ORNITORRINCO

ABRAM AS PORTAS DAS CADEIAS, DOS HOSPÍCIOS, DOS ZOOLÓGICOS!



Tenho ouvido por aí um furor de vingança, uma vontade de, na porrada, resolver tudo. A pauta do dia para solucionar a violência urbana é a redução da maioridade penal. O desejo sanguinário da galera é jogar todo mundo num porão medieval e que se matem por lá. O que eu, um cidadão de bem, tenho a ver com esse bando de delinquentes juvenis?! No conforto do meu lar, lá da minha infância regada a toddynho gelado, fico pensando o que leva uma criança ou adolescente a enveredar pelo mundo do crime. Só me vem a certeza de que são questões muito profundas, com muitas conexões com o cidadão de bem que acha não ter nada a ver com isso. A solução vingadora, estilo Charles Bronson, de meter todo mundo em cana, diante de um sistema carcerário precário, superlotado e extremamente cruel é desumana. Entrando aos 16 anos na grande maioria dos presídios brasileiros até a Madre Teresa de Calcutá sairia uma criminosa tarimbada. Melhor universidade não há. Vamos abrir as portas dos presídios! Que se coloque um fim na ideia do encarceramento, da supressão da liberdade, e vamos encarar os problemas sociais que levam ao crime.

Esse grito radical para abolir a existência das prisões, nos moldes que hoje existem em nosso país, vem da lembrança de meu tio tataravô. O velho Bernardo Guimarães, autor da Escrava Isaura, só pra ficar no hit pop do escritor que também era juiz. Nos idos de 1860 foi transferido para a comarca de Catalão, no interior de Goiás, e por lá ficou quatro anos como juiz de direito e delegado. Quase um xerife do far-centro-oeste brasileiro. Bernardo, republicano e abolicionista, encontrou a cadeia da cidade em péssimas condições de conservação, com presos esqueléticos, mortos de fome, que daqui a pouco escapariam por entre as grades sem esforço. Ordenou uma reforma e compra de comida. A bordoada foi grande ao descobrir que não havia grana nem pra alimentar os detentos. Fico imaginando um escritor, um poeta, um cara que dedicou a vida à criação diante desse cenário. O que eu faria? O que você faria? O que ele fez? Abriu as portas da cadeia, se o Estado não tem como manter encarcerados com dignidade esses infratores, que eles tenham a liberdade para buscarem seu alimento. Bernardo era juiz e não carrasco. A verdadeira história não tem verdade, tem muitas versões. Muitos livros sobre história da literatura brasileira comentam esse caso. Alguns dizem que Bernardo não soltou ninguém, tudo não passou de perseguição política. Para Antônio Cândido e Alcântara Machado o velho Bernardo abriu a porta da cadeia e foi exonerado a bem do serviço público. Para Basílio de Magalhaes, seu biógrafo, BG montou um júri sumário e absolveu os 14 presos num só dia os colocando de volta ao convívio da sociedade. Fato é que foi processado, algumas versões contam que divisões foram enviadas para prendê-lo, mas que ele teria sido defendido pelos detentos libertos. Conta-se ainda que era amigo de vários dos presos, companheiro de rodas de viola e bebedeira. A propaganda para atingir a imagem do juiz foi intensa, o medo de ter de volta às ruas criminosos perigosos mexeu com a cidade, com o país. Bernardo foi radical em seu gesto que repercutiu na capital do império, gerando inúmeros artigos de jornal prós e contra a decisão do juiz escritor. Em sua defesa, escrita de próprio punho, foi irônico, sarcástico e soube dobrar a lei com a retórica, como talvez tenham feito muitos dos que prenderam aqueles esfomeados. Defendendo-se das acusações de ser um homem bêbado e profissional displicente Bernardo não teve medo de assumir seus desejos e suas fraquezas da carne com a volúpia da literatura:

“O respondente não se inculcará por certo como modelo de sobriedade e de regularidade de conduta; solteiro e não tendo chegado ainda ao inverno da vida, ainda não se resignou a viver vida de cenobita, nem renunciou aos prazeres do mundo! Por isso mesmo é de temperamento melancólico, folga de se envolver na alegria dos festins, ama os prazeres da mesa e do vinho, a dança e as mulheres, a música e toda a espécie de regozijos, porque suavizam as amarguras desta vida árida e ingrata. Mas ninguém provará que prorrompesse em excessos escandalosos, nem que corresse após os prazeres e os festins em menoscabo de desempenho consciencioso de seus deveres. Se o respondente é inclinado aos prazeres, é porque é homem e acha-se por isso sujeito a uma das condições da humanidade, que sofre bem poucas exceções. O próprio denunciante, se não é algum anacoreta, o que não é de crer, não estará sujeito a essas fraquezas da humanidade?”

O escritor conta o que ouve e não o que houve. Para mim Bernardo absolveu os presos, abriu a porta da cadeia, na calada da noite se embrenhou numa roda de viola ao calor da fogueira e do vinho, dançando entre homens e mulheres, cantou antigas canções de liberdade recitando seus hinos ao prazer e à preguiça! Teve ordem de prisão decretada, fugiu pela janela dos que tentaram prendê-lo, foi defendido e se escondeu junto daqueles que soltara, até que pode voltar para se defender. Saiu triunfante do processo ao dizer que não havia libertado ninguém, apenas não havia prendido, por falta de contingente, quem realmente deveria estar atrás das grades. A ironia de Bernardo apontava a mira para os coronéis e políticos da região numa época em que se mandava na base da força e da porrada, quando ainda impunham a supressão da liberdade a crimes menores e tratavam os presos sem o mínimo de dignidade ou qualquer condição básica para a sobrevivência humana. Ops?! Mas ainda não é assim até hoje?


É por isso que me orgulho desse parentesco distante com o velho BG dos romances abolicionistas, dos versos satíricos, inventor do Elixir do Pajé, Viagra indígena do século XIX. Um homem que se deparou com uma situação irremediável e inverteu tudo radicalmente, expondo a todos os problemas ocultos no calabouço das prisões. Forçando até mesmo a imprensa oficial do império a se pronunciar sobre o caos que já assolava todo o país. Bernardo seguiu como juiz e delegado de Catalão até 1864 quando voltou ao Rio de Janeiro para trabalhar no Jornal do Comércio cobrindo as sessões do senado. Lá encontrou um jovem chamado Machado de Assis de quem ficou grande amigo. Os dois caminhando juntos pelas ruas do centro do Rio trocando ideias sobre política e literatura, Bernardo contando o causo de Catalão e Machado comemorando, contido, a decisão do juiz. E é evidente: Bernardo Guimarães é o Alienista do Machado. Não por ser louco e ter internado a cidade inteira, mas pela coragem alucinada de, ao deparar-se com toda a cidade encarcerada e somente ele solto, abrir as portas do hospício para que se discuta amplamente o que é loucura, quem são os criminosos, por que foram parar ali e como tratar essas questões tão delicadas.



Domingos Guimaraens é poeta, artista visual, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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2 comentários em “ABRAM AS PORTAS DAS CADEIAS, DOS HOSPÍCIOS, DOS ZOOLÓGICOS!

  1. yvonne maggie
    27/05/2013

    Domingos!!! Que beleza! Que forma incrível de escrever! Viva BG e viva DG!!!

  2. Domingos obrigada por esse lindo texto.

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Publicado em 25/05/2013 por em Domingos Guimaraens.
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