ORNITORRINCO

BURACO, A VIDA


Carlo Van de Roer
Um dos meus melhores amigos é um exímio jogador de xadrez. Estudamos juntos e no nosso colégio tínhamos aulas de xadrez. Era a última aula da sexta-feira, tentávamos aprender movimentos e estratégias enquanto na verdade a maioria dos colegas estavam doidos para ir embora. Nosso colégio também programava alguns campeonatos internos entre outros colégios do nosso estado (estou falando da Bahia, aham). Durante essa época eu adorava passar as tardes jogando xadrez, desafiando primos, amigos, indo ao clube de xadrez e às praças onde todo tipo de jogador, profissional ou amador, sentava para jogar. A grande maioria dos meus amigos, entretanto, preferia passar o tempo jogando War. Naquela época – e talvez ainda hoje seja, não sei –, era o jogo de tabuleiro mais jogado entre os moleques de 15 anos. Entendo o fascínio que War provocava nesses meus amigos, uma diversão ágil da conquista global (globalizada e capitalista e imperialista blablabla). Entretanto War nunca me seduziu por esses mesmos aspectos e porque me parecia um jogo muito baseado no lance da sorte de dados. Na época eu dizia que não queria jogar um jogo que se baseava na pura sorte, eu ficava facilmente irritado quando estava com mais possibilidade de vitória e acabava perdendo por azar nos dados. Isso me irritava agudamente e por isso preferia me dedicar ao tabuleiro de xadrez estudando estratégias e lances. 


O tempo passou pra mim como um caminhão cheio de gasolina tombado pegando fogo na estrada. Não. O tempo passou pra mim como para um astronauta fumando um cigarro na lua. O xadrez foi perdendo espaço na minha rotina para umas trocentas de outras coisas que pareciam mais vertiginosas, abusadas, maliciosas. Muitas coisas aconteceram, como sempre acontece, e hoje não tenho nem peças nem tabuleiro. O último conjunto de xadrez eu esqueci – ou deixei – na casa de uma garota com quem estava ficando. Passávamos a noite conversando, bebendo vinho, jogando xadrez e ouvindo música. Mais bebendo vinho e conversando do que jogando xadrez, é verdade, mas o tabuleiro estava ali. E, embora eu fosse mais talentoso que ela no jogo, a deixava ganhar algumas vezes porque assim que é, assim que sou, assim que achei que deveria ser, que embora perdesse, na verdade eu sentia que estava a ganhar mais coisas que vencer num jogo. 

Hoje em dia a distração que ocupa meus dias e noites e madrugadas é o jogo de Buraco. Aquele velho jogo em que você via seus pais e tios vararem a noite jogando e discutindo pontuações, enchendo a cara e se irritando uns com os outros. Se você não vivenciou uma cena como essa então não teve o mesmo crescimento que eu tive lá na Bahia. A tradição não fazia parte apenas da minha família não. Lembro de dormir na casa dos amigos e ver seus pais pontuando suas canastras acompanhados por garrafas de uísque. Pois bem, hoje é esse bom e velho jogo de Buraco (na modalidade Aberto) que empolga meu coletivo, meus amigos e nossas madrugadas. 



Avanço no baralho ao mesmo tempo que me afasto totalmente do xadrez. 


Olha como é cheia de metamorfoses essa vida. Fui abandonando o xadrez à medida que percebia que era um jogo demasiadamente matemático onde todas as possíveis aberturas e os melhores lances já tinham sido mapeados de modo que teriam melhores chances no jogo aqueles que tivessem memorizado um maior número de ataques e contra-ataques possíveis. A necessidade de ser um especialista rompe com toda a minha ideia de diversão. Isso cabe à mim em todas as ocupações na vida. Fico de saco cheio quando sou obrigado ou pressionado como escritor, compositor, ator, diretor, no que se refere ao controle ou conhecimento exato do que estou fazendo. Não me encaixo na vida assim. É por isso que compreendo o jogo de Buraco como uma metáfora para a vida. Logo eu que não queria jogar War justamente pelo peso da sorte em suas partidas, fui me encontrar num jogo que também tem lá muito de sorte.

Há um tempo eu escrevi um poema que tinha esse primeiro verso:

P.A. acaba de perceber
que por ter se dedicado durante toda a vida
para se tornar um enxadrista profissional
ele passou a entender o mundo
por uma relação de táticas e xeques-mates.

P.A. são as iniciais do amigo que falei no início deste texto. Ainda não mostrei este poema para ele porque ainda não está pronto. Continua assim:

Pois então, imagine a reação de
S.W., prostituta, ao perceber
que no mundo
não é dando que se recebe

P.L., poeta, ao perceber
que o mundo
não é dos que fazem versos
ao desabrochar de uma flor

A.C., oftalmologista, ao perceber
que o mundo
não é uma questão de enxergar o mundo

E por aí vai incompleto.

Como eu disse, o jogo de Buraco pode ser uma boa metáfora de como enxergo o mundo e a vida. Onde um lance de sorte é quase sempre mais importante que qualquer coisa e muitas vezes é ela quem define o concreto.

No Buraco há a falsa ideia de controle e estratégia, embora sim, exista controle e estratégia. No entanto descartar ou catar a carta errada pode acabar com todo o desenrolar do jogo. Quero dizer que, como no Buraco, na vida temos uma certa capacidade de controle onde muito controle pode significar o mesmo que pouco controle, e saber o momento exato para agir pode ser uma boa forma de se enganar do fato de que não temos controle algum.

Duvido de campeonatos de Buraco. Porque não é um jogo que se possa provar exatamente a qualidade de um vencedor. Um grande vencedor aqui pode ser um grande perdedor na partida seguinte. Não há melhor nem pior. Ao contrário do xadrez, não há apenas uma única melhor jogada. No Buraco há uma infinidade de jogadas e todas podem estar certas. Me lembra Jorge Luis Borges, “a vida é uma cascata de várias direções possíveis e a gente escolhe apenas uma”. Por isso mesmo é um jogo recreativo (e pra mim essa é a melhor palavra de todas, tudo fica melhor e mais leve quando é recreativo). Por isso não me irrito quando perco. Só existe uma explicação pra quando se perde, a de que você teve pouca atenção durante a partida ou a de que embora tenha feito o que pôde, existe um outro fator, esse que é maior de todos, presente tanto na mesa quanto na rua, que determina todas as batidas e que por mais que você reze e imagine e precise, aquela carta pode não estar lá.

Este texto é dedicado à R.V. que morreu atropelado enquanto atravessava o viaduto em cima do seu velho skate.



Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Um comentário em “BURACO, A VIDA

  1. cardealnordeste
    17/05/2013

    “No tabuleiro de xadrez a mentira e a hipocrisia não sobrevivem. A combinação criativa desmascara a presunção da mentira: o ato desapiedado que culmina com o mate contradiz o hipócrita”.

    Enmanuel Lasker

    A vida definitivamente não é como o xadrez, não só por questão de sorte, mas porque o xadrez é um jogo onde não há como trapacear ou serem cometidos erros de arbitragem; uma arte ética, o xadrez é grande por isso. Além disso, o xadrez de alto nível exige um tanto de talento inato. Assim como a música e a matemática é das poucas artes, ciências onde se observa o surgimento de prodígios.

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Publicado em 17/05/2013 por em Gabriel Pardal.
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