ORNITORRINCO

MARACANÃ: O CHOCALHO AMORDAÇADO


Foto: Ricardo Azoury



Somos colonizados. A independência é uma falácia. Vivemos sob o domínio das poderosas e decadentes nações europeias. No Rio de Janeiro há um consenso de que a luz mais bonita do ano é a do outono. Colonizados! A luz considerada mais bonita é aquela comportada luz à europeia, inclinada e cheia de tons pastéis deixando sombras longas na calçada. Eu prefiro a luz do verão, arrebatadora, explosiva, que faz as cores transbordarem para fora das formas. Tenho certeza que é essa luz que fez Hélio Oiticica levar cor para o espaço em seus trabalhos, transbordamentos. Somos colonizados quando importamos os padrões estrangeiros sem nenhuma deglutição. Não aprendemos nada com a antropofagia? O que diria Oswald de Andrade, apaixonado por futebol, se visse o que fizemos para receber no Brasil mais uma Copa do Mundo da FIFA? O encargo de exigências da entidade máxima (ou mínima) do futebol faz parte de um projeto que já está em curso em todo o país, uma nova colonização. Um projeto que se pretende salvador, a força da grana vai erradicar a pobreza, seremos uma nação de ricos e bem comportados brasileiros, há um esforço para se chegar até lá, mas é para o bem maior comum. Falácia, ignomínia, mentira, patuscada! A grana é para poucos, a locomotiva está em curso, agarre-se nela quem puder porque depois que ela passar pelo túnel vão fechar a entrada e cobrar ingressos de quem ficar de fora. Ahá Uhú o Maraca é nosso! Não, não é mais. Agora ele é de um conglomerado de empresas, não é mais o templo do futebol, é uma bolsa de negócios.


Fui à reinauguração do Maracanã. Amo futebol, mas confesso que não consegui prestar muita atenção no jogo. Mais uma vez um jogador do Fluminense estreou o placar do estádio, foi assim com Didi em 1950 e agora com Fred em 2014, neste novo Maracanã depois do extreme makeover. Ao invés de gritar Brasil, os torcedores, como de costume, gritaram o nome dos seus times e o do Flamengo soou mais alto. O Brasil empatou 2 a 2 com a Inglaterra. Poderia ficar aqui achando outras curiosidades inúteis ou numa mesa redonda de bar discutindo o esquema tático da seleção, mas minhas memórias de um Maracanã que já existiu falam mais forte.

O estádio que encontrei agora construído na beira da Radial Oeste não é mais aquele. Deveria ter outro nome, chama-lo de Mário Filho é vergonhoso. É a vontade de se manter um nome para dizer que sobrou algo, para tentar falsear os traços identitários que foram rasurados e destroçados na marra. Se a desculpa para a demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare é que esses não estavam no projeto original, talvez devêssemos voltar ao nome original do estádio, que em seu princípio chamou-se Mendes de Morais, prefeito do Rio à época de sua construção. Ou ainda entrar na moda pasteurizada e batizar de IMX Sports Venue Arena. Vergonhoso. Desde 1999 que o Maracanã vem passando por um severo processo de descaracterização levado a cabo pela FIFA e por órgãos olímpicos como o COI e ODEPA além das empreiteiras envolvidas nas obras. Àquela altura o estádio, cinquentão, precisava de reformas, muitos problemas estruturais pipocavam por lá, a queda da arquibancada em 1992 foi o retrato cruel do descaso do poder público. Mas o que se viu não foram reformas para deixa-lo mais jovem, todas essas transformações que entraram em curso são uma metáfora das profundas transformações sofridas pela cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos. O primeiro golpe veio com as obras para o canhestro mundial de clubes da FIFA de 2000. A FIFA reforçou uma exigência que vinha desde as eliminatórias para a Copa de 1994, assentos individuais no anel superior do Maracanã. Com o fim da arquibancada coletiva, que fazia com que os torcedores se encostassem uns nos outros e que tornava possível a modulação do tamanho das torcidas, começa o colonizador projeto disciplinador, e a capacidade do estádio (que já tinha sido de 200.000 pessoas) cai para 100.000. O projeto era ambicioso e previa um museu e um complexo de entretenimento com restaurantes, teatros e cinemas. A grana foi gasta, mas nada disso foi feito. Ali o Maracanã deixava de ser o maior do mundo perdendo seu posto para o estádio Azteca, no México.



Em 2005 o estádio foi fechado por nove meses para as obras do Pan-Americano que aconteceria em 2007 no Rio de Janeiro. Ao realizar as obras do Pan a propaganda era a de que o estádio estaria se adequando ao padrão FIFA, podendo até sediar uma Copa do Mundo. Vimos que era mentira e o estádio viu-se mais uma vez reduzido a pouco mais de 80.000 lugares. Rebaixaram o campo e assassinaram a geral, um duro golpe para a mística do estádio. O fim de lugares a preços realmente populares e o fim da possibilidade de assistir aos jogos em pé transformou a experiência de torcer no Mário Filho. A FIFA é contra estádios que não tenham “conforto” e lugares em pé causam repulsa a uma entidade que só pensa nos lucros. No entanto, o Borussia Dortmund da Alemanha, mantém em seu estádio um setor sem cadeiras por considerar que a tradição de assistir aos jogos em pé é mais importante do que o conforto. É nesse setor do estádio que os torcedores montam incríveis mosaicos e onde a verdadeira festa acontece. Mas aqui somos colonizados, muita gente gritou contra o fim da geral, mas a força da grana falou mais alto. Aqui a imposição vem de forma mais severa, o capitalismo é impiedoso e predatório. Colonizados. O fim da geral é a morte de parte da alma do estádio. Maracanã, em Tupi, significa semelhante a um chocalho e o barulho desse chocalho vinha da geral. Ali, em pé, conectando céu e terra os geraldinos eram um acelerador de partículas. Todo chocalho é um acelerador de partículas. A geral era o estado de espírito do Maracanã com personagens fantasiados, travestidos, por vezes sem roupa. Um lugar a preços baixos – um ou dois reais em seus últimos anos de funcionamento –, espaço que pulsava de pé o futebol enquanto expressão cultural e não apenas como negócio milionário.

O golpe de misericórdia, mais letal que o gol do Ghiggia na final de 1950, veio com as obras para a Copa do Mundo FIFA de 2014. O estádio ficou fechado por mais de dois anos, foi praticamente posto abaixo e um retrofit qualquer foi feito em seu interior, sua titânica cobertura de concreto foi demolida, o Maracanã passa a ter apenas um andar, uma rampa que desce lá de cima até a beira do campo, uma cobertura de plástico e perde seu desenho elíptico no interior. É como desenhar um retângulo dentro de um ovo, você perde espaço e agora apenas 78.000 pessoas podem entrar. Nem mesmo a fachada, tombada pelo Iphan, foi poupada e quatro novas entradas foram construídas além de “bigodes” que ampliam os acessos às rampas monumentais e atravessam a fachada. A Arena Maracanã é um lugar nenhum qualquer do mundo, tiro na nuca dos arquitetos que o projetaram como disco voador corpo aberto no espaço. Lembro-me que na época do Pan-Americano um arquiteto disse que diminuir o gramado do Maracanã era como diminuir a cabeça do Cristo Redentor. Uma mudança na escala do projeto que destruiria sua beleza. Claro, para 2014 o campo foi reduzido sem mais questionamentos, a FIFA tem padrões, prazos e pressa. A redução do campo molda o jogo ao padrão Copa do Mundo, todos os campos da Copa devem ter o mesmo tamanho. Nas regras do jogo as dimensões do gramado são variáveis, o Maracanã tinha a maior possível, mas a FIFA não gosta assim. Segundo ela um campo menor cria mais chances de gol, um futebol mais veloz, à europeia. Nunca mais veremos os campos dos gigantes lançamentos do Gerson, dos longos passes rasteiros do Zico. A FIFA não perdoou nem as redes dos gols do Maracanã que, com charme, desciam mais perto das traves e eram chamadas de véu da noiva. O padrão das redes quadradas e esticadas impera. Encravado no meio da arquibancada há agora uma área, decorada com palmeiras de festa de casamento. Uma área VIP recheada de camarotes que dão pra dentro do estádio com o conforto de um quarto de hotel e telões para ver o jogo na frieza do ar-condicionado sem o barulho repugnante da torcida. O livro de boas maneiras nos estádios, distribuído junto com os ingressos para os jogos da Copa das Confederações, proíbe o uso de instrumentos, bandeiras e de qualquer cartaz ou faixa com dizeres que não se atenham apenas ao universo do futebol. Censura!


Temos por fim completada a meta de um estádio disciplinador. Retalhado em setores que custam do caro ao muito caro. Setores que não se comunicam. Agora você compra aquele pedaço de terreno e não deve poder entrar em contato com o pessoal da outra casta que com mais grana comprou outro lugar considerado melhor. Engraçado que outro argumento para se acabar com a geral era a de que a visão, muito próxima e ao lado do campo, não era boa, mas hoje ficar ao lado do gramado é o mais in, nobre e caro que existe no estádio. O antigo Maracanã também tinha alguma setorização, mas muito menor e abarcando uma faixa muito maior de poder aquisitivo, indo do módico preço da geral aos ingressos caros das cadeiras especiais. Em oposição à geral nessas cadeiras nunca se pôde gritar desde sempre, eram especiais, para gente fina, elegante e discreta. Vejo o estádio hoje como um grande setor de cadeiras especiais, torcidas abafadas por regras de conduta e uma arquitetura disciplinadora que se estende para a disciplina das apostilas de comportamento. Querem agora nos ensinar a torcer. A nova construção fez o som do caldeirão se dissipar e é impossível fazer o barulho de antes sem o eco do concreto. Calaram o chocalho gigante. Alguns estádios de futebol foram importantes espaços para gritos amordaçados virem à tona. Nos anos de ditadura Chilena era somente en las canchas que multidões podiam gritar durante os jogos “Libertad, Libertad, Libertad” sem que a sangrenta polícia de Pinochet pudesse impedir. Outro célebre palco de resistência era o Camp Nou, o Nosso Campo, como chamam os catalães torcedores do Barcelona, único lugar da Espanha onde se podia falar catalão sem que a sangrenta ditadura Franco pudesse impedir. Mudar a acústica de um estádio é, para mim, a mostra de uma vontade de calar um povo. O maraca não é mais nosso.


Algumas poucas pessoas ganharam muito dinheiro com essas obras. Somando as que eu citei desde 1999 quase três bilhões de Reais foram torrados. Quem arrebatou a concessão do estádio tem 35 anos pra ganhar muito mais. Quem sempre manteve o Maracanã vibrando como um chocalho de emoções foi jogado pra fora. Na página 30 do estudo de viabilidade técnica econômica e jurídica para o complexo do Maracanã, feito pela IMX de Eike Batista, que curiosamente ganhou a concessão, aparece o seguinte: “Vantagens para os clubes do Rio. O clube poderá se beneficiar do crescimento de receitas que o novo estádio irá lhe proporcionar em termos de: 1 – Bilheteria. Com o aumento da presença e da MUDANÇA DO PERFIL DO PÚBLICO e consequente valor médio do preço dos ingressos”. Está em curso na cidade do Rio de Janeiro, há muito, um aberto projeto elitista, gentrificador, a torcida pobre que não serve pra nada deve ficar longe do novo Maracanã retrofifado. O mundo é dos ricos. A capa da revista Exame deste mês ostenta a manchete: “Como o capitalismo pode salvar o futebol brasileiro”. Só vejo a força do capital destruir o futebol. Há no Maracanã um gosto de expressão popular que deveria comportar um caldinho de feijão feito pela dona Doca e não os preços abusivos impostos pela Coca-cola. Um lugar de cantos e gritos que deveria receber rodas de samba na geral e não alto-falantes gritando a voz de um animador de festa. Um espaço de convívio e encontro que deveria ser público, aberto, inclusivo e libertário ao invés de privado, fechado e cerceador.


A dor é grande, talvez o tempo e a força das torcidas transbordem o cerceamento e a coerção impostas pela nova arquitetura do Maracanã, talvez reinventemos este templo, carnavalizando tudo, mas é difícil pensar nisso agora. Há um X, de uma incógnita, que se impõe com força destruidora no caminho de um Maracanã que seja nosso. Mas, para me manter fiel ao caderninho de boas maneiras da FIFA, vou terminar com uma pergunta puramente futebolística. Cabral, Paes e Eike: qual é a próxima jogada?



Domingos Guimaraens é integrante do coletivo OPAVIVARÁ!, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.

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Um comentário em “MARACANÃ: O CHOCALHO AMORDAÇADO

  1. camila cardoso
    03/06/2013

    No Brasil as diferenças são bem vindas! Desde que todos estejam em seu devido lugar…

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Publicado em 03/06/2013 por em Domingos Guimaraens.
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