ORNITORRINCO

O TELEFONE TOCA



Quando era menor, trocava cartas com meu pai. Trocávamos cartas mesmo morando juntos. Com direito à envelope, data, selo, correio. Mas não eram cartinhas comuns sobre como você está ou sobre o que fez na semana. Trocávamos histórias inventadas. Pequenos contos. Narrativas de sonhos. Trocávamos impressões e olhares sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre nossos universos particulares e, por vezes, paralelos.


Quando fui morar com meus padrinhos (na adolescência), mãe no exterior e pai em São Paulo, continuamos trocando correspondências. Mas dessa vez sem correio, que a graça estava em entregar quando nos víamos, para só ler quando um ou outro fosse embora. Mas o teor continuava o mesmo, por vezes entrecortado com algumas daquelas perguntas comuns, embora carinhosas e sinceras.

Sempre fomos avessos à telefone. Cada um a seu modo. Cada um por seus motivos pessoais. Não me adapto. Esqueço do lado da cama. Esqueço na bolsa. Esqueço que existe. Esqueço. O de casa (o fixo), quebrou três meses atrás. Continua lá, no cantinho da mesa de trabalho. Sou virginiana não muito convicta, mas sou. As coisas quebram, eu conserto. Não é esse o motivo. Gosto dele lá. Estático. Atravessando os dias. Silencioso. Tornando-se ultrapassado, len-ta-men-te.



Teve morte lenta mesmo, o coitado. Apitou por dias. Talvez tenha morrido de bateria fraca. De velhice. Ou de descuido, descaso mesmo. Talvez tenha sido tão ignorado que morreu de tristeza. Jaz ao lado de uma secretária eletrônica, ainda mais antiga. Era mais divertido com ela. Deixava mensagens disparatadas ou simplesmente poesias e só me deixavam mensagens divertidas por conta disso. Ouvia risadas sem fim, gravadas. E de quebra, espantava cobranças e telemarketing.


Hoje tenho um celular que serve para atender ligações. Quando eu quero, claro. Tenhor horror dessa mania que as pessoas tem de achar que só porque você tem um celular é obrigado à estar disponível. De pessoas que almoçam falando no celular. Que levam o celular pra cama. Tem coisas muito mais interessantes pra se fazer na cama, afinal.


Quase não ligo, salvo em emergências. Gosto muito das palavras ditas olho no olho, ou das palavras escritas alma na alma. Gosto muito dos encontros, de estar próxima. De ações e reações. Do ballet de mãos e braços enquanto as pessoas se comunicam. Ou daquele silêncio compartilhado, que tanto diz.


Meu celular anda meio cabreiro. Sabe que seu tempo está se esgotando. Deu pra soar alarme fora de hora, só pra chamar atenção. Nem ligo.


Sou mais o meu tempo, amigo.



Laura Limp é atriz, poeta, fotógrafa e diretora de marketing digital.

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Um comentário em “O TELEFONE TOCA

  1. Rafaela Gimenes
    23/05/2013

    Tendo a ter a mesma concepção sobre o uso exagerado dos telefones celulares, mas meu tempo é agora.

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Publicado em 23/05/2013 por em Laura Limp.
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