ORNITORRINCO

UM TAPA NA CARA DA SOCIEDADE



Devo começar dizendo que conheço o Botika, sou seu amigo e um admirador do seu trabalho tanto como escritor quanto como cantor e compositor. Já pelo Eduardo Paes sou totalmente o oposto. Não o conheço e não admiro o seu trabalho como prefeito do Rio, não votei nele e acho que o seu mandato tem desmatado a vida carioca. No entanto consigo separar minha relação com os dois para ter uma opinião imparcial do que aconteceu na madrugada daquele domingo no bairro do Horto, Zona Sul do Rio, quando o prefeito da cidade, humilhado e constrangido pela agressão verbal de um cidadão, respondeu acertando dois socos na sua cara.


Na tarde daquele domingo eu ainda não sabia de nada quando abri o computador para responder e-mails. Checando atualizações no Facebook vi um post do Botika contando que tinha levado um soco do Eduardo Paes e que sua namorada também tinha sido agredida pelos seguranças dele. À princípio pensei que era um trecho de um livro novo. Pensei, Opa, vem um novo livro do Botika por aí. A história era tão surreal que parecia ter saído da mesma imaginação que criou Uma Autobiografia de Lucas Frizzo. Até ri de alguns comentários que diziam se preocupar com o estado do narrador. Erro meu, depois que vi que a história, por mais surreal que fosse, não era literatura, tinha realmente acontecido. Entrei em choque. Encostei e pensei o que poderia ter acontecido. Com o passar do dia fui tendo mais informações (liguei para uns amigos perguntando, eu não quis ligar imediatamente para o Botika porque já imaginava a confusão que deveria estar pro lado dele naquele domingo). Aos poucos fui sabendo melhor do acontecido até o momento em que o prefeito Eduardo Paes mandou sua nota para a imprensa e a notícia foi reportada pela mídia impressa e veiculada na edição do Fantástico daquela noite.

As matérias da GloboNews e do Fantástico davam a impressão de pintar Botika como um vândalo, um maluco violento que deve ser mantido sob cuidados. Pois bem, deixa eu explicar. Botika é uma das pessoas mais doces que eu conheço. Um poeta romântico. Um artista à flor da pele. Conheço mais de dez pessoas (e deve existir mais de cem) que querem xingar o Eduardo Paes mas não conheço ninguém que queira bater no Botika. Me lembro até que uma vez fiz uma brincadeira com ele dizendo que votaria nele para prefeito. Brincadeira, claro, porque ele não tem talento nenhum para o ofício e porque seria uma perda muito grande para a cena cultural do país se ele se dedicasse à outra coisa senão à arte. Mas o Eduardo Paes tampouco tem talento para a profissão de político. O fato de ter respondido com agressividade física prova o quanto ele é despreparado para a posição.


Discordo da postura do Botika em xingar o prefeito. Eu nunca faria o mesmo. Não acho que xingar alguém seja um ato político ou revolucionário (no sentido de evolução, de modificador do estado das coisas), e sei que ele tem talento para reclamar e fazer valer sua opinião de uma forma bem mais criativa. No entanto conheço muita gente que tem um xingamento guardado na garganta para no caso do Paes cruzar a sua rua. A cena de uma pessoa xingando e a outra contra atacando com porrada é clássica entre os adolescentes, é imaturidade ver dois adultos conversarem da mesma forma. Se eu digo que nunca xingaria, pior ainda seria dar um murro numa pessoa. Se você não levou uma pancada na cabeça e perdeu a capacidade de raciocínio e discernimento das coisas, então você ainda sabe que por mais que sejam reações agressivas, xingar uma pessoa e dar um soco nela são duas coisas totalmente diferentes. A primeira opção pode gerar desconforto no receptor, ele pode ficar ofendido, magoado e querer se vingar, mas tem a opção de não escutar e ignorar o que está sendo dito. A segunda opção é violência física e não tem como ignorar o fato de que se levou uma porrada.


Agora vamos imaginar o seguinte. Numa madrugada de domingo no Rio de Janeiro, do lado de fora de um restaurante, o prefeito da cidade flagra um rapaz de trinta anos destruindo um monumento público. Ou vamos dizer que o rapaz estava enxotando um índio que estava dormindo no banco da praça, gritando “Aqui não é lugar pra você dormir, vai procurar sua tribo”. O prefeito vendo a situação decide xingar o rapaz de “Seu bosta, cuide da sua cidade, imbecil, respeite a população, vagabundo”. Então o rapaz, não gostando da reclamação, decide atacar o prefeito dando dois socos na sua cara. 


Manchete no dia seguinte: Prefeito do Rio de Janeiro é agredido por delinqüente. Se fosse num desses tablóides: Prefeito leva porrada na cara e malandro vai em cana. 


Mas a ordem da história, você sabe, não é bem essa. O prefeito seguiu a linha do homem de poder que não liga para as leis e sente-se capaz de sair distribuindo porrada pois nada acontecerá com ele. Entretanto a ironia está no fato de que Botika, ao receber dois socos na cara, automaticamente, sem saber, acabou revertendo o alvo. O prefeito não deve ter pensado nisso no calor do momento. Ele não deve ter pensado. Mas no dia seguinte ele sentiu. Um golpe de mestre. Enquanto batia, não era apenas no Botika que ele estava batendo. Paes acabou dando dois socos na própria cara.


Algumas pessoas estão nas redes sociais defendendo Paes, dizendo que ele tinha motivos para agir como agiu. Não posso acreditar que a mídia e as pessoas vejam justiça na resposta de Paes. Não posso viver numa cidade em que ser agredido por socos possa ser uma opção de defesa se alguém me xingar de bosta. Muito menos que o representante dessa cidade seja esse agressor destemperado. Eu acho que a gente tem que preservar a moral na sociedade. Farei questão de nunca deixar que as pessoas se esqueçam disso. Somos pobres, índios, artistas, desabrigados, desempregados, os menos favorecidos pela sua política, Eduardo Paes, e estamos cansados de levar esse soco na cara todos os dias.


Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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8 comentários em “UM TAPA NA CARA DA SOCIEDADE

  1. Marcelo Mac
    28/05/2013

    ótimo texto !

  2. Fernanda Lago
    28/05/2013

    concordo

  3. Rafaela Gimenes
    28/05/2013

    Obrigada.

  4. a.
    28/05/2013

    ótimo texto (2)!

  5. Jamais Direi
    28/05/2013

    Triste sociedade em que não se pode xingar um prefeito bosta pelo seu nome sem tomar porrada.

    Nada contra ou a favor a respeito dessa história do Botika com o Eduardo Paes, somos selvagens de dois modos, eu mesmo já arrumei confusão com político, tive minha casa invadida e fui ameaçado de morte por muito menos, mas tenho a impressão de que esse foi o primeiro ato legítimo (não fingido) do prefeito em todos esses anos.

    É claro, ele cagou tudo com o demagógico pedido de desculpas, como de praxe.

  6. plantiodavida
    28/05/2013

    Muito bom!!

  7. arte araka
    28/05/2013

    Sou carioca e o Botika me representa!

  8. monica botkay
    29/05/2013

    maravilhoso!!!

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Publicado em 28/05/2013 por em Gabriel Pardal.
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