ORNITORRINCO

O RIO EM CONFRONTO


Foto: Fabiano Rocha

Vamos lá.Vamos construir a idéia. O texto é grande, mas ajuda a refletir sobre os fatos. O movimento inicia-se em busca da redução do preço da passagem de ônibus (objetivo imediato) e do passe livre (objetivo mediato). Desperta a classe média, acomodada no Facebook, muitos dos quais (veja que não digo todos, não se ofenda) passaram a vida toda apolitizados. Um dia depois de São Paulo sofrer uma repressão do caralho, o movimento daqui (Rio de Janeiro) pula de 10 mil para 100 mil.

O aumento de quinta-feira para segunda-feira era notório também na heterogeneidade de ideias. Ao chegar na ALERJ, as frentes revolucionárias e os anarcopunks muito bem preparados conseguem acuar a polícia para dentro do Palácio Tiradentes. A burguesia apesar de gritar “sem violência” entra em extâse com a cena. Comemora! No mesmo dia tentam subir no Congresso Nacional. Em São Paulo estabelecem uma resistência e no dia seguinte tentam invadir a prefeitura. A mídia muda de idéia e passa a apoiar as manifestações como exercício de cidadania, mas deixa bem claro repúdio aos “vândalos” e começa a mostrar todo o tempo cenas de depredação. Incitam a cisão entre o movimento pacífico e a minoria “vândala”, buscando criminalizar parte dessa faceta do movimento pelos próprios manifestantes. Além disso a midia classifica o ato como contra a corrupção do governo PT e começa a divulgar quedas no ibope da Dilma (todos sabemos que a Globo e a Veja sempre foram contra o PT). O governo nesse dia toma a decisão de recuar a polícia e deixar bem evidente os atos de vandalismo que acabam ocorrendo. Os mais radicais começam a instituir o horror aos partidos com o gritinho “sem partido”, que é absorvido rapidamente pela massa insatisfeita com a estrutura política que vivemos, tal grito é absorvido pelos da paz e os da baderna. Militantes são agredidos e se escuta “PSTU vai tomar no cu” por uma avenida inteira. O movimento começa sair do apartidarismo para o antipartidarismo. O mais curioso é que os partidos xingados são aqueles que participam do movimento de esquerda e o PT (vamos considerá-lo de esquerda para fins demonstrativos), mas ninguém está gritando “PMDB/PSDB/DEM vai tomar no cu”. Gritam no máximo contra Paes e Cabral por sua representatividade no cenário atual. O Anonymous começa a divulgar vídeos com as cinco causas do movimento (que ninguém decidiu em lugar nenhum) e decidem causas à população sem a mínima explicação, como o caso da PEC 37, que, na prática, só vedá-la é insuficiente, ou por exemplo o foro privilegiado por prerrogativa de função, que as pessoas nem sequer sabem como funciona e porque funciona (sim, os constitucionalistas tem argumentos fortes para explicá-lo como até mesmo proteção a democracia, não estou dizendo que concordo, mas que isso tem que ser debatido e não jogado à população desinformada). 


Em Niterói, Cabral dá seu primeiro aviso do que viria no dia seguinte: repressão independente de paz ou violência. Chega a marcha do 1 milhão no Rio de Janeiro no dia 20 de junho. Nunca se viu movimento mais plural. Pessoas lutando pelas coisas mais abstratas do mundo – como paz e fim da corrupção -, ou por causas completamentes incompatíveis no plano prático, como pela redução expressiva nos impostos e pelo passe livre, ao mesmo tempo (acho que antes devíamos pedir transparências, ver as contas do Estado para averiguar nosso poder financeiro, isto é, nosso Erário, pedir uma reforma fiscal, para podermos participar da escolha da nossa orçamentação, ou seja, onde queremos gastar o dinheiro recolhido pelos nossos impostos, para aí poder exigir tais pontos). 

Mas a verdade é que o movimento estava cheio de fascistas de extrema direita. Pessoas com placas como “Ditadura já” podiam ser vistas no meio. Enquanto isso os fascistas gritavam “sem partido” incitando os manifestantes vestidos de branco com a bandeira do brasil enrolada e as caras pintadas (oi? Já vi isso na história antes!) acompanharem esse grito. Os fascistas (que se confundem facilmente com qualquer um da população) enchem de porrada os militantes dos partidos. Oito militantes do PSTU (engraçado que na segunda foi o PSTU que foi acusado de ser radical e causar vandalismo) vão parar no hospital. O discurso ufanista anti-partidário soa muito estranho. Rolam boatos de P2 infiltrados. Como em São Paulo, as classes D e E começam devagar, porém de maneira nada tímida, a incorporar o movimento. Eles estão mascarados, com pau na mão, pedras portuguesas e quebram tudo na primeira reação da PM. A burguesia que foi para tirar foto da manifestação e postar no Facebook começa a se assustar. Os “sem violência” tomam bastante bala na cara mesmo com as mãos para o alto. A truculência da polícia é pesada. As câmeras da CET-Rio foram desligadas em toda a região do centro, que acaba virando um campo de guerra. Praça da Bandeira, Leopoldina, Cidade Nova, Central, Cinelândia, Praça Mauá, Candelária, Praça XV e até a Lapa viram áreas de confronto. Manifestantes ficam sitiados dentro do IFCS e da FND e só conseguem sair com a intervenção da OAB/RJ e da Defensoria Pública. Pessoas são presas arbitrariamente por formação de quadrilha, até em pontos afastados do ato. 7.500 homens da Força Nacional desfilam. O BOPE está com caveirões nas ruas reprimindo manifestantes. A resposta dada pelo governo gera medo e incerteza. As pessoas começam a pedir lideranças fora dos partidos. Esse vácuo de liderança permite qualquer coisa vir e não se esqueça que a direita reaça cresce no movimento. Essa revolta popular está sendo dirigida.

Pablo Jacob
Eduardo Nadder

No mês passado a DataFolha de São Paulo lançou uma pesquisa sobre a possível aceitação dos paulistanos de uma ditadura. Esse texto ainda flerta com a idéia do golpe estar vinculado ao Judiciário. O que não seria espantoso pela figura do novo super herói brasileiro, o justiceiro, Joaquim Barbosa, que é negro, condenou o legislativo inteiro, deu apoio aos homossexuais e outras atitudes progressistas. Porém ninguém sabe da onde esse cara veio, quais são as ligações que o levaram até ser ministro do STF (cargo altamente político), além da matéria que a VEJA publicou dele.

No começo desse mês uma comissão aprovou a regulamentação para a eleição indireta em caso de vacância do cargo da presidência (sim, indireta, pois se o governo se depois de dois anos de mandato o governo fica vago, quem vota é o congresso. E repare que já se passaram justamente 2 anos do governo da Dilma!)

Um outro texto fala também da sensação de inquietude quanto ao tema por uma esquerdista de São Paulo (lá a policia está recuada, até porque a idéia lá deve ser deixar a periferia chegar, o PCC, como já alertaram).


O MPL largou publicamente o movimento e apesar de estarem divulgando que foi pela pequena vitória da redução da passagem, não foi por isso. Conversando com gente de dentro do movimento, entendo que foi uma saída tática para repensar novas posições frente ao que está acontecendo. O que eu tô querendo dizer é que está todo mundo insatisfeito, com os ânimos a mil, mas a pauta está muito aberta, a liderança é nula, flutuante, mas isso é ficticio. A multidão é sim manipulada por quem joga melhor. A extrema esquerda e a extrema direita (que tem apoio da mídia) estão se organizando e a massa, a manada, está perdida no meio reproduzindo comportamentos históricos bem fáceis de notar. Não sei se existiria alguma possibilidade mesmo de golpe, mas isso já é o suficiente para muita gente freiar, talvez seja até essa estratégia do governo. 

O site do PT caiu do ar. Invadiram o Itamaraty. A Dilma marcou reunião urgente. Eu estou esperando para ver o posicionamento do governo federal frente a isso tudo, porque a cabeça de muita gente poderá rolar. Eu estou meio incerta quanto o futuro dessas manifestações agora. Nós tinhamos/temos (na dúvida ainda) muito potencial de conseguir uma vitória em uma pauta robusta de causas, mas também temos o mesmo potencial de fazer muita merda. Tá na hora de reavaliar porque a revolução mesmo ainda não chegou, não é isso que a multidão está pedindo (infelizmente). Então é hora de pensar em estratégias para alcançarmos alguns bons objetivos.

Ah e para ficar mais engraçadinho, deêm uma olhada nesse manual para manifestantes idiotas.


Ana Cecília Faro Bonan é estudante de direito.

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2 comentários em “O RIO EM CONFRONTO

  1. zouasurf
    22/06/2013

    É facil perceber o que estão querendo que o povão, a verdadeira massa, faça. Há apenas uma entidade capaz de manobrar essa gente, e, como todos sabemos, nao é a internet: trata-se da TV Globo.

  2. lucy ribeiro
    22/06/2013

    Menina… vc tem a visão exata dos fatos, fico feliz de ver uma jovem enxergar as coisas assim, tbm sendo filha neta de quem é…. tinha que ser assim mesmo, Parabéns!!!!!

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Publicado em 22/06/2013 por em Cissa Faro Bonan.
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