ORNITORRINCO

VESTIDO DE VÊNUS



Era a Luana Piovani adolescente, queixo quadrado e bochechuda, na capa da Capricho segurando uma colorida. Era eu revirando as coisas do meu pai chocada de achar uma. Era eu dando bronca na minha mãe estupefata por ela não ter uma. Eu tímida na farmácia comprando mil inutilidades pra não chegar no caixa só com um pacote de uma. Era um namorado puto por achar uma na minha carteira em plena sessão de cinema, sem entender que apesar do combinado de fidelidade eu acredito que tudo pode acontecer, sempre, tudo, inclusive eu dar pra outro cara amando ele, mas nunca eu amando ele dar pra outro cara sem camisinha.

Camisinha. Só a palavra já dava vergonha quando ela surgiu na minha vida. Tinha a ver com sexo, claro, e eu estava a quilômetros luz da coisa. Fui das últimas a dar no meu grupo de amigas, mas acho que posso dizer sem medo de errar que a camisinha apareceu antes do sexo na minha geração. Morreu Cazuza. Morreu Freddy Mercury. Só se falava nisso. Não tem grupo de risco. Fazer sexo seguro. E nem era só a AIDS, tinham também as DSTs, doenças com jeito de escritores mortos em séculos passados. Dava medo só de pensar.

Imaginem então meu espanto ao adentrar o mundo do sexo e descobrir que os rapazes não pensam do mesmo jeito. Meninos quando eu era uma menina, homens agora que sou mulher. Variadas idades, profissões, religiões. E a mesma cara de coitado ao verem o látex pular da embalagem na minha mão. Eu perdi alguma coisa, gente? Cês não leram Capricho, tudo bem, mas e o resto da preconização, as mortes, o medo, a contaminação? Eles fazem ar de tristeza e explicam que aperta, que incomoda, afirmam românticos que querem me sentir inteira, desafiam a lógica dizendo que acabaram de fazer o exame, e aí eu pergunto: e eu, cara pálida? Sabe lá você se eu sou assim tão saudável? Esse par de peitos e o sorriso doce não provam nada, meu amor. E se você acha mesmo que quem vê cara vê teste de HIV eu não serei a quinta gatinha que cê come só esse mês sem camisinha.


Fico estupefata. Boquiaberta. É o século 21, meninos. A Capricho saiu de moda, descobriram o AZT e outras drogas, mas ainda é muito mais legal ter saúde, sabem? Quer transar sem camisinha? Fique. Sexo orgânico à moda antiga é luxo que só o tempo traz. Minha eterna admiração aos homens que trazem uma camisinha no bolso e a vestem sem nem dar nome aos bois, que entram tão macios plastificados que a gente tem até que olhar pra conferir se a bichinha tá mesmo ali. Eles existem, sabe, rapazes? E a gente adora. Pratiquem. É possível. Deixem em casa a careta de dor e venham com pacotinhos coloridos e amor pra dar. Não tem mulher que resista.

Maria Rezende é poeta, montadora de cinema e colunista do ORNITORRINCO.

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Um comentário em “VESTIDO DE VÊNUS

  1. A Uerba
    10/06/2013

    muito bom!

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Publicado em 10/06/2013 por em Maria Rezende.
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