ORNITORRINCO

OS PROTESTOS BRASILEIROS ESTÃO IMBUÍDOS DA BUSCA POR UM MUNDO NOVO


Foto: Camilo Lobo

O que hoje se passa no Brasil também precisa, e creio que muito fundamentalmente, ser visto pelo prisma da constituição econômica de reprodução da vida que se esgota. Não é a toa que já se escutaram os ecos de Londres, da Espanha, da Grécia, dos EUA, da Turquia. O sistema alicerçado no pilar Produção e Consumo, que patrocina a felicidade como gasto abundante e descomprometido, não pode se estender a porções cada vez mais crescentes da humanidade.


Não se trata apenas dos famintos literais, onde sem que haja justificativa grandes contingentes estão jogados, mas da carência de usufruto do simbolismo dessa mesma felicidade normativa, criada e incentivada por uma estrutura que está encontrando seus limites não antes ecológicos, como querem uns, mas primeiramente lógicos: por dar origem – a partir da concorrência mundial e desenfreada – a um exército de desempregados estruturais, subempregados e sem perspectivas que se veem alijados da participação no seio mesmo desse ordenamento que quer ser entendido como democrático e universal.

Óbvio está que este modelo, onde o sucesso se afirma predominantemente como projeto individualista (ainda que rendendo reverências a interesseiras trocas de favores) e que opera desintegrando os laços de solidariedade, não só não poderá estender seu paraíso para todos, como vai progressivamente expandindo o grau de exclusão e insatisfação reprimida.


Como já observou um pensador muito em voga nestes dias, “está mais fácil conceber o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, e isso não pode mais ser lido na dimensão de uma figura de linguagem hiperbólica, senão como o que realmente diz: se continuarmos nos limitando a nos relacionarmos enquanto mercadorias e desejando a satisfação das mercadorias, os limites em que se encontram esse paradigma podem conduzir de fato ao fim do ser humano, ainda que paulatinamente e no desenho da obsolescência programada de aparelhos industrializados substituídos a cada meio movimento de translação da terra.


No entanto, não se trata de um caminho inequívoco e desde sempre inescapável. Como atestam os protestos, forças contrárias e oriundas dos limites desses postulados ‘imperativos’, criam mesmo a energia capaz de implodir o sistema sedimentado em valores hierárquicos e oligárquicos, a grande questão porém continua sendo percorrer e fomentar novos e não privativos caminhos de socialização para satisfação das necessidades materiais e simbólicas.



Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/06/2013 por em Júlio Reis.
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