ORNITORRINCO

TEMPO HORÁRIO



De segunda à sexta tinha aula. De manhã, que delícia, sou um cara diurno e as aulas terminavam sempre antes do meio dia, era quase um convite. Lembro que minha experiência acadêmica começou com excesso de fumo e tabaco, álcool, mulheres, tudo antes do meio dia. Antes do almoço a turma já estava bêbada. Fomos referência em putaria de 2002 à 2004 entre as instituições de ensino superior de Salvador. Talvez fosse a cultura da praia, a facilidade de locomoção (estou falando da proximidade com o mar e não da disponibilidade de transporte público), os alunos semi/full-abonados da minha cercania e o esplendor de hormônios que apontavam pra um outro futuro. Não me pergunte qual, isso é outra história.

As visitas regulares à praia me ascenderam à outro lugar, muito mais enquadrado ao meu prazer de acordar cedo. Quartas e sextas eram os dias oficiais de rolé na praia, muitas vezes estendido para outros dias como quinta e também finais de semana. Funcionava assim: Por volta das dez da manhã as aulas acabavam, eu e mais poucas pessoas (era sempre o mesmo povo) saíamos da faculdade direto pra barraca Cogumelo lá em Jaguaribe. A Cogumelo era vizinha da Chaves, que era vizinha da Maré Alta – a mais famosa das antigas barracas. A vantagem era a tranquilidade da Cogumelo, muitas vezes não havia ninguém. Na verdade a gente abria a barraca, chegávamos lá na hora em que o atendimento sazonal começava.

Eram muitas horas de papo e cerveja, uma caída na água pra quem era de cair, um queijo coalho na brasa, por sinal não sei como não morri com aquele queijo. Chegávamos quando a maioria dos surfistas já tinham saído para trabalhar ou não, quando os ambulantes voltavam da caminhada até Piatã e o sol apitava o início do câncer de pele em 2030. Foi muito tempo olhando o mar, contemplando. Acho que minha vida mudou ali… Tenho certeza de que minha vida mudou ali. Muitas horas e muitos dias eu desenvolvi uma relação com o mar completamente diferente da dos surfistas que já olham com um certo objetivo, buscando entender a força do mar e tentando usar a seu favor… Nunca fui muito de entrar no mar, de tomar banho – gosto só de olhar, acho que essa é a minha tara.


E acho que o mar gosta de se exibir, então é um bom negócio para os dois.


Houve uma conexão que não consigo explicar muito bem, algum sentimento muito distante que se aproximou devagar e que não saiu mais. Está impresso no que eu faço. Hoje lembro das conversas hilárias que tivemos na praia, já esqueci, mas que ainda sou capaz de rir sozinho em casa. Me lembro daquela sensação de estar lá e poder beber com meus amigos, falar de álcool, drogas, festas, Novos Baianos, o filme novo do Wes Anderson. Tudo fez parte da pessoa que me trouxe até esse ponto do texto. Meus grandes amigos de hoje foram os que também compartilharam comigo esse momento dez anos atrás.



Essa fase durou o tempo certo para que uma outra se estabelecesse. Depois fomos para outra fase, mais distante e igualmente necessária pra que eu pudesse sentir falta daquela época. 

Não tenho porque deixar de visitar o mar de Jaguaribe e até hoje me sinto na obrigação de contemplá-lo de vez em quando. E estou sempre a olhá-lo, mesmo que não em Salvador, pode ser Barcelona, Rio, Antártida, Alexandria. Eu olho porque é bonito, relaxante, me faz bem, ou só pra saber se ele lembra de mim.



Camilo Lobo é fotógrafo.
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Publicado em 08/06/2013 por em Camilo Lobo.
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