ORNITORRINCO

O PROCESSO

Nunca pensei que o ato de pedir demissão de uma empresa pudesse me causar tanto transtorno. Não pelo gesto em si, que para mim provocou um verdadeiro e prazeroso alívio, em se tratando do fardo, ops… digo, do cargo que ocupei nos últimos 14 meses. Ser repórter de jornal impresso não tem nenhum glamour ou luxo como aparenta o universo fake criado por Hollywood ou o mundo asséptico das novelas globais.


Uma pesquisa realizada recentemente nos Estados Unidos elencou 200 ocupações e consultou o povo americano para fazer um ranking mostrando os melhores e piores empregos de acordo com a opinião validada pela própria sociedade. Não foi uma surpresa ver que “repórter de jornal impresso” figurou na última posição desta longa lista, atrás de funções como lenhador, por exemplo. Nada contra os lenhadores, até porque o lenhado aqui sou eu.

Não é que o meu espanto tomou forma quando eu descobri que, na leitura dos americanos, o cargo de atuário foi considerado a melhor entre as opções? Atuário? Eu sou mesmo otário. Não sabia nem do que se tratava até ver divulgada esta bendita pesquisa. Pois agora sei que é algo como um especialista ligado ao mercado financeiro. O tipo de pessoa que está muito próxima do dinheiro. Da mesma maneira que nós jornalistas (em especial os de veículos impressos) estamos distantes da bufunfa.

Mas o assunto era a minha demissão. Uma infeliz situação. No início deste processo (há cerca de um mês), eu até cheguei a pensar que estes desencontros, desacordos e desentendimentos entre o setor de Recursos Humanos, o laboratório responsável pelos meus exames demissionais, o ambulatório médico da minha (ex) empresa e o sindicato dos jornalistas fossem só o reflexo natural do meu último inferno astral. Só que cheguei nos 29 anos e o caos se afeiçoou à minha pessoa. Uma coisa nada boa. Entrou água na canoa.



Pois é, meus caros… Já até mudei de trabalho, melhorei meu salário, mas não cheguei nem perto de virar um atuário. Pelo contrário. Dinheiro para mim, só o imaginário. Ficar rico? Só no Banco Imobiliário. Mas na vida real, a briga continua, o sufoco permanece, o stress se enamorou com minha rotina e essa novela não termina. Não tem Turquia e nem Carminha, mas já está fazendo sucesso com a vizinha. Com meus amigos e os que me dão ouvidos.

Estou quase telefonando para o Manoel Carlos, o Sílvio de Abreu ou o João Emanuel Carneiro para pedir uma consultoria sobre o melhor atalho para alcançar o capítulo final desta novela. Porém, como não sou muito afeito a teledramaturgia brasileira, vou então apelar para a atmosfera da literatura checa. Vejo-me mais como o Joseph K., em O Processo, obra primorosa de Franz Kafka, do que como o Capitão Théo, de Salve Jorge, obra horrorosa de Glória Perez.

A grande diferença é que não recebi voz de prisão ao acordar no dia do meu aniversário de 30 anos, como tragicamente ocorre com o protagonista do livro. Acabei de fazer 29 e a polícia nunca me procurou. Amém, meu senhor. Mas assim como Joseph K., me vejo enredado numa atmosfera “burrocrática” que parece não ter fim e que do mesmo modo que um personagem kafkaniano, não consigo compreender porque estou metido nisso. Quem me jogou este feitiço? Para com isso!

Já conversei com o chefe, já fiz exame, já escrevi carta, já entreguei todos os documentos, já expus meus sentimentos, gastei todos os xingamentos… O que mais falta fazer? Ajudem-me a compreender. Tudo por uma tal de homologação da rescisão, meu irmão. É este o meu capítulo final. E para fazer isso preciso ir à redação de outro jornal. O maior concorrente daquele que não me deixa ir embora. Mesmo eu já estando fora. É porque lá trabalha a presidente do meu sindicato. Mas como sou um cara chato, afirmo aqui que este sindicato não me representa. Muito menos a sua presidenta.

Só que minha rebeldia, indignação e emputecimento de nada servem para impedir que esta lógica cega e burra continue em movimento. Por isto, por esse disse-me-disse e por várias outras burrices, que até hoje não consegui rescindir meu contrato com o jornal onde atuei. Ai, ai, ai… chega cansei. E olhe que já estou há mais de duas semanas no meu novo trabalho. O que só me ajuda a concluir: caralho… abandonar um trabalho dá um puta de um trabalho.


Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO. 

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Informação

Publicado em 15/05/2013 por em Gabriel Camões.
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