ORNITORRINCO

É QUE SOU DE OUTRO LUGAR


Ilustração: Eagle Wolf Orca



Hoje eu vim me desculpar com vocês. Talvez eu conte até dez. Tente relaxar. Massageie os pés. Respire fundo. Para tentar saborear cada segundo dessa rotina que me consome. Se não a gente some… Quem sabe até fazer uma música com o zumbido caótico dessa cidade em que vivo? Ou pintar um quadro com o sangue dos que tem morrido? Já nado há tanto tempo num mar de contradições que já não sei se consigo discernir as ondas certas das ondas erradas. O que ainda sei é que estou no meio de uma guerra. Mas de que lado? Neste caso não é como num triângulo ou num quadrado, que você enxerga bem todos os lados. Aqui você não enxerga o formato com clareza e a visão exige mais sutileza. É como ver feiura na beleza.


Hoje eu vim me desculpar com vocês. Por não saber se sou uma vítima cega ou um criminoso consciente. Por acreditar que um gari transforma mais o Brasil do que um presidente. Por às vezes me sentir uma pecinha insignificante na engrenagem, mas talvez seja mesmo parte do motor central da merda que move o mundo. Basta um segundo para eu não saber mais. “Um passo a frente e você não está mais no mesmo lugar”. Um passo e o mundo muda completamente. Já fica tudo diferente. Se uma idosa vai às compras num shopping e lá é assassinada, o mundo já não é mais o mesmo. Se um jornalista volta a um mercado para cobrar a diferença de um troco errado de R$ 12, discute, passa mal e enquanto aguarda o atendimento é morto a facadas, então as coisas já não são mais como deveriam ser.

Hoje eu vim me desculpar com vocês. Por ainda me indignar quando um portador de deficiência é multado diversas vezes por estacionar numa vaga especialmente reservada para ele. Por tentar gozar de um direito adquirido na justiça e que o próprio estado arranca dele esta possibilidade e ainda o penaliza por estar fazendo a coisa certa. Perdão por me enfurecer quando recebo a notícia de que o prefeito do Rio de Janeiro esmurrou um cidadão na cara porque foi insultado fortemente em um local público. Por mais cabeludo que seja um palavrão, uma ofensa verbal nunca pode ser igualada a uma agressão física. E aos que tive oportunidade de falar disto e me disseram que fariam o mesmo que o prefeito, aqui deixo explícita a minha vontade de vomitar.

Hoje eu vim me desculpar com vocês. Pois quando risco meus poemas ainda os vejo se arriscarem no desejo de rimar imagem e semelhança com coragem e esperança. Ou por ler o máximo que minha energia suporta com o objetivo claro de manter minha ignorância. Por ler até o que não presta ou o que não gosto, apenas pelo compromisso firmado comigo mesmo de conhecer o inimigo. Perdão por insistir que não levem embora o meu espírito de criança. Já que esta é a única e verdadeira riqueza que mantém firme meu comportamento. E o que me coloca em pleno movimento. Por ser a minha arma secreta que todos conhecem. E que poucos merecem. E por isto mesmo suporto todas as tentativas de violência contra o meu otimismo ingênuo e minha inocência sagaz de menino.

Hoje eu vim me desculpar com vocês. Por querer sorrir de graça para quem não merece. Por não dar dinheiro a quem precisa. Por apertar a mão de quem é, foi ou continua sendo violento com os outros. Mesmo que eu não saiba disto. Por ter o mais importante e ainda reclamar da vida. Em nome de todas as minhas sandices e todos os meus atos, eu hoje vim fazer uma prece. Sem pressa. Sem que ninguém me impeça. Ou sem que alguém me peça. A hora pode nem ser essa. Mas é mais do que tempo de zerar a reza e dar afeto a quem me despreza.

Agora, neste exato momento que sou lido, eu, Gabriel, te peço desculpas. Mais uma vez e quantas vezes for preciso. Peço perdão por tudo que tenho visto. E por tudo que não tenho feito. Peço perdão por não saber esconder um defeito e até por deixar uma virtude de lado. Por querer fazer direito quando nem sei que estou errado. É que sou de outro lugar. Sou de um mundo onde é o erro que constrói. Uma terra onde mendigo é herói. Um lugar onde até amar… dói.



Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO. 
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2 comentários em “É QUE SOU DE OUTRO LUGAR

  1. Gabriel, adorei o texto ! ! !
    Parabéns ! !

  2. Isabela Müller
    23/06/2013

    Fantástico! Se me permite, e já me desculpando: está “desculpadíssimo” 😉

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Informação

Publicado em 19/06/2013 por em Gabriel Camões.
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