ORNITORRINCO

SAUDADE DOS PUNGISTAS



Em qualquer ofício há os que o exercem com amor, talento, aura e romantismo, e os que o mal fazem, desgraçando a profissão e se destacando pelo avesso. Vendedores de pipoca, motoristas de caminhão, comandantes de navios, cantores, pintores, escritores, presidentes, lixeiros, árbitros de futebol ou jardineiros – há os que, feito mágica, fazem diferente. É algo que se sente, feito ver um verdadeiro camisa dez bater na bola ou ouvir pela primeira vez uma canção inédita que mudará sua vida.


O horror pragmático de se calcular o valor das coisas somente pelo dinheiro vem acabando, porém, com essa mágica. E o mesmo se dá com o ofício do ladrão. Não falo dos criminosos de gravata, colarinho branco e cheques de borracha, pois dentre esses não reconheço qualquer charme, mas sim dos ladrões de rua. E sinto saudade dos pungistas.

Aprendi essa palavra num poema do Guilherme Zarvos, e nunca mais nos separamos. Pungista é o batedor de carteira, que furta algo de uma bolsa ou bolso sorrateira e discretamente, sem que a vítima perceba. Ainda que se trate de um crime, o bom pungista de outrora – espécie hoje em extinção – era a prova de que é possível se exercer com graça e até mesmo respeito qualquer profissão. 


O ladrão hoje rouba com a mesma grosseria com que um pênalti é isolado dois metros acima do travessão, os vocais de um disco são inteiramente afinados no computador, ou um motorista de ônibus atropela um ciclista a mil quilômetros por hora. Com uma arma enfiada na sua cara, o meliante leva, berrando clichês de novela, seu tênis furado, seu celular velho e os dois tostões que se tem na carteira – não sem antes lhe arrastar até um caixa eletrônico para soprar o resto de poeira que habita seu cofre imaginário. Não há metáfora, não há surpresa, não há subtexto. O revólver acaba até mesmo com a liturgia dos gritos de ‘pega ladrão’ das testemunhas e com a folclórica cena do corajoso maratonista que se desdobrava pelas esquinas atrás do bandido por pura bravura, em nome do espetáculo. 

O pungista dançava com sua vítima sem que ela nem ao menos soubesse, feito o fantasma de Fred Astaire rondando os passos de um bailarino bêbado. Só depois você percebia a ausência do bem levado, e ainda assim não se podia saber quem o roubara, quando e onde, e nem mesmo certificar se de fato o crime ocorrera, ou se você simplesmente havia perdido ou esquecido sua carteira. Havia um acordo velado entre o larapio e suas vítimas: se você se prevenir, não lhe roubarei. E, em casa, horas eram desperdiçadas arrastando-se pelas quinas e por debaixo de sofás e camas, dando sequência à coreografia, na esperança de encontrar a tal coisa. O pungismo é um teatro invisível, uma última declaração de respeito do carrasco à vítima, e ainda uma oferta de delicadeza em algo essencialmente bruto e invasivo.

E há ainda o principal aspecto que unia os pungistas aos artistas em geral: ninguém enriquecia batendo carteiras. Era um trabalho feito por talento em troca de alguns trocados imediatistas, que no máximo lhe enchiam a próxima barriga e engordavam um pouco a poupança sob o colchão. É claro que em um mundo ideal não haveria a necessidade de se roubar ninguém, mas no mundo real, a extinção dos pungistas é também sinal dos tempos. Contudo, talento, elegância, charme e samba no pé continuam sendo, no máximo, o mínimo – para a presidenta, o artilheiro, o poeta ou o ladrão.



Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.

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Um comentário em “SAUDADE DOS PUNGISTAS

  1. Domingos Guimaraens
    10/05/2013

    Lindo texto Vitor!
    Me lembrei do clááááááássico
    Pickpocket de 1959, filme do Robert Bresson.

    http://youtu.be/CCZhSPwIZEg

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Publicado em 07/05/2013 por em Vitor Paiva.
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