ORNITORRINCO

LARGO DO MACHADO IMPRESSIONISTA


Ilustração: Kai Samuels-Davis

O maravilhoso momento de pegar os óculos novos na ótica mas não poder sair de lá usando eles porque não se enxerga absolutamente nada com os óculos novos, mas se são os meus óculos novos, feitos sob medida para mim, e se tendo sido feitos sob medida para mim, por que os quadrados estão trapézios e as pedrinhas portuguesas do chão estão na altura da minha cintura e a moça da ótica cabeçudíssima tipo num efeito de photobooth e o largo do machado é um quadro impressionista que eu não sei se está longe ou dentro de mim e as crianças de colo agora têm quadril tão largo e a banca de jornal vai despencar a qualquer momento sobre a casa do pão de queijo e você pede pra moça confirmar se a lente está certa porque você quer o seu mundo antigo de volta e ela confirma que a lente está certa mas o seu mundo antigo não obedece a essa informação, mas e se meu grau não mudou de lá pra cá e se com meus antigos óculos eu via bem o antigo mundo, por que é que não vejo nada com esses se são os mesmos até certo ponto e quem foi que contou pros meus olhos que esses são os óculos novos e será que estão tímidos por falta de intimidade com o objeto novo ou eram meus óculos antigos que estavam gastos de tanto ver e tem o tempo dos novos aprenderem a andar, ou são os óculos dizendo pro cérebro uma coisa que ele não quer escutar, e se eles foram feitos pra servir para mim, por que parecem ser os de outra pessoa, e será que isso não aconteceu de fato, será que em algum lugar do mundo agora alguém estranha o mundo através dos meus olhos extraviados sem saber que os dele estão comigo?, e o que mudou em mim que se desacostumou à correção de um defeito que é meu, por que enxergo melhor sem a correção do que com ela?, como se meu cérebro rejeitasse a colherada de remédio que eu lhe ofereço, ou será que ele não gostou foi da armação?, e a moça só me diz é assim mesmo daqui a pouco passa e eu sei que a moça tem razão que é assim mesmo e daqui a pouco passa, mas e quem é que cuida de mim enquanto o daqui a pouco fica, a moça não está dentro dos meus olhos, e eu também não sei como a moça me vê, e esse mistério de que meu corpo sou eu existindo e de que quando eu morrer é porque foi ele que parou.



Keli Freitas é atriz, dramaturga e colunista do ORNITORRINCO.
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3 comentários em “LARGO DO MACHADO IMPRESSIONISTA

  1. Ericky Tostes
    22/05/2013

    Lindo, lindo…

  2. Bárbara
    24/05/2013

    Quem sabe se seus óculos novos não estão excelentes e agora vc está vendo o mundo como ele é? Os antigos estavam gastos, vc mesma disse… 😉

    é bom, de vez em quando, desacostumar.

  3. Aline Miranda
    29/06/2013

    pois, entendo perfeitamente.
    (e eu tinha vontade de ser pintora só para fazer um quadro do mundo visto por uma míope sem óculos.)

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Publicado em 21/05/2013 por em Keli Freitas.
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