ORNITORRINCO

A CERTEZA OBSOLETA


Basta lembrar daquele liquidificador vintage que resiste na cozinha de mamãe, funcionando perfeitamente e provendo sucos e vitaminas desde os anos 1970 – e compara-lo com meu computador Apple que, passados dois anos de sua compra, já começa a gaguejar, reclamar de dores no ciático e esquecer onde largou os óculos de leitura – para se ter certeza do que até uma criança, na prática, já sabe: a obsolescência programada é hoje uma das bases da economia mundial. As coisas são fabricadas já com prazo de invalidez, para que sejamos obrigados a troca-las por uma nova versão da coisa, prestes a estragar. 


Recentemente arranquei os dois dentes do siso que restavam em minha boca. Do apêndice já me despedi há anos, mas mantenho as amídalas como um último adorno de minha ancestralidade primata. Parece que, com o caminhar da evolução, em breve não teremos mais os dedos mínimos do pé, mas, até que cheguemos lá, só me falta retirar as amídalas para me tornar a versão disponível mais atualizada de mim mesmo. Não tenho nada além aqui que precise de update para que Charles Darwin possa se sentir orgulhoso de mim.

Porém, a obsolescência programada do corpo sempre chega, ainda mais infalível que a que o fantasma de Steve Jobs e seus camaradas preparam pra nós. Filosoficamente, é nisso que baseamos nossa vida: na certeza de que uma hora a máquina começa a pifar. Diferentemente de um computador, no entanto, nesse caso o sonho é que o corpo seja como o tal liquidificador de época: não dê defeitos, funcione bem e por muito tempo, até que pare de funcionar de uma vez só, sem drama nem espetáculo.

Ainda não é possível comprar um iFígado, um iCoração ou um iDente com a facilidade que substituímos um iPhone quebrado, e por isso, o jeito é se cuidar mas também deitar e rolar. Certas alegrias que, em princípio, fazem mal para o corpo, podem ser libertadoras e prazerosas de tal forma que não haverá dieta ou exercício físico que poderão substitui-las – dentro dos limites da parcimônia e elegância, é claro, pois fumar crack e depois fazer yoga para compensar, por exemplo, não me parece exatamente uma fórmula de sucesso.

E sempre haverá a história da avó do amigo que fumou até os 105 anos sem uma tosse sequer ou do atleta vegetariano que morreu do coração aos 20 para concluirmos que a vida é um tanto aleatória. Logo, talvez a fórmula seja mesmo essa: Marlboro Lights e alimentação saudável. Exercício físico e o chope de cada dia. Uísque e psicanálise. Rúcula e biscoito de chocolate – ou qualquer outra coisa que te faça feliz. Sorte de quem tem tesão em carne de soja e natação – suas chances são maiores, ainda que a vida não ofereça qualquer garantia ao consumidor.


Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 26/05/2013 por em Vitor Paiva.
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