ORNITORRINCO

EU QUERO VC PRA SEMPRE NA MINHA VIDA



fim.
terminei um namoro.

eu, como bom saudosista acumulador romântico q sou, depois desse termino (e de todos os outros) fui dar uma olhada nas cartas das ex-namoradas e o que achei em comum em todas foi a parte em que escrevemos: eu quero vc pra sempre na minha vida.

se vc nunca usou, provavelmente já ouviu essa frase.

essas frases e outras são meio ridículas. me fazem rir. soam cliché. isso eu falo hoje, bem depois q o coração batendo forte na hora de encontrar já passou, depois de ir dormir sorrindo sorrindo sorrindo, depois de um encontro lá longe, depois q o pescoço dela é o único lugar do mundo q eu queria estar e depois q aquelas lágrimas do término estão sequinhas. eu falo do lugar seguro de um texto sobre aqueles sentimentos, mas a verdade é que todas as vezes q a gente descobre que não é pra sempre, dói e sempre é difícil. conforme a gente envelhece parece q dói menos, mas dói. não é sentir menos, é se familiarizar mais. dizem q se dói pra cacete é pq foi de verdade. isso sim é um cliché escroto. é meio q exaltar o sofrimento como forma de medida de intensidade de um sentimento. tem que doer pra ter sido de verdade?

fato é q dói e a gente sofre pq quase ninguém aceita bem o fim. e nao digo só o fim do “eu quero vc pra sempre na minha vida”, digo o fim em geral. a palavra fim deriva do latim “finis”(e não foi o Mussum q falou), que tb pode ser fronteira, limite.

esse nosso apego aos limites q a gente já conhece, à repetição, ao nosso medo de fim, de romper fronteiras, é daí que surge o “eu quero vc pra sempre na minha vida” como uma tentativa de agarrar em alguma coisa q seja eterna e torne ilusoriamente a nossa existência menos randômica e caótica. qualquer “eu quero vc pra sempre…” pode ter um fim a qualquer momento, mas a gente esquece de pensar nisso (ou evita) como se assim tudo acabasse sendo mais sólido e constante. não é o caso de ser pessimista e ficar com o foco em “poxa tudo tem um fim, ah tudo vai acabar q merda, buá buá vou me matar”, mas ter um pouco mais de consciência de que as coisas, boas ou ruins, são transitórias. pq sem essa consciência é q a gente se agarra ao que pode, esperando que não mude, que nunca acabe, e qdo a gente menos se dá conta: eu quero vc pra sempre na minha vida.

vc tb já passou por um término. e nessas horas o q é o melhor a se fazer pra aceitar esse fim? resposta: uma caixa.

é, uma caixa. faço uma caixa com lembranças. sou um acumulador e guardo uma caixa de cada ex-namorada com objetos que vai desde foto e ingresso, até chinelo, perfume velho, chiclete, borracha, bilhete e as tais cartas com juras de amor. tudo pra tentar me agarrar as coisas que eu acabei de escrever e ir contra aí no parágrafo de cima. eu penso: se virou caixa é pq não foi pra sempre. sem esse papo de pra sempre enquanto durou. pra sempre aqui é pra sempre: é ter filho, família, envelhecer, morrer, e depois que morrer e reencarnar e depois que re-re-re-encarnar e mtos karmas.

falando em karma, essa coisa dos ciclos e repetições e reencarnações mostram 2 coisas: como a gente é burro pra aprender, como somos saudosistas pra porra e como adoramos relembrar. querer relembrar é, em alguma medida, viver o passado e não querer que alguma coisa ali termine. isso de querer congelar os momentos é idiota. só te faz lembrar uma coisa: não, esse momento não vai se repetir. pq a gente tem q tirar foto de tudo q é momento legal e bonito? pra “registrar”? registrar o q? e não basta só viver e guardar na memória o q de fato vier a ficar na memória? e nem me venha com esse papo de botafoguense que relembrar é viver. viver é viver. e ponto. a gente tem é q viver mais, tirar mto menos foto e fazer menos caixas de ex.


tem as caixas, tem as marcas e as fotos. mas só uma coisa é pra sempre na nossa vida e a gente pode se agarrar. a inconstância. a mudança.


eu escrevo pra entender essa nova fronteira e aceitar essa mudança. pq eu não aceito bem o fim. tenho 6 caixas. ainda fico achando que o que termina para sempre me abandona, fica em um passado intangível q eu burramente insisto em querer tocar. fico pensando de forma romântica saudosista acumuladora dramática, sem aceitar bem q as brincadeiras, cheiros, intimidades, a manteiga atrás da orelha, o cerume, e tudo mais não vai se repetir nunca mais.

como a frase “eu quero vc pra sempre na minha vida” se transformou nesse texto. o que acabou, jamais nos abandona, apenas se transforma. tudo o que termina continua fazendo parte da gente. final e começo não são muito diferentes. é chato esse negócio de ciclos e de caixa, mas sem fim não dá pra começar.

ok. fim.



Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 11/05/2013 por em Franco Fanti.
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