mesmo não quero um poder que venha apenas e acima de tudo para meu próprio favorecimento. Esse é meu humanismo, entender que nos formamos uns aos outros, que nascemos de mãe e pai (seres que já estavam aí) e que não chegamos nunca a ser nós mesmos sem sermos também os outros e que, portanto, é preciso contribuir para a satisfação e o bem estar alheio de modo a ser sempre mais abrangente nesse tópico.


Veja você que nós dois, além de outros tantos, tivemos a oportunidade de estudar e frequentar uma ótima universidade deste país, a qual tive no mais das vezes imenso prazer de frequentar e sei que você também. Mas na minha infância meu caro amigo, eu tive outros amigos que não podiam frequentar as mesmas escolas que estudei, eram financeiramente pobres, seus pais não podiam pagar escolas privadas. Desses meus amigos de infância, da rua onde cresci, lugar aliás onde costumávamos jogar futebol atrapalhando o trânsito, quase nenhum conseguiu ter acesso as oportunidades dessa educação que nos coloca num patamar acima na disputa pela aquisição do capital financeiro e simbólico, bastilha do paradigma ocidental moderno.


Meu querido, agora mesmo as pessoas estão clamando por melhor educação, mas para pagar as contas e muitos por melhores possibilidades de concorrerem. Aqueles que, como eu e você, tiveram acesso a um a universidade pública, gratuita e de qualidade, (para não falar de outras chances), não podem esquecer que têm um compromisso com esse país, porque este custo, que nossas famílias poderiam ter arcado, foi pago por todos na forma de impostos que sustentam o Estado.


Mas porque nosso Estado sustenta universidades públicas tão enriquecedoras, mas que até outro dia só podiam ser acessadas quase que exclusivamente por aqueles mesmos que podiam pagar por um ensino nada barato?


A resposta para essa questão retórica, meu caro, é que o grupo do qual fazemos parte é ele mesmo que também ocupa esse Estado, além de outros espaços dos poderes em disputa, e decide por e como manter seus privilégios. Lá atrás, ele decidiu nos poupar de maior competição ou de desenvolver relações mais cooperativas e cidadãs, até para manter seu próprio prestígio. Mas até quando vamos continuar reproduzindo esses memes hereditários? Até quando vamos nos formar nessas mesmas universidades e não movermos uma palha para interesses distintos do nosso lazer e ventura própria, mantendo a mesma estrutura e pedagogia dos privilégios para os nossos filhos e contra outras tantas crianças?


Meu caro amigo, digo a você que o que está acontecendo no Brasil não me surpreende, mas me surpreenderá muito se em conjunto pudermos fazer disto um eixo de mudanças, mudanças que dinamizem o acesso as oportunidades e permitam a todos acessar não antes e apenas vastas chances de aquisições materiais e simbólicas, mas primeiro o respeito e apoio à dignidade humana do outro.


Como, no entanto, não estamos sozinhos e você mesmo está aí em outras paragens, fica visível que fornecer qualquer desses acessos de modo abrangente está cada vez mais impossível dentro dos postulados da concorrência capitalista. Mas alterar isso se faz necessário e será uma surpresa, estranhamente, humana.



Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 24/06/2013 por em Júlio Reis.
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