ORNITORRINCO

A BOÇAL COREOGRAFIA DE SEMPRE


Foto: Fabio Braga/Folhapress
Dia desses recebi, pela internet, uma imagem mostrando a multidão de uma das Paradas do orgulho LGBT sobreposta a outra foto, a de uma manifestação quase vazia contra a corrupção. A legenda opunha as duas causas, concluindo que o Brasil não é um pais sério e que merece os problemas que tem, visto que a população é capaz de se mobilizar em milhares por um motivo “menor”, mas não se une para reclamar contra os que roubam. A mesma oposição torpe foi proposta, em outros posts, substituindo a parada gay pela Marcha da maconha ou pela Marcha das vadias. 


Só alguém muito preguiçoso e/ou mal intencionado – para não dizer homofóbico, machista ou burro mesmo – pode afirmar que o fato de um protesto importante estar vazio esvazia a importância de outro. É uma lógica irmã da que se coloca contra as cotas, pois a solução ideal seria melhorar a educação, resolver a má distribuição de renda e acabar com o racismo que ainda impera – como se essas mudanças fossem uma mera decisão a ser tomada e, enquanto esse milagre não acontece, que a enorme fatia da população injustamente prejudicada tenha paciência por mais algumas décadas.



Temos visto, através de ampla cobertura da imprensa, manifestações diárias acontecendo em diversas cidades do país contra mais um reajuste no preço das passagens de ônibus. Como de hábito, o tamanho do aumento é inversamente proporcional à qualidade do serviço oferecido. E, também mantendo um costume nacional, a reação da polícia foi uma só: porrada.


Foto: Nelson Almeida/AFP

Protestar não só é direito do povo, como é parte importante do jogo democrático. Até mesmo o preguiçoso e mal intencionado do outro parágrafo compreende o quanto o aumento desregrado da tarifa de ônibus prejudica diretamente a população – e mesmo ele admite que nada o justifica, diante da qualidade cada vez pior de todo sistema público de transporte.

A imprensa, porém, se esforça muito pouco em parecer imparcial, ou ao menos em esconder de que lado está. Foca todas as matérias no que foi depredado pelos “vândalos” que ocuparam vias públicas – prejudicando o sagrado trânsito de automóveis – com imagens quase que exclusivamente dos eventuais momentos de depredação, para em seguida exibir a já tão manjada e boçal coreografia do batalhão de choque: homens fardados insurgindo heroicamente, batendo com seus cassetetes contra seus escudos e os tais baderneiros correndo para todos os lados feito formigas. Raras são as reportagens que se aprofundam no tema, mostrando o peso que o aumento significará para o bolso do cidadão ou, ao menos, questionando o reajuste.

Não vi nenhuma matéria que explicasse os contratos das empresas de ônibus e elucidasse quem são os empresários que comandam esses aumentos. Ou mesmo que relativizasse o método de se responder às reivindicações da população sempre com truculência. As reportagens servem no máximo como amplificadores da voz do governo, reproduzindo declarações simplórias e velhas justificativas.

Tal postura por parte da imprensa cria justamente a lógica demente do post citado no primeiro parágrafo, e é em parte também responsável pela contradição de quem reclama da alienação do povo e que, no entanto, chama de vagabundo e baderneiro quem finalmente se levanta contra uma injustiça. A imprensa ensina claramente que, no Brasil, é errado se manifestar, e que é certo responder aos protestos com covardia e violência – seja pela mão da polícia, seja pela opinião de seus leitos e espectadores.


Foto: Nelson Almeida/AFP

É claro que há sim, nas manifestações, uma minoria que depreda antes mesmo de qualquer ação por parte da polícia, como há idiotas em toda aglomeração. Porém, só mesmo o nosso amigo mal intencionado para justificar o todo pela exceção, esvaziando o motivo dos protestos como se a relação entre o poder público e a população fosse costumeiramente exemplar. É ruim que qualquer cidadão se prejudique por conta das manifestações, e depredar patrimônios não só não ajuda a causa como ainda oferece argumentos para o inimigo. No entanto, é tão pior tirar deliberadamente do bolso dos mais pobres – justamente os que dependem do transporte público – que me parece criminoso mudar o foco desse debate.

Pois o ponto principal tem que ser um só: o aumento abusivo das tarifas de ônibus não se justifica e nem se reverterá em melhorias significativas ou mesmo perceptivas para a população. E ainda que venha a se reverter, continuará sendo pornográfico o valor cobrado em relação ao que se ganha em média nesse país. Enquanto isso, o principal jornal impresso do Rio de Janeiro chama, em sua capa, as manifestações de “marcha da insensatez” e “vandalismo sem causa”.

Sendo usuário do sistema de transporte público carioca – e leitor desse jornal – fica difícil relativizar a questão. Não há mundo ideal, e no mundo real é um absurdo que essa tarifa continue a subir – como é absurda a cobertura da imprensa. Quem não enxerga a importância das causas defendidas pela parada gay, pela marcha da maconha, pela marcha das vadias ou pelos recentes protestos está com a cabeça e o coração num passado triste, que precisa ficar para trás. E o resto é somente a boçal coreografia de sempre.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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2 comentários em “A BOÇAL COREOGRAFIA DE SEMPRE

  1. Duda
    13/06/2013

    Mandô!

  2. Júlio Reis
    13/06/2013

    Victor, concordo com a tese de que as adesões as manifestações sobre isso ou aquilo não diminuem em nada umas as outras. De toda forma se faz salientar que é inegável que a imprensa brasileira (a famigerada) tem mais “boa vontade” com umas do que com outras dessas manifestações, como se constata sem maiores dificuldades, seja no viés da cobertura, seja no próprio tamanho do espaço destinado a cada uma das causas em questão. O que realmente questiona as estruturas de poder é devidamente rechaçado para a manutenção do status quo, isso é que é má notícia.

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Publicado em 14/06/2013 por em Vitor Paiva.
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