ORNITORRINCO

MORDIDA NA MAÇÃ





Tenho visto por aí essa notícia de que tramita nas altas esferas surrealistas do poder um projeto para a cura da homossexualidade. O projeto da “cura gay” pede a extinção de dois artigos da resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP). Um deles impede a atuação dos profissionais para tratar homossexuais e qualquer ação coercitiva em favor de orientações não solicitadas pelo paciente. O outro determina que psicólogos não se pronunciem de modo a reforçar preconceitos em relação a homossexuais. Passando pela comissão de direitos humanos ainda teria um longo caminho por Câmara dos Deputados e Senado até ser aprovado. De qualquer forma recebo essa notícia com profunda tristeza e repúdio. Fico lembrando de alguns viados brilhantes e, antes disso, da origem da palavra viado. O viado não vem do animal veado, que se escreve com a letra E, viado vem de transviado, aquele que transgride as normas do comportamento, derruba o monótono status quo das sociedades viciadas no mais do mesmo. Meus maiores ídolos são pessoas transviadas, viados ou não. Numa rápida lista poderia citar Safo de Lesbos, Elizabeth Bishop, Oscar Wilde e Alan Turing. Escolho esses quatro nomes por seu ativismo, nas mais diversas eras da humanidade, numa luta por uma liberdade total para o corpo, sua libido e seus desejos. Dessa lista talvez destoe o nome de Alan Turing, que não era escritor, mas sua história é a que mais me veio à cabeça quando vi a notícia da “cura”.


Oscar Wilde foi preso e condenado a trabalhos forçados por “cometer atos imorais com diversos rapazes”. Muitos poderiam pensar: “Ah! Isso foi o século XIX, como eram brutos”. Mas a história de Alan Turing mostra que o demônio da castração continua vivo. Em 1952 a homossexualidade ainda era ilegal (eu repito: ilegal) no Reino Unido. Turing foi processado por ser viado. Turing é, simplesmente, um dos cientistas mais transviados do século XX, pai dos modernos computadores, ídolo maior de Steve Jobs, por exemplo, sem ele não teríamos um PC ou Macintosh por aí. Durante a Segunda Guerra Mundial seus estudos, algoritmos, sua máquina de Turing, decifraram os códigos criptografados da frota naval alemã e salvaram o mesmo Reino Unido que depois o condenou. A pena de Turing foi das mais cruéis que existem no mundo, a castração química. Este processo é uma terapia que funciona com a injeção de hormônios femininos nos corpos daqueles que cometeram “crimes sexuais”. A aberração ainda é usada em países como os EUA nos dias de hoje. Além de diminuir a libido nos homens há uma série de severos efeitos colaterais que transformam a vida da pessoa num inferno de dores. Tudo isso me faz lembrar os X-Men, quadrinho criado nos anos 60 nos EUA, por Stan Lee, para comentar o preconceito em nossa sociedade. Na genial história de Lee a humanidade passa por um salto evolutivo e vários seres humanos ganham super poderes. A sociedade os vê como uma ameaça e soluções como o encarceramento, o extermínio e a “cura química” são postos em prática numa escala global, provocando uma guerra entre seres humanos e seres humanos. Bem típico. Sofrendo com os tratamentos da “cura química” Alan Turing teria se matado em 1954 comendo uma maçã embebida em cianeto.

Pensando nessa maçã da morte de Turing eu não tenho dúvidas de que a maçã mordida da Apple é uma homenagem a ele. Ainda mais sabendo da adoração de Steve Jobs por seu mestre e lembrando que, em seu primeiro logo, a famosa maça mordida ainda tinha as cores do arco-íris, símbolo da luta pela liberdade gay. Arco-íris que também é símbolo de Oxumaré, a serpente arco-íris, o orixá que é seis meses macho e seis meses fêmea. Na verdade o primeiro logo da Apple era Isaac Newton sentado embaixo da macieira com a reluzente maçã que lhe abriu a cabeça para um novo universo de possibilidades. Transviado! A maçã mordida também é a maçã de Adão e Eva, do paraíso, fruta símbolo do conhecimento, do desejo, da luxúria. Depois de mordê-la há mesmo que ser expulso do paraíso, cair num mundo que se abre sem as perfeições paradisíacas e se mostra em sua crueza de desejos carnais tão sublimes, que se abre em milhões de possibilidades de paraísos artificiais tão fugazes quanto eternos. Um mundo do saber que nos lança muito além das ideias culturalmente impostas sobre aquilo que é natural, normativo, impositivo. Quando Prometeu entrega o fogo aos homens já era, agora é Oxumaré quem manda, seis meses aqui, seis meses lá transviando as regras da moral e dos bons costumes.


O que mais me impressiona sobre a bancada evangélica que prega a “cura homossexual” ou a igreja católica que também condena o homossexualismo é que a Bíblia começa com um gesto de transgressão. Não era pra morder a maçã. A humanidade só existe porque um homem e uma mulher, transviados, transgrediram as regras e partiram pra cima dos desejos. Assim uma porta se abriu e um anjo os guiou para um mundo de prazeres e dores nunca antes visto, um mundo que não deve ser conservador, um mundo no qual podemos influir, transformar, transgredir, transviar.



Domingos Guimaraens é poeta, artista visual, doutorando em Letras e colunista do ORNITORRINCO.
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Um comentário em “MORDIDA NA MAÇÃ

  1. yvonne maggie
    14/05/2013

    Genial, Domingos!!!

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Publicado em 14/05/2013 por em Domingos Guimaraens.
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