ORNITORRINCO

SOBRE VOOS




Eu não gostaria de começar este texto sobre “o que gurias pensam na primeira transa com um homem aleatório” enumerando, numa espécie de lista, as minhas primeiras transas mais significativas, sejam elas boas ou ruins, num tom conselheiro barato que seria mais digno de uma revista para adolescentes. Tive ainda outro problema: não queria que minha fala fosse dominada por uma voz da experiência, fajuta, é claro, e que tudo o que dissesse aqui reverberasse como autoajuda sexual da pior espécie.


Digo, logo de cara, que não sou a pessoa mais indicada para falar sobre “o que as gurias pensam numa primeira transa”; primeiro, eu sou uma garota e minha fala está totalmente influenciada, não sendo nem um pouco neutra; segundo, como dificilmente as meninas ousam falar mal de seus parceiros sexuais, me basearei, meio sem escapatória, nas minhas próprias experiências; terceiro, não queria que isto daqui acabasse se tornando uma exposição de um diário íntimo; quarto, talvez eu não consiga escapar de mim mesma e de minhas próprias impressões, mas juro que tentarei ser o mais imparcial possível sem, é claro, parecer uma conselheira sexual.

Do que já ouvi falar por aí, entre mesas de bar e sofás aconchegantes com pipoca, é que há uma certa preocupação feminina exagerada com o tamanho do pipi do rapaz. Este questionamento sempre me pareceu, além de infantil e ingênuo, uma forma de a menina demonstar que estava aberta para falar de sexo naturalmente. É como se, com essa pergunta, ela declarasse que gosta de falar sobre sexo e que não se sente intimidada com o assunto. Pra mim, tamanho nunca foi documento; mamãe, desde pequena, sempre me ensinou que três centímetros bastam para fazer uma mulher gozar; portanto, se um pipi tiver mais de três centímetros, eu já estou feliz. Gostaria que essa preocupação fosse desmitificada entre o círculo feminino: ter um pau grande não é sinônimo de bom sexo. Já me deparei com alguns de mais de vinte centímetros e posso afirmar que não gosto deles; são sinônimo de tortura, de minha incapacidade de engolir uma coisa daquelas com profundidade e perícia; paus grandes são sinônimo de sexo anal dolorido e resquícios de sangue. Definitivamente, o tamanho de um peru não me é relevante. Engraçado é que, quando você transa com alguém novo e conta para suas amigas (sim, nós também contamos pra nossas amigas, caso você não saiba), a primeira pergunta que vem não é se foi bom ou ruim, mas o tamanho do instrumento. Fico imaginando, cá com meus botões, o porquê do interesse no pau que eu acabei de chupar e tendo a crer que é inveja ou cobiça. Se não é isso, então, por qual razão eu deveria fazer propaganda do peru alheio?


Outra coisa, mais secundária, quando o assunto na primeira foda é cu. Uma vez, lá vem mamãe de novo, ela me perguntou, fazendo o café, se eu já havia dado meu cu. Fiquei meio desorientada com a pergunta matinal e titubeei. Ela disse que nunca e ouvi pela milésima vez: “aqui só sai, não entra”. Acho que mulheres admitirem que dão o cu (e que gostam disso sem querer provar nada para outras mulheres – porque gostar de dar o cu é uma propriedade, ainda, prostituída) é muito raro, muito menos “de prima”. Uma vez, tendo uma papo pós-transa, F. me contou que muitas mulheres fazem cara feia, em público, quando o assunto é cu, mas cansou de ver essas mesmas mulheres, na cama dele, pedindo para ter o cu penetrado. Não sei o que elas pensam de dar o cu numa primeira transa; talvez sejam aquele mesmo tipo de mulher que acredita que é feio dar num primeiro encontro, que dar num primeiro encontro significa ser uma “mulher fácil”; e o que significa dar o cu num primeiro encontro? Bem, eu prefiro nem imaginar, porque, provavelmente, é baixaria.



Há ainda um outro mistério ou suspense em relação à primeira foda que diz respeito ao sexo oral. Muitas amigas já me disseram que não chupam logo de cara, mas que não veem nada demais (e até acham muito bom) quando o dito as chupam, com a explicação óbvia de que é preliminar. Acho essa situação muito injusta e é, até mesmo, retrógrada. O primeiro sexo para essas meninas (que não são mais virgens e que possuem uma experiência, mesmo que pequena) é baseado no mantra materno de “só venha a nós o vosso reino” e, como salienta mamãe, “no cu do outro não vai nada”. Bem, não é bem no cu, que foi assunto de outro parágrafo, mas evitar, por uma questão moral, o boquete é um pensamento conservador.

Sinto, após todas essas observações, que as gurias são, ao menos no que ousam admitir em público, muito conservadoras na primeira foda por receio de serem taxadas de putinhas, piranhas, safadas e de outros adjetivos mais impróprios. Talvez eu esteja no círculo de amigos errado, mas tendo a crer que não. A primeira foda é sempre um experimentalismo, uma descoberta do outro e de si mesmo. Em minha última experiência, devo admitir que falhei. Acabei levando os resquícios, os gostos e o tesão de uma relação passada para uma nova e constatei que nem todo homem aprecia uma garganta profunda no primeiro encontro. Se fosse para dar um conselho, (olha lá, não consigo escapar) eu diria que fazer sexo é perder os limites, é se misturar, é se sujar do outro, se emporcalhar e deixar o prazer fluir. Quando isso não acontece, primeiras fodas tendem a ser ruins.


Pensando no que escreveria aqui, fiquei matutando o que categorizaria uma foda boa em boa e uma foda ruim em ruim. Cheguei à conclusão cruel que, independentemente de gozar ou não, uma foda só é boa se me der a ânsia de “de novo, de novo”. Fodas medíocres não visam à repetição. É difícil chegar a essa conclusão, de que poucas primeiras fodas, por exemplo, me causaram essa sensação (além da de virar, dormir e querer que o dito se transforme em uma pizza e desapareça). O bom, na real, é não pensar, é agir conforme o instinto pede. Enquanto isso, estarei, como todas as outras, por aí, buscando em futuras transas alguém que, enfim e de novo, me faça voar.



Rafaela G. B. Gimenes paranaense de 22 anos, canceriana e mestranda de literatura. Escreve no blog www.engarrafaela.blogspot.com.

Anúncios

5 comentários em “SOBRE VOOS

  1. Bela Figueiredo
    13/05/2013

    acho de uma deselegância atroz falar sobre o tamanho do pau dos guris. por acaso é importante o tamanho da minha buceta? é coisa de mulher reprimida querendo pagar de fodona. aí aborda o tema pra “intimidar” os boys, posto que, para eles, tamanho de pau é importante sim, quase um fantasma, inclusive. sobre cu, boquete and garganta profunda: faço, fiz, farei, na primeira, na terceira, na derradeira. mas sempre que me der vontade.

  2. Rafaela Gimenes
    15/05/2013

    Acho que a questão da vontade, Bela, é o que configura uma boa transa. Não ultrapassar esse limite pelo outro também. Se sujeitar nunca é prazeroso (só se esse for o jogo 😉 ). Sempre quando minhas amigas me perguntam se devem dar o cu digo que só se elas quiserem isso; cu não é dever, boquete não é dever, garganta profunda não é dever, ménage não é dever; gozar não é um dever. Cada menina tem um tempo diferente e é bom respeitá-lo. Meninos também têm.

    Corrigindo: demonstrar e não “demonstar” como escrevi.

  3. Porra, mano. Não terminei meu café, Rafa.

  4. marlon tomazella
    16/05/2013

    Olha só, primeiro, acredito que as designações “garota” e “meninas” circunscrevem bem o horizonte da discussão, pois questões como a importância do tamanho do pau ou a reticência moral quanto a chupar ou não na primeira transa, ao menos nos meus círculos de amigas (não só as de hoje, mas as de há tempos), não é questão. E não é questão não por eu ser um homem com quem elas não compartilhariam esse tipo de coisa que, supostamente, compartilhariam com suas amigas mulheres. Não, isso não é uma questão importante entre mulheres. Acredito mesmo que o teu círculo de amizades não tem ajudado muito. Pelo jeito são realmente meninas, garotas, e não mulheres. Não tem como não tomar este texto por uma exposição de diário íntimo, não há contribuição real alguma quanto a fatores de fato importantes pra se sacar numa primeira transa, parece texto de revista Cláudia, só que mais esculaxado. Desculpa falar assim, mas… E uma última coisa: em relações corporais em que a intimidade de fato se desenvolve com o tempo, em que os corpos e os desejos lentamente se desvelam e passam a se compreender melhor, pouco importa como foi a primeira vez, pode até mesmo ter sido uma merda, pouco importa. O interesse em querer de novo também reside em outros lugares. O que é melhor só vem com o tempo. Esta suposta química do imediato até existe, mas pra coisa se aprofundar e o prazer recíproco ser melhor trabalhado e refinado, só com engajamento e tempo mesmo. Esta química duvido muito que se sustente sem um trabalho de adequações e descobertas de si e do outro. Acho pouco essa história de generalizar que todas as outras estão por aí querendo “voar”. Trepar é bom e fundamental; gozar é bom e fundamental, mas acredito que encontrar parceiros com quem a coisa role gostoso mesmo, depende de outros fatores que não têm muito a ver com o comportamento na transa. beijo

  5. Beto M
    01/07/2013

    Oi Rafaela, legal seu texto!

    Ao ler Kafka cheguei a conclusão que o ser humano busca, antes de mais nada o poder, o poder e o poder.
    Mesmo que esse poder signifique ter dentro de si o maior pau (e para nós homens, pau grande é poder) ou ficar naquelas de se fazer de difícil, controlar e exercer poder sobre o homem usando o sexo (sim, ainda tem mulher que faz isso…).
    Dar o cu e chupar na primeira foda significa deixar-se dominar, entregar-se. Pelo menos inconscientemente.

    E o pior de tudo é que perde-se a oportunidade de aproveitar o real prazer que as coisas e as sensações podem nos dar.
    Em vez de perguntar sobre o tamanho do pau, porque elas não perguntaram se o sexo foi bom e ela se sentiu bem com ele na transa, quantas vezes gozou, se o gozo foi intenso e profundo, se teve orgasmos múltiplos, se viu estrelas, se quer de novo, etc…?? A resposta é simples. Elas não perguntam porque isso não é importante!
    Talvez quando essas meninas amadurecerem e tornarem-se mulheres, venham a se importar com isso e sejam plenas sexualmente.

    Tua mãe está perdendo algo que poderia ser maravilhoso pra ela…

    Te digo que as melhores fodas (sendo as primeiras ou não) foram aquelas em que pude sentir que dei prazer, e recebi prazer sincero. Transbordamos de prazer, esse prazer que é o que nos leva ao sexo. E depois tive vontade de ficar no cheiro e no calor daquela mulher.

    Tenho um pau que está na média, nunca me faltou pau… rsrsrs Até porque o prazer de verdade, o diferente também é dado de outras formas. Orgasmos múltiplos e aquele gozo profundo e demorado não é provocado só com o pau, é um ritual de prazer que se aprende com o tempo e com a sensibilidade.

    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 13/05/2013 por em Rafaela G. B. Gimenes.
%d blogueiros gostam disto: