ORNITORRINCO

EXAMINANDO UM CONSELHO OPACO




“Para que sabermos do teu sofrimento?”
– Mikhail Liérmontov

Eu sei, eu e você não nos falamos frequentemente e não que eu esteja deprimido, mas eu estou com essas ideias na cabeça de que tenho que fazer alguma coisa, te contar algo, sei lá, sobre os maus pensamentos que tenho por conta de não me dar com esse modo de viver aí instalado; dizer sobre os assassinatos que planejo e não executo; os suicídios que até hoje não cometi; algumas utopias amorosas que busco animar deixando de lado as convenções sociais.


Você pode me dizer que eu devo ser o que quero: “Vá em frente, seja escritor. Aceite seu trabalho e você se torna o que quer”. Você pode prosseguir: “Há advogados, médicos, artistas, escolha algo pra fazer. Não há muita alternativa de qualquer forma, pessoas nascem, outras ficam doentes, você tem que ganhar a vida. Ora vamos, estamos todos no mesmo barco furado. Fique bêbado, foda, compre qualquer coisa. Vá em frente e não se preocupe muito”.


Caro leitor, me desculpe, isso não vai diminuir minha angústia. Você não está ajudando. Será que você percebe? Que bobagem é essa com que você tenta apaziguar minha exasperação? Obrigado, eu admito que você está tentando ser atencioso, até me lê, embora impaciente, mas se nem eu sei exatamente onde estou querendo chegar com esse texto, como é que você pode me entender? Todavia está claro para você que eu quero chegar a algum lugar? Será que você entende que eu quero dizer algo de real, de concreto, algo transformador, pelo menos de mim mesmo?

Mas eu sou desconhecido, leitor. Anônimo para você e para o resto do mundo. Um escritor não evidente andando pelas ruas, percebendo a indigência, insone tantas noites, um homem que desterrado do espírito corrente do seu tempo sente as dores do mundo.



Compreende leitor que me sinto tantas vezes impotente e desarticulado para varrer toda a lama que cobre a vida desconfiada dos cidadãos de ‘apartamentos’, o qual me tornei, incapaz de silenciar o barulho agressivo das ruas, de retomar a comunicação partida pela indiferença da velocidade com que tudo é devorado?


Desculpe leitor te sacanear assim, como se estivéssemos tendo um diálogo nosso (eu sei, você não falou nada, mas deixa eu imaginar você proferindo todas essas tolices, imaginar que você não é um Bertrand Russell. Bertrand Russell, você me lê?). Mas que se dane, como você diz: “nós estamos todos fodidos, mais ou menos”.


Isso é uma paráfrase do que considero um dos melhores diálogos já rodados no cinema: a cena em que Travis Bickle pede conselho a Wizard no filme Taxi Driver.


Gosto tanto dessa cena, dessa conversa de contornos surreais, desse limbo entre a deficiência de se traduzir pela linguagem e o silêncio que pertencente ao reino do insondável, além do evidente envolvimento com o tema da vida contemporânea nas grandes cidades, que resolvi recortar o trecho do filme e postar na rede. A partir de então o vídeo passou a receber consideráveis e interessantes comentários.

A rigor o que se poderia comentar de um diálogo em que os envolvidos se quer sabem bem a respeito do que estão falando? Não seria colocar mais nonsense onde a névoa já está formada? Seria se essa conversa de pistas não significasse ela mesma um esforço inevitável de debater candentes temas da vida contemporânea e da própria condição humana.

Deixando de lado as colocações que salientam as soberbas interpretações de De Niro e Peter Boyle, ou dos que celebram a qualidade da cena e do filme como um todo, além de discussões de como Hollywood vem sendo incapaz de fazer filmes dessa textura, muitos assinalaram que o principal tormento de Travis Bickle é a solidão.


É impossível discordar dessa tese, mas este não é um sentimento de definição tão circunscrita quanto parece, que o diga Paul Schrader que na epígrafe de seu roteiro utiliza um citação de um ensaio do escritor Thomas Wolfe, God’s Lonely Man, que diz nada mais nada menos do que:

“Toda a convicção de minha vida agora se baseia na crença de que a solidão, distante de ser um raro e curioso fenômeno, é o fato central e inevitável da existência humana”.

Porém, vamos combinar, que não dá para concluir daí que Travis é apenas mais um solitário como todos nós, seria ir ao extremo e resolver o problema de sua errância jogando fora a trama junto com o personagem. Sua solidão, se assumida como essência humana, acaba não simplificando muito a inequação de suas aflições.

Portanto, estamos falando de solidão num outro espectro, uma solidão calcinada e, portanto, recheada de conflito com o mundo.


Aqui começa então discussões mais interessantes que interseccionam o tema dos seus problemas, à maneira como ele consegue os articular; a capacidade de seu interlocutor de ouvi-lo; o esclarecimento do conselho dado e a própria natureza do aconselhar-se, a velha dúvida plantada de se o homem pode de fato indicar “caminhos” para outro.


Neste ponto da trama o isolamento de Travis é tão grande que ele não consegue manifestar abertamente as más ideias que passam pela sua cabeça e tem como interlocutor um colega de ofício com quem não conversa frequentemente, como ele mesmo faz questão de colocar. Isso só pode prejudicar um diálogo mais aberto e, portanto, próximo da intimidade e da possibilidade de ajuda.


Sua solidão foi potencializada pela falta de interlocutor para suas dúvidas e suas angústias, mas não só, a exceção dos seus passageiros, que o utilizam quase que como psicanalista, ele não escuta quase ninguém que possa despertar algo de mais construtivo em seu discurso interior. Por isso recorre nesse ponto a Wizard, um falastrão boa praça.


Um internauta pontuou o seguinte: 

“Alguém sabe o que ele quer ouvir? Se eu fosse Wizard, eu diria a ele, com suficiente pausas: Você é um homem. Você não pode viver de meus conselhos, mas dos seus. Tente ir atrás do que lhe passa pela cabeça e você mesmo irá encontrar o que é real. Você o que diria?”.

Embora não tenha sido exatamente esse o conselho dado por Wizard (ainda que haja uma intersecção na fala em que ele diz que se deve ser o que se quer ser), fica claro que foi este pensamento que restou para Travis, que no seu rompante final parece ter ouvido de modo inequívoco essas palavras típicas do espírito do self made man, tão impregnado e exportado pelos EUA, dando vida a seus “maus pensamentos”.

Dessa forma, outro comentarista sinaliza a eficiência do conselho de Wizard neste aspecto: 

“O conselho de Wizard é muito superficial e sem saída… ele verdadeiramente encarna apatia neste filme. Dizendo como não há escolha senão ‘ser o trabalho’. Porém de alguma maneira ele instrui Travis, inspirando-o a não seguir o caminho dele (Wizard), mas tomar uma posição por si mesmo”.

O que dialoga de alguma forma com o que diz outro internauta: 

“Travis está no limite de uma praia no fim do seu mundo conhecido. Ele pergunta a Wizard sobre seus pensamentos e a resposta é que o que quer que ele esteja pensando está bem. Ele quer matar pessoas. Quer passar a matar qualquer um que veja. Isso é o que acontece quando seu cérebro desaparece. Ele não vê as outras pessoas como pessoas, mas como o que está causando seus problemas”.

Creio que Wizard de fato lhe dá uma espécie de sinal verde para seus pensamentos, muito provavelmente considerando-os passageiros e fruto da estressante vida de um taxista noturno nos bairros mais perigosos da grande metrópole americana, porque Wizard, como assinala outro comentarista, não está em posição de ajudá-lo, ele próprio admite isso. O conselho soa mais como um consolo complacente, não a abertura de uma nova linha para lidar com as angústias.

Mas asseverar que Travis que matar pessoas só está aqui em perspectiva porque esse é o desfecho do filme. Ainda que Travis pudesse afirmar sem ironia “que o inferno são os outros”, ele também tenta reformular alguns dos seus hábitos, tenta mesmo dar ‘organização’ para suas dores, busca o diálogo que está de algum modo interditado para ele por conta da anomia em que vive já que descumpre de forma ingênua costumes tácitos como não levar uma mulher que se corteja para ver um filme pornô, um gesto que tem tanto dissentimento que no mais das vezes só pode ser lido como inverossímil.


Aqui outro comentarista diz: 

“Wizard dá conselhos que talvez pudessem ser úteis para um homem comum, qualquer um… que Travis é. Mas Travis sabe que há mais, ele vê através da cortina que está cerrada para nossos olhos. Conhecer o certo e o errado não o ajuda em nada, e isto é o que é irônico no fim do filme. Ele foi caracterizado como um herói ao matar os “criminosos”… justo depois dele tentar matar o maior dos escrotos… um político”.

Apesar das suas limitações, o conselho de Wizard suscita uma discussão empolgante e antiga. Ele começa salientando que um homem acaba se tornando o seu emprego. Travis não estaria nesse limiar do desassossego apenas por estar tão próximo e contaminado pela atmosfera violenta que o cerca no seu dia a dia?

Continua não sendo Bertrand Russell, mas um comentarista disse: “Eu escutei uma citação de Aristóteles hoje: ‘Nós somos o que nós repetidamente fazemos’. Automaticamente eu me recordei desta cena”.


Já outro discute dialeticamente a força dessa asserção: 

“Você se torna o trabalho, isso é danosamente verdadeiro… tantos robôs por aí. Tudo que eles pensam a respeito é sobre o trabalho… estreitas mentes robóticas. A perda de individualidade, num mundo urbano impessoal, o afastamento dos outros, de si mesmo, de deus, reduz os homens a bestas violentas. A especialização no trabalho significa desolação e infrutífera tentativa de encontrar um sentido para a vida. Em outras palavras, não se torne o trabalho e seja uma pessoa melhor por meio da empatia e da concórdia”.

Num tom pessoal um outro ainda diz: 

“Na verdade um conselho muito deprimente. Eu digo a mim mesmo diariamente que ‘o trabalho não faz o homem’ então não me sinto tão mal a respeito do meu desagradável trabalho sem perspectivas e com salário mínimo. É difícil se tornar homem e perceber que há muitas questões as quais você nunca vai encontrar as respostas. Se você não é o tipo de pessoa que fica contente em alcançar objetivos materialistas e escalar a piramide social, então você já é bastante um pária”.

É de fato um questão intrigante o aspecto levantado porque os ‘tambores’ soam como inevitável a conformação com as demandas da cultura dada e quem ousa erguer alto a voz, realmente fazer alguma coisa, fatalmente encontrará resistência, resta saber se também encontrará compreensão ou a força para se manter suficientemente integrado, ainda que na batalha, sem exilar-se de si mesmo que é a solidão em seu senso mais brutal e corrosivo porque optar por se proteger na insensibilidade já é uma forma de estar morto.





Júlio Reis é poeta, escritor, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 09/05/2013 por em Júlio Reis.
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