ORNITORRINCO

UMA COISA SÉRIA



Um quarto de hotel em Porto Alegre. Seis da manhã, raios do raiar rasgam as cortinas rasgadas, me despertam. Ar quente, seco e abominável, um mal necessário neste gélido clima de 5 graus que por outro prisma faz cada inalação trazer a dor de viver. Dormir não posso. As fezes matinais começam a buscar um caminho de saída sutilmente, o indicador são as flatulências que demonstram o porvir de algo mais sólido. Do calor aconchegante e fétido das minha cobertas, fico a pensar em fragmentos dessa FestiPoa.

Festival literário é chato, igual esse início do texto. Esse foi muito bom (a Festa, o texto vai ser bom ainda), mesmo ainda assim sendo chato.


Festival Literário pode ser chato por várias razões mas vou me ater a uma só: leitura de coisa chata por gente chata. Uma sugestão aos autores: por favor não seja monocórdico, por favor não se leve tão a sério e por favor troque alguma coisa com o público, mesmo que sejam insultos (vou usar isso mais na frente).

Teve uma leitura que achei chata bem acima do nível Discurso de Político em Inauguração de Prédio Público. Eu e Pardal ficamos trocando mensagens pelo Whatsapp dizendo como estava chato e eu me segurando para não ter uma crise de riso porque aquilo ali estava sendo lido como um negócio seríssimo e ia ser um papelão eu cair na gargalhada. E esse foi o melhor momento da leitura. Me fez pensar sobre quatro pontos.

Primeiro: Quantas vezes a gente está totalmente ausente mas se mantém ali presente? Por que a gente não sai? Que respeito é esse?

O que parece respeito com a pessoa que está se apresentando é um desrespeito com você mesmo, e que em última instância acaba sendo um desrespeito com a pessoa também, porque eu estou olhando pra essa mulher lendo essa “coisa séria” como se estivesse ouvindo, mas estou pensando o que eu poderia falar para essa groupie de literatura loira gata de óculos e batom vermelho que acabei de perceber que está atrás de mim. Sair ali no meio poderia facilmente parecer falta de educação e desrespeito, mas seria a melhor forma de respeitar aquela moça que lia um “negócio muito sério”.

O que me leva ao segundo ponto: por que em geral a literatura é levada tão a sério? Não só a literatura, a galera da arte (me inclui fora dessa) fala de arte e do que faz como se essas atividades estivessem acima do bem e do mal. Sutilmente, ou às vezes abertamente, presumindo que fazer e falar um poema é mais importante que a arte de limpar uma rua (também vou usar lá na frente).

Discuti com dois poetas sobre se levar a sério e sobre poesia (eles disseram que se levam a sério). Para mim levar arte a sério está no sentido de acreditar no que se faz, de querer dizer algo, ser espontâneo, ter sua voz. Sem acreditar que o que foi feito é importante demais pra limpar uma bunda ou ser jogado fora numa rodovia de SP.

Falo isso de jogar fora porque lembro imediatamente da conversa do Marcelino Freire com JR Duran: JR falou que existem dois grupos de artistas. Os que se levam a sério e os que fingem que não se levam a sério. Ele finge que não se leva, disse, mas nem precisava dizer.

Ele ilustrou isso quando falou da história que acharam um exemplar de um dos seus livros jogado numa rodovia de SP. A partir daí passou a enumerar e identificar cada comprador da sua revista anual (só de fotos e entrevistas, maravilhosa, por sinal) através de um cadastro que tem que obrigatoriamente ser preenchido caso você queira pagar R$350 por um dos 2.000 exemplares que são publicados.

Entendo a revolta dele de ver que um trabalho de anos de dedicação e carinho possa ser tratado com tão pouco carinho, e jogado fora, ou sabe-se lá por que estava ali na estrada, mas isso mostra o quanto ele se leva a sério.

Para mim é algo do tipo: Gostou do meu livro? Ótimo, fico deveras feliz. Mesmo. Não gostou? Quer usar de rascunho, de folha pra jogar adedanha, de calço de mesa ou pra limpar a bunda? Uma grande perda, mas ótimo também, fico deveras feliz, porque houve algum tipo de troca.

E isso me leva ao terceiro ponto que a chatice lá de cima me fez refletir: troca.

O que me incomodou tanto na leitura chata foi a falta de troca comigo. Parece que ela estava lendo só para ela um texto que ela nunca tinha visto. Essa falta de troca também é o que me irrita em poesia. Ela não troca comigo ou eu raramente consigo trocar com ela. Pode ser falha minha? Pode. Pode ser preguiça minha? Pode bastante. Mas é um risco que se corre quando se faz as coisas com muita “seriedade e sofisticação”. Não penso em fazer qualquer bobeira (ok, penso, mas tento não fazer) e atingir o mundo todo, mas acho legal conseguir algo que seja inteligível e que possa tocar humanos, todo tipo de público desde um imbecil da arte até um fodão lixeiro.

E aí chego ao problema principal do mundo da literatura e de feiras literárias de forma geral. Existe uma seriedade, dá-se uma importância, e tem-se um cuidado excessivo com as palavras que acaba sendo um negócio para três pessoas, e o pior, muito mais se afasta do que se aproxima do público. 

Eis o quarto ponto que a leitura da chatinha me fez pensar: o público.

O fofo colunista Júlio Reis falou durante o República Ornitorrinco na FestiPoa que não pensa no público quando escreve. Gerou polêmica. Também discordo dele. Sim, eu penso no público. Eis o que penso: foda-se o público.

Não leve a mal, leitor, indiquei que isso iria acontecer no início do texto e uma foda-se pode ter muito amor, mesmo que seja só uma one night stand bem fodarástica.

O que pode parecer um grande respeito com o publico é um puta desrespeito. Você escrever para algum público é desrespeitar o público, porque em certa medida (ou melhor, errada medida), é você achar que sabe para quem escreve. E você sabe para quem? Eu sei por acaso quem está lendo agora?
Escrevo para mim mesmo, sem estar de fato escrevendo só para mim mesmo. Eu escrevo para trocar com o público, e para o público, mas meu público tangível sou só eu mesmo.

O que me lembra de uma observação muito interessante do Marcelino Freire que se concatena com o que eu digo aqui. Quem escreve para um público é autor de livro de auto-ajuda. Nada contra, quem nunca leu um que atire a primeira merda. Mas então repito com todo respeito: foda-se o público.

As minhas origens no Hermes e Renato ilustram bem isso. A gente filmava e criava para a gente, para a nossa diversão, para rir de si mesmo e não pensávamos em agradar público nenhum e ponto. A gente não fazia para nenhum público exceto para nós mesmos. E não nos levávamos a sério, mas levávamos aquilo a sério, da forma que eu já expliquei aqui em cima.

Desrespeitável público, o maior respeito que posso ter além de mandar vocês se fuderem, é mostrar meu cú para vocês. A metáfora de mostrar o ânus de novo, pode parecer agressiva e muito gráfica, mas ilustra bem.

Numa outra conversa na FestiPoa com uma amiga falei que a minha namorada que me viu mais intimamente foi a que pediu para que eu mostrasse meu ânus hemorróidico para ela. Mostrei. Separar as bandas da minha bunda e mostrar o cú é muita intimidade, é se expor muito, pensem nisso.

Estou mostrando meu cú pra vocês agora tentando ser o mais eu possível, e assim com essa do cú quero  explicar que não pretendo me levar a sério e não ponho essa seriedade e solenidade no que faço; sou contra esses paradigmas de que literatura é coisa séria e esse sou eu cheio de falhas, hemorróidas, desbocado e debochado, sendo eu em um texto, sendo humano. Não sei de fato quem é você lendo agora. Mas você que lê é humano também né? Talvez você se enxergue um pouco em mim, troque comigo, mesmo sendo tão diferente.

Quem achou o livro do JR Duran? Um lixeiro. Pergunta se ele fica puto com a gente depois dele fazer a obra de arte de horas de carinho e dedicação recolhendo nosso lixo, deixando tudo limpinho e a gente vir e sujar tudo de novo. Todo dia. Não tem sentido eu ficar puto com alguém porque essa pessoa jogou meu texto no lixo. O lixeiro que vai recolher sim pode ficar puto.

Falando em ficar puto…

Estou enfezado. Minhas narinas ainda queimam a dor de viver. Garganta seca de saudade de água. Trinta minutos desde as primeiras palavras deste texto. As fezes chegam ao limite de seu nascimento. Enfezado. Literalmente. Literalmente termino este texto.

PS: JR Duran, acabou o papel e vou usar sua revista de R$300 pra me limpar, foi mal, mas depois desse texto espero que você entenda.


Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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2 comentários em “UMA COISA SÉRIA

  1. alvo de fora
    29/05/2013

    hahahahaha!! do caralho esse texto! do cú!

  2. Arthur Schmidt
    31/05/2013

    Flakes bombardeio de fezes “emorrodjicas”. Um beijo pro fofo de Julio Reis. Sensacional.

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Publicado em 29/05/2013 por em Franco Fanti.
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