ORNITORRINCO

O RIO EM CHAMAS


Fotos: Camilo Lobo

Essa noite eu dormi na casa dos meus pais. Isso só acontece em raros casos de festa muito boa. Ou de morte.

Eu ontem fui pras ruas com milhares de brasileiros. Cem mil. Me entendam, eu não sou uma pessoa politizada, e me envergonho um pouco disso. Só me esforço pra acompanhar as notícias mais de perto em época de eleição, porque entendo o poder que o meu voto tem. Eu não estava na primeira manifestação contra o aumento das passagens. Nem na segunda. Mas acompanhei de longe e meu coração foi se inflamando com o que eu via até ser impossível não participar. Fui com medo, com vinagre na mochila e roupa sintética pra amenizar os efeitos do gás lacrimogênio, fui com medo e pensei que se eu, apolítica, medrosa, estava ali, muita gente também tinha tomado coragem e saído de casa, e era gente demais pra polícia atacar diante do olhar atento do mundo.



Tomamos as ruas da minha cidade com flores, música, gritos e cartazes. Foi assim pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora, uma mobilização coletiva como eu nunca tinha visto acontecer. Cada um levando a sua cidadania e o seu desejo de mudança, de um país melhor, com transporte público de qualidade, com a saúde e a educação tendo mais importância do que a Copa, com os brasileiros sendo mais importante do que a Fifa, com menos corrupção, com uma polícia que atenda ao povo e não seja inimiga dele, um país em que o direito de protestar continue sendo um direito garantido por lei, e no qual jornalistas possam exercer seu trabalho sem ser alvo de violência. Essa, mais do que todas, era a minha bandeira, repetida em coro por centenas de milhares em todo o país: Sem Violência.

Voltei pra casa com o coração leve. Orgulhosa do que fomos capazes de erguer ali. Horas depois voltei ao centro da cidade com os olhos inchados e o coração em frangalhos. Depois de quatro horas de protesto pacífico, baderneiros fizeram da violência a notícia. Invadiram e incendiaram o prédio da Alerj, atacaram policiais, quebraram bancos e lojas. Uma delas era a do meu irmão, uma franquia das Havaianas na Rua São José, quase em frente à Alerj, no olho do furacão.



Quando começaram as notícias sobre o tumulto ele acompanhou de casa, pela TV, já temeroso de que a confusão pudesse chegar até lá. Das 19h às 22h viveu e reviveu o medo de perder seu negócio construído com muita dedicação e trabalho árduo e entusiasmado. Às 22h seu medo virou fato. Às 23:30 virou imagem: uma família caminha pelas ruas de uma cidade no pós guerra, focos de incêndio, cheiro de fumaça, caminhões dos bombeiros parados perto da loja, não, em frente à loja, quebrando a parede de uma loja, não: quebrando a parede da sua loja. É uma visão dantesca. O sonho é posto à prova, o coração pensa que não vai aguentar, as pernas não sabem falar essa língua, você de repente é aquele homem no Jornal Nacional que chora diante do seu patrimônio perdido, você é abraçado, pessoas gravam com celular, você recusa entrevista para o repórter do Pânico, você devia estar em pânico mas subitamente é tomado por uma espécie doida de calma. Durante horas ficamos ali, respirando fumaça, as bolsas cheias de sacos de lixo que serviriam pra tentar recuperar parte do estoque que também foi incendiado. Comemora-se cada pequena vitória. Os móveis das paredes não foram, como os outros, arrancados pra virar fogueira na rua. Nenhum funcionário foi ferido. Estamos vivos. Vamos nos reerguer.

Parados ali na rua mil perguntas povoavam as cabeças e as bocas. Como podem bandidos com desejo de destruição macular um movimento pacífico e belo? Por que destruir um prédio histórico? Por que destruir lojas particulares? Ao invadir e saquear, por que colocar fogo no final? E onde estava a polícia que na véspera atirava bombas de gás lacrimogênio sobre famílias e manifestantes pacíficos no entorno do Maracanã? É criminoso atacar a população indefesa e que não representa nenhuma ameaça. É igualmente criminoso deixar bandidos agirem livremente causando pânico e destruição.

Em meio à dor profunda do meu irmão, cada um de nós carregava seus sentimentos. O meu incluía uma tristeza imensa, muita indignação e uma parcela de culpa por ter participado de um movimento que acabou gerando aquela destruição. Fiquei pensando que se não fosse a loja do meu irmão, se eu não estivesse ali naquela calçada, provavelmente pensaria vendo o noticiário que aquela pequena destruição era horrível mas ínfima comparada à força construtora da passeata da qual eu acabava de participar. Só que de repente não era. E eu fui obrigada a entender de dentro que os números não dizem tudo. Cem mil pessoas. Vinte lojas destruídas. Vinte vidas. Vinte famílias. Vinte caras que pegaram empréstimo no banco, planejaram cada passo, escolheram um ponto, fizeram reforma, contrataram funcionários, pagaram altos impostos, arriscaram, sonharam, suaram, comemoraram cada vitória. As ‘Havaianas’ são uma empresa enorme, uma marca brasileira que virou símbolo da leveza carioca e anda democraticamente nos pés de ricos e pobres, de famosos e anônimos, em vitrines internacionais, bancas de jornal e supermercados. Aquela loja era do Tiago, brasileiro, 32 anos, filho do Sergio e da Mariza, irmão da Maria e da Julia, noivo da Clara.


É uma espécie de morte. Nós ali juntos velando aquele sonho, pensando em como seguir a vida depois da perda. De manhã, passado o choque, uma súbita certeza: o horror que vivemos não pode macular a beleza e a potência do que aconteceu ontem no Brasil. E embora eu tenha medo do que possa acontecer na próxima manifestação, medo de pensar em outros homens vendo destruídos seus negócios, seus sonhos, penso que é em nome deles que esse movimento não pode morrer na praia. Pra que a nossa dor de ontem não tenha sido em vão, pra que a violência não vença, pra que tenhamos algum dia paz e voz, vamos pras ruas com as nossas flores e o peito aberto. É terça-feira no rio, faz sol, a vida segue. Tem gente que tem ódio no peito e espalha o horror. Nós temos amor.





Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 18/06/2013 por em Maria Rezende.
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